Como vimos no estudo que antecede a este capítulo, nossa perícope é introduzida pelo imperativo feminino plural do verbo ouvir, na forma paal: ּ “ouvi”. Com este chamamento, o profeta dá abertura ao processo jurídico, tendo as colinas como testemunhas, assim como os montes e os fundamentos da terra(v.2). Embora considerando a probabilidade de que o v. 1 seja obra da redação final, analisamos os v.1-2 como uma unidade, entendendo o v.1 como o chamado do grupo profético ao profeta. É a ele que se dirigem os imperativos “ouvi”, “levanta” e “abre”, assim como a frase “ouvirão as colinas a sua voz”. O v.2, por sua vez, aparece como a fala do profeta presidindo o julgamento. Pretendemos manter essa unidade aqui, para dar prosseguimento ao processo hermenêutico em consonância com o estudo anterior.
O verbo ּ , que traduzimos por “ouvi”, significa, em primeiro lugar, “ouvir”, “escutar” 168. Da maneira como o encontramos nessa introdução, ele representa uma das expressões mais caras e frequentes entre os motivos literários do julgamento profético e como tratamento típico das tradições deuteronomistas. A recorrência de tal expressão em sessões programáticas nessas tradições, nos leva à suposição de que pode tratar-se de uma palavra chave do ambiente profético encontrado na escola deuteronomista.169 Segundo o contexto, o significado do verbo pode variar entre a simples recepção de uma fala, a percepção mais profunda de uma realidade, o cumprimento de um pedido ou o seguimento de um conselho ou de uma ordem, podendo ser também empregado no campo jurídico, sugerindo a antecipada escuta requerida e o interrogatório das partes para o processo de julgamento. 170 No livro do Deuteronômio, o verbo no imperativo se destaca como uma importante expressão da tradição
168 Conforme ALONSO SCHÖKEL, Luís. Diccionario bíblico hebreo-español. Editorial Trotta. Madrid, 1994, p.775. Veja também SCHULT, H. “ Escuchar, oír”. In: JENNI, Ernst e WESTERMANN, Claus (ed.), Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento. Vol. II. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1985, p.1222. 169 Veja WEINFELD, Moshe. Deuteronomy and the Deuteronomic School. Eisenbrauns/Winona Lake/Indiana: Oxford University Press, 1992, p.337, onde o autor apresenta, no final, um elenco da fraseologia deuteronomista. 170 SCHULT, H. Op. cit. p.1223-1224.
deuteronomista e se assemelha a uma fórmula de credo: “Escuta, Israel” (Dt 4,1; 5,1; 6,4; 9,1).171
No v.1 o imperativo ּ “ouvi” vem acompanhado da partícula enclítica “vamos!”, a qual expressa a urgência da ação e enfatiza o caráter incisivo do discurso: o imperativo “ouvi” é para já e não representa uma ação passiva, mas um movimento. A mesma partícula, com o mesmo sentido de urgência, manifesta-se no v.5 com a expressão ־ר “lembra-te (agora)”. Não inserimos a tradução da partícula nestes dois versículos para não interromper a sequência das frases e por uma questão de estética da linguagem. No entanto, é bom constar que, no texto de origem, ela está presente e dá ênfase ao caráter de urgência no discurso.
Em nossa análise, optamos por manter a tradução de ּ como “ouvi”, considerando que o termo, ligado ao órgão do corpo humano, o ouvido, nos dá maiores possibilidades de explorar seu sentido antropológico e também teológico. Enquanto o “escutar” já implica em uma aceitação e, talvez, obediência ante uma ordem, o verbo “ouvir” denota mais a disposição e percepção do sujeito que escuta. O ouvir vem primeiro.
Nos estudos antropológicos de Hans Walter Wolff, os sentidos ver e ouvir representam parte importante da “essência humana”.172 Aqui não tratamos o termo “essência” no sentido abstrato, metafísico, mas sim como denominador da condição relacional do ser humano. Para a antropologia teológica, a dimensão relacional do ser humano é a que lhe confere sua própria essência como ser complexo e inacabado que é. Ou seja, o ser humano é ser que se constrói nas relações consigo, com o outro (seja ele indivíduo ou um coletivo), com a natureza e o mundo em que vive e com a dimensão transcendente da vida. Distinguindo-se por sua linguagem e capacidade de comunicação de modo complexo, é nessas relações que o ser humano se constrói ou se destrói, como indivíduo e como humanidade.
Segundo a concepção bíblica, o ouvido – mais do que a cabeça – integra a face humana. É a face humana, com suas expressões, que se volta para seu interlocutor, a fim de escutar, ver e falar. É na face que se reúnem os órgãos de comunicação do ser humano, entre os quais, o ouvido compõe um de seus principais. Pergunta Wolff: “Não estaremos justamente aqui, entre todos os órgãos e membros, nos aproximando daquilo que constitui a essência do
171 Veja WEINFELD, Moshe. Op. cit. p.175-176; 355.
172 Cf. WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 1993, p.131-137. Veja também, do mesmo autor, Micah. A Commentary. Op. cit. p. 172-173.
ser humano e o distingue de todas as outras criaturas?”173 Segundo o autor, a aprendizagem e capacidade linguística no ser humano é o grande diferencial de nossa espécie, abrangendo, não apenas os órgãos externos, mas estruturas neurofisiológicas complexas e profundas. A capacidade linguística integra o patrimônio genético humano.
Para confirmarmos a atualidade da questão de Wolff, apenas a modo de citação e curiosidade, lembramos que as últimas descobertas da biologia e da semiótica tem se integrado para compor uma nova ciência que compreende a interconectividade dos diversos elementos do mundo natural que se aplicam, também, à realidade humana. Essa nova ciência, articulada com a neurociência e as ciências humanas, denominada como biossemiótica, interpreta a evolução humana como a definição de processos sociais e comunicativos, onde os sinais e códigos produzidos pelos seres humanos estão integrados a processos biológicos de constituição da mente que, por sua vez, os interpreta.174 É aqui que a audição torna-se princípio da linguagem. Embora os autores de tal teoria pareçam, em um primeiro momento, negar as contradições contextuais e do próprio ser humano, no entanto, com ela se acaba por reforçar que a dimensão relacional e comunicativa é a que nos constitui como indivíduos e coletividade.
Voltando à leitura feita por Wolff, notamos que o ouvido, exteriorizado na orelha, é o órgão que se encontra entre a cabeça e a face. Embora a orelha tenha servido também como suporte para adereços e enfeites em quase todas as culturas, perfurá-la com uma ferramenta, já foi sinal de fidelidade e uma decisão jurídica sobre a propriedade vitalícia da pessoa, denotando a importância do órgão para grupos israelitas nos tempos bíblicos (Ex 21,5; Dt 15,17). O ouvido expressa, pois, que a vida humana é racional, no sentido em que as principais opções humanas passam, primeiro, pelo ato de ouvir e, depois, pelo de ver e falar.175 A fala e a ação devem ser o resultado da audição.
O profeta de Yhwh é aquele que fala por seu Deus. Para o profeta, ouvir é condição para falar (Mq 6,1; Is 50,4). Assim, antes de realizar sua missão, o profeta deve ser discípulo. Para a profecia israelita, a palavra que deve ser ouvida é o que torna a vida possível e fecunda
173 Antropologia do Antigo Testamento, op. cit., p. 131.
174 Temos um resumo das teses da biossemiótica no artigo coletivo de KULL, Kalevi; DEACON, Terrence; EMMECHE, Claus; HOFFMEYER, Jesper e STJERNFELT, Frederik. “Theses on Biosemiotics: Prolegomena to a Theoretical Biology”. In: Biological Theory 4(2) 2010, 167–173. Konrad Lorenz Institute for Evolution and Cognition Research.
(Is 55,10-11), da mesma maneira que negar-se a ouvir é recusar a vida e aderir às consequências da morte (Dt 32,47; Am 8,11). Ao lado do olho, o ouvido contribui para a percepção da presença ativa e criadora de Yhwh (Ex 14,13s; Dt 29,1-3; Is 43,8), assim como a redenção escatológica supõe abrir os ouvidos dos surdos (Is, 35,5).
Curioso é que este mesmo princípio encontrado na espiritualidade profética está presente também na tradição sapiencial, onde o verdadeiro ser humano é reconhecido pela capacidade de audição (Pr 15,32; 18,21). Disso não se pode entender, no entanto, que o ouvir se reduza a uma função meramente biológica. Estariam excluídos os surdos. Do mesmo modo que é o corpo – em sua totalidade - que fala, é também o corpo que ouve e escuta. O “ouvido” é, pois, representação dessa faculdade humana.
Além do mais, para a sabedoria bíblica, o ato de ouvir define e confere autenticidade à experiência religiosa.176 Para a sabedoria, sem o ouvir, toda ação religiosa se torna contra o ser humano e contra Deus: “O que desvia o ouvido para não ouvir a Torá, até sua prece se torna abominável” (Pr 2κ,9). A percepção sapiencial sobre o ato de ouvir vem, pois, de encontro com a nossa proposta de interpretação dos versículos 6-7 de Miquéias 6. Embora aprofundemos a questão sacrificial mais adiante com um corte antropológico, podemos dizer que nessa leitura também se dá a interface entre a profecia e a sabedoria bíblica na composição de nosso texto.
Não apenas a tradição profética apresentou uma crítica ao sistema do sacrifício, mas também a sabedoria tem uma palavra clara sobre isso a partir da importância que dá à disposição de ouvir: “Não quiseste sacrifício nem oferta, abriste o meu ouvido” (Sl 40,ι). Encontrada também na literatura reconhecida como deuteronomista, tal intuição que assume caráter de princípio, revela teologias subjacentes e, talvez, a disputa destas no interior da escola: “E disse Samuel: O agrado de Yhwh está em holocaustos e sacrifícios? Não! Ouvir na voz de Yhwh. Eis que ouvir é altar bom. Escutar atentamente é o melhor dos carneiros” (1Sm 15,22).177 Eis aqui um dos conteúdos teológicos que os ouvintes de Miquéias 6,1-8 deveriam entender.
176 WOLFF, Hans Walter. Op. cit, p. 132-133 e 137.
177 Tradução literal do hebraico feita pela autora a partir da Biblia Hebraica Stuttgartensia. Op. cit, p. 471, já que as traduções encontradas não ajudam a perceber o teor e a presença do verbo ouvir.
De certa forma, a disposição do ouvir permeia toda nossa perícope, dando-lhe coesão em seu conteúdo teológico. Como vimos no estudo do contexto, Miquéias 6,3-5 nos remete a tradições não hegemônicas sobre o êxodo e as origens de Israel. Estes versículos têm, como pano de fundo, discursos e narrativas encontrados em Nm 23-24. Entre seus personagens mais emblemáticos, encontramos a Balaão, um mago pagão que, após ouvir a Yhwh, só pôde abençoar o povo dos Israelitas que se encontrava na terra. Em Nm 24,4 Balaão é exaltado como aquele que “ouve as palavras de Deus” e, por isso, “vê aquilo que Shaddai faz ver”. Desta forma, podemos adiantar que o entendimento que essas tradições têm de Balaão corresponde a um modelo de profetas do discernimento.178 Por essa razão, Balaão é visto como um profeta que conflita com o rei Balac: este pensa que vê a totalidade da realidade de Israel, mas não o vê (Nm 23,13); é chamado por Balaão a ouvir (Nm 23,18), mas amaldiçoa a Israel.
Nossa hipótese sobre a confluência entre os dois gêneros se confirma também no que se refere ao conteúdo teológico de Miquéias 6,1-8, desde o seu princípio no v.1, encontrando- se a palavra profético-sapiencial na tessitura dessa obra. Portanto, Miquéias 6,1 supõe que o profeta ouvirá a palavra, a mesma palavra de Yhwh que passa pelo movimento profético. Com outros dois imperativos, Mq 6,1 indica o que o profeta deve ouvir: “Levanta. Abre um processo...”. O imperativo “ouvi” é dirigido, pois, ao profeta, no v.1, e aos „montes” e “fundamentos da terra”, no v.2. A parte inquirida, o “seu povo, Israel” (v.2), o “meu povo” (v.3.5), Adão (v.8), também deve participar desse ouvir. O julgamento começa entre o profeta e as testemunhas do processo neste pleito entre Yhwh e seu povo. Podemos, então, afirmar que o verbo ouvir em Miquéias 6,1-2 está sendo empregado no âmbito jurídico, já que relacionado a alguém que deve escutar e interrogar as partes e as testemunhas para, depois, emitir um julgamento.