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Appendix 1 - Total experiences

In document Norwegians in Spain: A society in limbo (sider 134-141)

8. Appendices

8.1. Appendix 1 - Total experiences

A dimensão sociocultural corresponde ao conjunto de práticas sociais que almejam transformar a concepção de doença mental junto ao imaginário coletivo, modificando as relações entre sociedade e loucura (AMARANTE, 2003). Para Yasui (2010, p. 172) a transformação do lugar social da loucura “implica transformar as mentalidades, os hábitos e costumes cotidianos intolerantes em relação ao diferente, buscando constituir uma

ética de respeito à diferença”.

Nossa intenção, neste tópico, não é esgotar as discussões sobre a dimensão sociocultural, tendo em vista a diversidade e a complexidade dessa temática. Pretendemos sim, trazer ao centro do debate dois aspectos principais: a influência que determinados conceitos arraigados nas coletividades exercem sobre a expansão ou não da RPb; e a importância de alguns instrumentos de transformação cultural na sociedade.

Para Amarante (2009), as representações sociais agregam a diferença e a divergência dos indivíduos em sofrimento psíquico à incapacidade e à impossibilidade de estabelecer trocas sociais. Desse modo, as estratégias de intervenção no campo cultural têm como objetivo transformar o lugar da loucura no imaginário social.

No que toca os domínios da imaginação, destacamos o agravante de que o campo cultural e sua herança hospitalocêntrica impactam o julgamento não só de leigos e da sociedade em geral, mas também do próprio setor saúde e até segmentos dentro da própria área de assistência em saúde mental. Essa constatação histórica e institucional demarca uma maior dificuldade para a apreensão de novos saberes e práticas e, consequentemente, para a

exequibilidade da rede de atenção à saúde mental e o substrato – não de cura, herdado das ciências biomédicas – da noção de convivência necessária como articulador desinstitucionalizante e propiciador da autonomia da pessoa com sofrimento psíquico.

Há que se discutir também a respeito das sensações de tranquilidade e alívio experimentadas pelo familiar quando da internação de um parente com sintomatologia psiquiátrica presente. Cardoso e Galera (2009) alertam para a percepção intrigante da preferência de familiares por transferir a responsabilidade do cuidado para o hospital, o que evidencia a fragilidade do conceito de “cura” da doença mental e atribui um caráter natural à ruptura dos laços familiares e do convívio social provocados pela internação.

Constata-se, na atualidade, que o isolamento familiar e social da pessoa com sofrimento psíquico através de longas internações em hospitais psiquiátricos exacerbou a condição do doente e da doença, contribuindo para o que ficou conhecido como a cronificação da pessoa como doente. Tal fato é desabonador para a condição humana relegada ao esquecimento travestido em um diagnóstico-rótulo que, historicamente, contribuiu para a eleição do objeto patológico em detrimento do sujeito em experiência de sofrimento. Com isso, tem-se a consequência do desejo veemente da cura em detrimento da convivência.

Com a efetivação da rede de atenção, especialmente através de ações territoriais no dia-a-dia de famílias com indivíduos em sofrimento psíquico, as relações seriam menos traumáticas, os cuidadores saberiam lidar melhor com o indivíduo com transtorno mental, evitando recorrer ao hospital. Além disso, seria possível desmistificar, à luz da compreensão histórica de abusos cometidos em nome de terapêuticas psiquiátricas, a ideia do hospital como

o lugar da “cura” do louco. No entanto, de acordo com Pitiá e Fugerato (2009) este processo

de articulação exige mais do que a criação de serviços substitutivos, da regulamentação das equipes de saúde mental e da normatização das ações estratégicas. É imprescindível, portanto, a desconstrução de concepções manicomiais arraigadas em mentalidades de profissionais e familiares e que influenciam imensamente a qualidade do atendimento aos indivíduos com sofrimento psíquico.

Neste plano sociocultural, Bezerra Júnior (2007) afirma que mais do que buscar a aceitação de uma nova política assistencial o desafio é fazer da loucura e do sofrimento psíquico uma questão que ultrapasse as fronteiras do discurso técnico e do saber psiquiátrico, em especial, insistindo na dimensão existencial e humana que facilmente se esconde por trás dos jargões e protocolos médico-psicológicos, trazendo para o debate público do tema atores de diversos segmentos sociais.

Para a desmistificação social da loucura Yasui (2010) aponta como principais instrumentos as ações culturais e artísticas produzidas pelos usuários dos serviços, familiares

e profissionais, e a “utopia de mudar o mundo”. Na compreensão do autor as manifestações

populares – blocos de carnaval, os programas de rádio e TV, as músicas, os grupos de teatro – e as diversas produções literárias e artísticas têm a capacidade de levar à rua o cotidiano dos serviços de saúde mental e de seus usuários, abrindo espaço na sociedade para um olhar diferente sobre a convivência com o sofrimento psíquico.

Acreditando na potencialidade da arte para a disseminação de informações e conhecimento, o Ministério da Saúde criou o Centro Cultural da Saúde. A instituição tem como objetivo resgatar a história e conferir visibilidade a evolução da saúde pública no país e a importância da participação social na construção do SUS. No que se refere à saúde mental, o órgão dispõe de uma exposição itinerante de filmes que conta com um catálogo diversificado com mais de cinquenta títulos que buscam sensibilizar os cidadãos para a Luta Antimanicomial e conquistar outro lugar social para a loucura (BRASIL, 2009a).

Conforme Bezerra Júnior (2007), essas iniciativas de sustentação do ideário da RPb produzem uma nova sensibilidade cultural para com o tema da loucura e do sofrimento psíquico. O autor sustenta que:

Trata-se da promoção de uma desconstrução social dos estigmas e estereótipos vinculados à loucura e à figura do doente mental, substituindo- os por um olhar solidário e compreensivo sobre a diversidade e os descaminhos que a experiência subjetiva pode apresentar, olhar fundado numa atitude de respeito, tolerância e responsabilidade com aqueles que se encontram com sua normatividade psíquica restringida (BEZERRA JÚNIOR, 2007, p. 247).

Assim, as expressões artísticas além de se configurarem como um importante

meio de comunicação entre os serviços de saúde mental e o “mundo lá fora”, representam

uma ferramenta significativa de educação em saúde, na medida em que sensibilizam as pessoas para a importância de reconhecer, na diferença, as potencialidades de cada um. Nesse sentido, práticas educativas constituem um dos valiosos instrumentos para que se alcance a ruptura desejada com os parâmetros de rotulação e exclusão da psiquiatria clássica.

Reiteramos a importância da dimensão sociocultural da RPb para a redução da porta giratória em saúde mental. Tendo em vista que a desmistificação da loucura junto ao

imaginário popular tem o potencial de transformar o lugar da “doença mental” na sociedade,

psiquiátrica pode reduzir a procura pela internação em hospital psiquiátrico o que, consequentemente, traz implicações para o fenômeno em estudo.

Após o exame dessas dimensões fundamentais da RPb, discutiremos a seguir, a desinstitucionalização como dispositivo primordial para a garantia da exequibilidade deste processo no contexto de atenção psicossocial.

3.2 DESINSTITUCIONALIZAÇÃO DO USUÁRIO EM SAÚDE MENTAL E A

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