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10 Appendix
A cultura, ou, mais especificamente, o não acesso a ela, é um elemento importante a ser considerado quando tratamos da condição juvenil desses jovens. Além disso, destaca-se também a precariedade de oportunidades de jovens, pobres e de periferia, ocuparem os espaços públicos de suas cidades. Em se tratando dos jovens estudados, o fato de estar militando na Frente de Juventude repercutiu diretamente no acesso às experiências culturais e de ocupação dos espaços da cidade onde moravam.
O termo cultura, por si só, é um problema de ordem conceitual, dada a infinidade de significados e possibilidades de interpretação, por vezes díspares. A cultura, em um dado momento histórico, foi considerada como sendo os costumes e práticas dos civilizados em oposição aos bárbaros, ou sem cultura. Ela serviu como justificativa para a hierarquização e dominação de povos e nações ao comparar suas formas de organização social, uma prática marcadamente etnocêntrica (SANTOS, 1996). No entanto, esse mesmo termo permite inferir a cultura como sendo um conjunto complexo de conhecimentos, crenças, valores, costumes, moral e hábitos de uma sociedade (LARAIA, 1999). Nesse contexto, podemos dizer que compartilhamos uma mesma cultura, apesar das hierarquizações decorrentes de uma relação de poder desigualmente distribuída nessa mesma sociedade.
Como reflexo dessa desigualdade de poder, podemos dizer que determinadas práticas assumem um caráter de legitimidade. Essas podem ser claramente diferenciadas e delimitadas, além de funcionar como forma de distinção social de acordo com sua posse ou carência (BARBOSA; ARAÚJO, 2009). Nesse sentido, a desigualdade de acesso à cultura traz também uma dimensão de classe e a posse, ou não, de determinadas práticas culturais podem nos ajudar a problematizar a realidade social dos jovens moradores e militantes da ocupação.
No contexto de uma cultura legítima, reforçada e valorizada pelos grupos dominantes, o acesso ao teatro, ao cinema, a museus, à literatura e às artes plásticas torna-se uma moeda desigualmente distribuída que, juntamente à escolaridade, poderá, em alguma medida, repercutir em distinção e ascensão social. Em contrapartida, o acesso a essa cultura legítima pode reverberar também na aquisição de informações e na construção de outros significados para interpelar a realidade social.
Ao tomarmos como ponto de partida a realidade dos jovens da ocupação podemos dizer de uma condição juvenil que, de maneira geral, inviabiliza o acesso do jovem pobre e de periferia à cultura e à cidade. Beatriz, ao falar dos jovens da Ocupação, diz que “é uma galera que transita muito pouco para vir para o centro, para participar das atividades culturais que tem na cidade, que são de graça inclusive, que não precisar pagar”. Para além do fato de os eventos serem gratuitos, o que pode nos levar erroneamente a caracterizar os jovens como desinteressados, a falta de dinheiro para arcar com o transporte é um dos fatores que inviabiliza a participação dos jovens da Dandara nesse tipo de atividade.
Ao tratar da distribuição de equipamentos culturais nas cidades Brenner, Dayrell e Carrano (2008) dizem que:
Pode-se afirmar com segurança que, além das desigualdades regionais entre pequenas e grandes cidades no quadro de distribuição de equipamentos culturais, há, no interior dos municípios, desigualdades tão ou mais brutais. Nas médias e grandes cidades brasileiras, as periferias, os bairros pobres, os morros e favelas são verdadeiros desertos de equipamentos culturais; ainda que a média de equipamento seja elevada, estes se encontram concentrados em centros culturais de difícil acesso físico e simbólico aos setores populares (BRENNER; DAYRELL; CARRANO, 2008, p. 179).
Para além da dificuldade de acesso dos jovens, outro elemento importante a ser considerado é o fato de os jovens, em suas várias formas de manifestação
cultural, serem vistos como detentores de uma cultura “menor”, popular, não erudita. Isso remete a uma desconsideração de formas diferentes de lidar com a cultura e de se manifestar culturalmente (BARBOSA, ARAÚJO, 2009). Além das questões já mencionadas, se tomarmos como base as políticas públicas de cultura, veremos que a figura do jovem pouco aparece, ou chega a ser desconsiderada. A realização da II Conferência Nacional de Cultura no ano de 2010 revela um dado importante e que dá a dimensão de como a juventude está fora da agenda política cultural, pois entre as 32 prioridades votadas, nenhuma tratava da juventude e a palavra não foi sequer mencionada nos documentos referentes à conferência (LEITE, 2011).
É nesse contexto de precarização de acesso à cultura que a Frente de Juventude emerge como espaço potencializador do acesso a experiências culturais e da ocupação dos espaços da cidade. Durante minha presença no campo, pude observar algumas experiências singulares nas quais os jovens participaram de eventos em universidades, centros culturais, teatros, shows gratuitos etc.
O exemplo de Maria é emblemático e dá um pouco a dimensão desse processo. A jovem diz: “Eu, por exemplo, como jovem, apesar de que isso eu devo à Dandara [à militância na ocupação]; eu fui ao teatro pela primeira vez aos 28 anos”. Em toda a sua vida ela nunca havia tido uma única oportunidade de ir a um teatro. Nesse sentido, entendo que militância na Frente de Juventude seja também uma forma de promover a socialização cultural dos envolvidos, que é também uma socialização política. Esse tipo de experiência passa a representar para os participantes uma oportunidade de acesso, de abertura de horizontes, campos de possibilidade na construção dos significados da realidade social em que se encontram inseridos. Beatriz, em sua fala sobre esse processo, diz que: “Quando você acessa um teatro, um cinema, você vai a um espaço de show, você também está se formando, tanto como pessoa, quanto enquanto militante também”.
No entanto, esse é um processo gradativo, marcado pela complexidade de conhecer o novo e construir significados. Para ilustrar, fazemos menção a um evento organizado pelo Observatório da Juventude e pelo Fórum das Juventudes da Região Metropolitana de Belo Horizonte no 1° semestre de 2013, que tinha por nome A juventude okupa a cidade. Nesse evento aconteceriam várias apresentações artísticas e haveria também palestras e a divulgação da campanha de luta contra a violência sofrida pela juventude negra promovida pelo Fórum. Por acharem que seria
uma experiência importante, os jovens da Frente de Juventude pertencentes às Brigadas Populares conseguiram o patrocínio de um ônibus que levou cerca de 40 jovens da Ocupação.
Como se tratava de um evento em um espaço cultural muito conhecido da cidade, o Espaço Cento e Quatro, a maioria dos jovens da Frente veio e um grande número de jovens da Ocupação não pertencentes à Frente também. Parecia dia de festa, as melhores roupas, os melhores tênis, todos conversando muito e brincando dentro do ônibus. Ao chegar, o grupo acabou se dissolvendo no evento. Além de um evento cultural, era também a oportunidade de curtir um pouco fora da Ocupação, conhecer pessoas e zoar. Mas era também um contato com experiências culturais singulares.
Durante o evento, uma situação foi marcante. Houve uma apresentação teatral que criticava a violência contra a juventude negra. Nessa performance, um homem negro estava coberto com uma roupa parecida com a pele e estava de joelhos no chão. Muito devagar ele ia se levantando, ao som de uma música; após se levantar ele rasgou a roupa e deixou à mostra pedaços de carne crua que estavam cobertos, foi arrancando essa carne e jogando pelo chão. Nesse momento eu estava próximo à Dorothy e outras jovens da Ocupação; assim que acabou a apresentação e todos bateram palmas, ela veio me perguntar o que era aquilo que tinha acontecido. Ela perguntou: “Você entendeu alguma coisa? Tá vendo... o pessoal [jovens das Brigadas] traz a gente nesses negócio [eventos culturais] e a gente não entende nada, isso né pra nós, não!”. Em resposta à sua indagação, disse a ela que também não tinha entendido muito, mas que “arte é assim mesmo, a gente não entende, sente, e que cada um tem a liberdade de interpretar o que viu à sua maneira”. Disse a ela o que havia entendido, que, como se tratava de um evento que criticava a violência sofrida pelos jovens negros, a carne dilacerada do corpo do homem negro na apresentação poderia fazer menção à violência. Rapidamente fui retrucado: “Mas vai gastar uns três quilos de carne só para isso? Isso dava pra fazer quase um churrasco!”. (Caderno de Campo – abril 2013).
Percebe-se, em grande medida, nessas falas da jovem, a reprodução do discurso social da cultura legítima, que contribui para que ela não se identifique por envolver situações díspares para com sua realidade e por acreditar que não seria uma coisa para os pobres. Há que se entender que não é só por se tratar de uma
experiência tida como sendo expressão de uma cultura legítima, que todos os grupos sociais irão perceber assim (BARBOSA; ARAÚJO, 2009).
Outro elemento que podemos identificar é a centralidade do cotidiano, da realidade social vivida por ela ‒ por mais que ela entenda se tratar de um evento para criticar uma determinada situação, para ela, que vivia na pele a falta de tantas coisas, ou a dificuldade de sobrevivência, a carne não é uma ferramenta do discurso teatral, é alimento e não deixa de ser. Por isso a problematização do desperdício.
Nesse cenário, entendemos que os jovens da Ocupação, pela condição de cerceados de determinadas experiências culturais, tidas como legítimas, manifestam, em grande medida, uma dificuldade de compreensão inerente à falta de acesso, o que repercute em um estranhamento diante da performance. No entanto, entendemos também que a presença desses jovens nesses espaços promove seu empoderamento, no que tange aos novos sentidos que podem ser construídos por eles a partir daí. Em se tratando desse tipo de experiência, há que se considerar que os jovens absorvem os impactos de uma intervenção dessa natureza, mas é importante observar também que os espaços são impactados diretamente pela presença desses jovens. Mesmo se tratando de um evento direcionado para a juventude, os jovens da ocupação não se identificaram plenamente, e, inclusive, manifestaram estranhamento, seja em forma de riso ou de sarcasmo.
Nesse mesmo contexto, de não reconhecimento de determinados espaços como sendo legítimos de serem ocupados por eles, jovens de uma ocupação urbana; identifiquei uma outra situação que entendo ter sido importante para os jovens. A Frente de Juventude foi convidada a participar de rodas de conversa promovidas pelo Observatório do Direito da Criança e Adolescente da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Nesses encontros, os jovens se mostraram muito tímidos, mas fizeram suas falas e se posicionaram em alguns momentos. Nesse mesmo dia, a professora que coordenava a conversa problematizou com eles o fato de terem essa dificuldade de falar naquele lugar; por mais que alguns tenham dito da timidez, a professora disse se tratar também de um reflexo do contexto de negação que eles viviam, negação da moradia, negação da saúde, negação da escola, negação da cidadania. Essa conversa repercutiu nas reuniões da Frente de Juventude e serviu para problematizar conversas sobre a realidade da Ocupação e a desigualdade social.
Sobre a motivação da presença dos jovens da ocupação na universidade, Beatriz disse que:
Ele [jovem de ocupação] tem o direito de estar naquele espaço da universidade, que, inclusive, se ele quiser estudar, ele tinha que ter o direito de estar lá dentro, que o vestibular é muito conservador, mas a gente [jovens das Brigadas] queria que se ele tivesse vontade, que ele tinha que ter o direito também assegurado de acessar uma universidade pública, de fazer um ensino superior de qualidade. (Relato de Beatriz, 2013).
A fala de Beatriz nos dá a dimensão de que a experiência de estar na universidade está para além dos eventos ocorridos, essa experiência contribui, inclusive, para discussões sobre o direito ao ensino superior. Acreditamos que esse tipo de discussão possa inclusive ter contribuído para a construção de outra relação dos jovens da ocupação para com a universidade, tendo em vista que todos os entrevistados foram categóricos quanto a vontade de estudar e estar naquele lugar. Em decorrência da participação dos jovens da Dandara na roda conversa da UEMG, a professora que estava no evento convidou Maria para participar de uma de suas aulas e fazer uma fala relatando a experiência da ocupação. Em uma conversa informal, em sua casa, Maria nos confidenciou que estava com muito medo de ir falar na universidade, para pessoas que estavam fazendo faculdade. Segundo a jovem ela não entedia o que aquelas pessoas esperavam dela, uma mulher moradora de uma ocupação urbana falando para universitários. Independente disso ela foi à universidade, fez sua fala e foi muito elogiada. Percebemos que para Maria tal experiência serviu não apenas para resignificar o espaço da universidade, mas também para colocar sua experiência de moradora de ocupação em um outro lugar, de uma experiência válida como expressão da realidade social. Segundo Bondiá (2002), esse é o tipo de experiência no qual o sujeito se mostra afetado, marcado, e isso consequentemente, reflete na sua formação/transformação por envolver conhecimento e vida humana.
Se, para discutir o acesso dos jovens a cultura, tomarmos como base as diferenças estabelecidas entre os jovens de camadas populares e os jovens de classe média, veremos que o acesso e consumo se dão de maneira desigual (BARBOSA, ARAÚJO, 2009). Se entendermos que a cultura é potencialmente um instrumento promotor da liberdade e da criticidade veremos que no contexto dos jovens moradores da Dandara o fato de participar da Frente de Juventude incide
diretamente na ampliação das oportunidades de acesso e, consequentemente, nos significados construídos a partir de suas experiências.