Nesta subseção, mostraremos que os pronomes clíticos encontrados junto às formas verbais imperativas em PA não favorecem o uso presente do indicativo ou do presente do subjuntivo com o valor semântico de imperativo. Para nortear nossas discussões, abordaremos primeiramente alguns conceitos e estudos relevantes sobre os pronomes clíticos em português. Em um segundo momento, realizaremos a análise das formas verbais imperativas acopanhadas de pronomes clíticos, confrontando os dados coletados em PA com os da pesquisadora Scherre (2002 e 2005).
Câmara Jr. (1975, [1970], p.117) afirma que os pronomes clíticos são uma das formas do pronome pessoal, caracterizando-os como uma forma dependente, ou seja, “usada [...] junto a um verbo, para expressar um complemento, que fonologicamente é uma partícula proclítica ou enclítica do verbo; respectivamente: me, nos; te, vos; o, a, ou lhe; os, as, ou
lhes”.
Para Crystal (2000, p.49), são chamados, em português, de clíticos
os pronomes átonos: me, te, se, o, a, etc. Os clíticos podem ser classificados de acordo com sua posição em relação à palavra de que dependem: proclíticos (próclise) dependem da palavra seguinte (é o caso dos artigos e de formas como Eu me sento); mesoclíticos (mesóclise) ficam no meio do verbo (sentar-me-ei) e os enclíticos (ênclise) dependem da palavra precedente (sentei-me).
Cagliari (2002, p.48-49) também apresenta uma reflexão sobre o uso dos pronomes clíticos em português, argumentando que
Clítico é uma palavra que, embora tenha uma identidade morfológica própria, aparece sempre grudada sintaticamente em outra, chamada de “hospedeira”. Os pronomes oblíquos do Português são exemplos de clíticos, pois aparecem sempre ligados a um verbo; por exemplo: “eu te vi”; “Maria
Em relação à mobilidade dos clíticos, Bisol (2000) propõe a existência de estruturas capazes de atrair os pronomes para a posição pré-verbal (certos advérbios, quantificadores, operadores Wh91, complementizadores e palavras de forma negativa), como mostra o exemplo (78): 92
(78)
a. dou-te a’. não te dou
b. eles ouviram-te b’. todos eles te ouviram
Realizando a leitura do trabalho Biazolli (2010), que retrata o comportamento dos pronomes clíticos no português paulista em meados de 1880 até 1920, verificamos que a autora arrola um grupo de fatores que podem ser observados quando o pronome clítico está adjungido a uma lexia verbal simples: tipos de clíticos, função do clítico, formas verbais, tipo de verbo (do ponto de vista lógico-semântico), ocorrência ou não de elemento procalisador na oração e verbo hospedeiro do pronome clítico em início ou não absoluto na oração.
Dentre os fatores mencionados por Biazolli (2010), o que trata do uso das formas verbais associadas aos pronomes clíticos é muito relevante para a análise dos dados desta tese. De acordo com a autora,
Quanto aos verbos nos tempos do Modo Indicativo, nenhum favorecimento a nenhuma posição - seriam neutros quanto à ordem dos clíticos pronominais, atuando, de forma predominante, na oração, outros fatores condicionantes – e se acredite que os tempos do Modo Subjuntivo influenciam o uso da próclise – já que apresentam natureza subordinativa, ocorrendo, também, em orações que exigem conjunções e palavras QU, típicos atratores, quanto ao pronome, da posição pré-verbal –, convém observar a atuação deste grupo de fatores. Por fim, em contextos de formas no Imperativo e Formas Nominais, avalia-se sobressair o uso da ênclise. (BIAZOLLI, 2010, p.122)
91De acordo com Vigário (2001), Wh questions são os pronomes interrogativos do inglês, como por exemplo:
why (por que), when (quando), what (o que), who (quem), which (qual), where (onde). A abreviatura Wh em
inglês equivale a QU-, em português. De acordo com Lopes-Rossi (1996, p.1), o termo QU- é utilizado para definir os pronomes e advérbios interrogativos como: o que, que, quem, onde, como, quando, por que e quanto. Na literatura gerativista podem ser também denominados pelos termos sintagmas/elementos interrogativos, sintagmas-Wh (do inglês Wh-phrase), sintagmas-Qu ou, ainda, sintagmas-Q. Segundo a autora, “mais de três décadas de estudos em Gramática Gerativa, no entanto, já consagraram essa denominação bem como o termo movimento-Wh em referência ao mecanismo sintático que coloca esses sintagmas na posição inicial da sentença nas línguas classificadas como [+movimento Wh]” (LOPES-ROSSI, 1996, p.1). O termo Wh- é geralmente usado quando se quer referir a formulações teóricas ou a comentários a respeito de outras línguas. O termo QU- é reservado para referências ao Português.
Segundo a citação anterior, Biazolli93 (2010) declara que em contextos onde há o uso das formas verbais imperativas ou de formas nominais, ocorre o uso da ênclise. Ao analisar seus dados, a autora afirma que “quanto aos contextos de verbos no Imperativo Afirmativo e Formas Nominais, sobressaiu-se o uso de pronomes pospostos. De um modo geral, esses resultados se assemelharam ao que estava prescrito pela norma da época.” Os exemplos utilizados pela autora, que ilustram os fatos mencionados são os seguintes: 94
(79)
Imperativo Afirmativo
Grandes pedreiras á venda!
Na estação da Rifalna, linha Mogyana,vendem-se as grandes e inexgottavaeis pedreiras alli existentes, as melhores até hoje conhecidas neste Estado, pela vantajosa colloação dellas, e enorme quantidade de pedras de superior qualidade, para toda obra, como alvenaria, calçadas, etc. Quem pretender dirija-se pessoalmente ou por carta para melhores informações […]. (“O Estado de São Paulo”, São Paulo, 1905- gênero Classificado)
(80)
Formas Nominais Infinitivo
Seguindo rumo de horisontes tão largos e já tão definidos nas seguras licções da historia, e vindo pleitear pela causa nacional em tais condições e n’ essa épocha, em que até mesmo a palavra republica já não assusta a Provincia de São Paulo, certamente encontrará terreno firme para consolidar-se e dar ao paiz resultados proficuos. (“A Província de São Paulo”,
1880- gênero Editorial)
93Biazolli (2010) trabalhou com um corpus em prosa. A autora observou a posição dos clíticos em textos jornalísticos, no período que compreende o final do século XIX e o início do século XX. Vale ressaltar que não iremos realizar um estudo comparativo envolvendo as CSM e os textos de jornais, mas sim uma retomada dos principais aspectos trabalhos por Biazolli (2010), envolvendo questões relacionadas aos pronomes clíticos e às formas verbais imperativas.
Gerúndio
Tem sido o maior êxito pra os doentes attacados de psoriasis, herpes e ecrema, melhorando-
lhe, em breve, o estado geral. (“O Estado de São Paulo”, São Paulo, 1905- Anúncio)
Particípio
[…] depois de feitas todas as citações, louvaram-se em aggrimensor, arbitradores que
procedem á medição e divisão das terras, segregado-se afinal a parte do supllicante [….]. (“Diário do Rio Claro, O Rio Claro, 1894- gênero Edital).
Os gêneros textuais presentes nos jornais analisados pela autora proporcionaram o uso de formas imperativas, entre os quais podemos destacar os classificados e os anúncios, que estão mais próximos da linguagem falada naquela época.
Já em relação ao uso da ênclise, Amaral (2012), baseada em Mattos e Silva (2006), declara que seu uso é recorrente quando o verbo está em posição inicial absoluta ou quando estamos diante de frases coordenadas que não apresentam nenhum tipo de material gramatical entre o verbo e os coordenantes (e, pero e mais), como pode ser observado nos exemplos:
(81)
O Conde, poi-la livrou dos vilãos, disse-lhe: “Senner dizede-m’ora quen sodes ou dond‟.” Ela repôs: “Moller
sõo mui pobre e coitada, e de vosso ben ei mester.” (CSM 5, 75-77). dizede = posição inicial absoluta
(82)
Pero avẽo-ll' atal que ali u sãava,
cada un nembro per si mui de rig' estalava [...] (CSM 77, 35-36)
Baseando-nos nos estudos realizados por Scherre (2002, 2005) para o PB, foi possível verificar que, no PA, os contextos em que os pronomes clíticos foram mapeados não favoreceram o uso de formas variantes na representação do modo imperativo. Segundo a autora, o posicionamento posposto do pronome átono em relação ao verbo tende a favorecer no PB o imperativo na forma associada ao subjuntivo (Retire-se). Já, se a forma pronominal estiver anteposta, há uma tendência em favorecer o imperativo associado ao indicativo.
Porém, no caso dos dados coletados nas CSM, ao contrário do que afirma Scherre (2002, 2005) para o PB, observamos que o uso posposto do pronome, ou seja, em posição de ênclise, não proporcionou o uso de formas relacionadas ao presente do subjuntivo. Foram mapeadas 82 formas pronominais adjungidas aos verbos no imperativo, como pode ser observado na tabela 6:
Tabela 6. Pronomes Clíticos com Formas Verbais Imperativas no PA.
Número/Pessoa Quantidade de ocorrências (percentual)
2ªps 73 (89%)
2ªpp 9 (11%)
Total 82 (100%)
Tabela 7 : Pronomes Clíticos com Formas Verbais Imperativas da 2ªps. Tipos de Pronomes Clíticos Lista de ocorrências Quantidade me (m’) 5.164; 6.5; 6.63; 21.43; 57.55; 67.91; 97.54; 105.114; 116.40; 124.23; 125.51; 132.98; 138.40; 167.28; 168.34; 186.53; 201.53; 237.59; 237.61; 245.61; 251.70; 268.47; 281.26; 337.30; 338.13; 341.58; 353.82; 357.17; 363.12; 381.26; 381.27; 385.18; 401.11 34 (46,6%) te (t’) 6.80; 6.84; 65.43; 75.58; 75.138; 125.21; 125.50; 158.18; 158.18; 158.23; 176.21; 178.26; 237.82; 265.76; 267.70; 268.42. 16 (21,9%) o 6.84; 65.173; 295.6; 353.82 4 (5,5%) nos 47.4; 130.16; 130. 17; 130.32 4 (5,5%) lle (ll’) 65.168;139.40; 250.8; 250.10; 401.9; 401.54. 6 (8,2%) llo 127.54; 195.92; 195.93; 292.73 4 (5,5%) llos 130.10; 303.32 2 (2,7%) a 296.7 1 (1,4%) lla 299.28; 299.43 2 (2,7%) Total 73 73 (100%)
Tabela 8: Pronomes Clíticos com Formas Verbais Imperativas da 2ªpp. Tipos de Pronomes Clíticos Lista de ocorrências Quantidade
lle (ll’) 5.29 1 (11,1%) me (m’) 5.76; 5.142; 155.28; 197.29 4 (44,4%) o 35.128; 65.183 2 (22,2%) vos 75.123 1 (11,1%) a 255.99 1 (11,1%) Total 9 9 (100%)
Todas as formas pronominais clíticas adjungidas às formas verbais imperativas mapeadas no corpus aparecem em posição de ênclise, ou seja, estão pospostas aos verbos, como pode ser observado nos exemplos a seguir:95
(85)
[...] ata que Santa Maria | lle disse “Leva-t’ende [...]”. (CSM 6, v.80) [...] “mays tu que es mui miserircordiosa,
solta-ll’ este laço en que jaz liado.” (CSM 65, v.167-168) “Soltade-o, preste, pois sodes vingado”. (CSM 65, v.183) Pois chegaron, rogou-lles muito chorando dos ollos seus,
dizendo: “ Levade-mevoc’, ay, amigos meus!”. (CSM 5,v.141-142)
4.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa seção apresentou a análise dos dados referentes às formas verbais imperativas mapeadas no corpus em estudo nesta tese e os resultados obtidos nos dão margem para sustentar a hipótese de que no PA o imperativo era um modo independente.
No período trovadoresco, as estruturas morfológicas verbais eram bem definidas para representar os três tipos de modos: imperativo, indicativo e subjuntivo. Além disso, ao observar os aspectos sintáticos das orações, verificamos que a posição ocupada pelo sujeito nas orações imperativas é sempre nula, ou seja, não há realização do sujeito marcado lexicalmente Por fim, os pronomes oblíquos adjungidos às formas verbais imperativas, juntamente com a análise da morfologia verbal, demonstram, pelo menos no conjunto das CSM, que a função imperativa (de ordem, desejo, pedido, súplica) é expressa morfologicamente através do uso padrão do modo imperativo, ou seja, sem a ocorrência de formas verbais conjugadas no indicativo ou subjuntivo para suprir esta função.