Bullying é uma palavra de origem inglesa, adotada para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão. As ações negativas podem ser de formas físicas, psicológicas, sociais e verbais e, frequentemente, combinam várias ou todas essas formas que se repetem, o que as tornam ainda mais nocivas (LOPES NETO, 2005; FANTE, 2005).
As atitudes agressivas são intencionais e repetidas, ocorrem sem motivação evidente e são adotadas por um ou mais estudante31 contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Essa assimetria de poder associada ao
bullying pode ser consequente da diferença de idade, tamanho, desenvolvimento físico ou emocional, ou do maior apoio dos demais estudantes (LOPES NETO, 2005; FANTE, 2005).
Inexiste um único termo na língua portuguesa para expressar as situações de bullying. Traduzido bully, enquanto substantivo, significa valentão, tirano; como verbo, significa brutalizar, tiranizar, amedrontar.
O ciberbullying é a forma virtual de prática do bullying, que ganhou uma nova cara com o aporte da tecnologia e se materializa em mensagens eletrônicas ameaçadoras, mensagens negativas em páginas de relacionamento, mensagens pelo celular com fotos e textos constrangedores para a vítima. Se antes os ataques ficavam restritos aos momentos de convívio na escola, agora eles ocorrem no espaço virtual, principalmente através das redes sociais, e outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas, com o intuito de maltratar, humilhar e constranger. Tais ferramentas dão aos praticantes a falsa sensação de
31 Embora o conceito elaborado por Fante e Pedra (2008) se refira à relação aluno-aluno, que é a forma mais
conhecida de bullying, a autora admite que o professor também pode ser vítima ou praticar o bullying. No entanto, essa opinião não é compartilhada por Vinha e Tognetta (2010) que limitam o fenômeno às agressões que ocorrem entre pares e não classificam como bullying o constrangimento exercido pelo professor sobre o aluno, nem o autoritarismo dos pais.
anonimato, uma vez que sua identidade e imagem não são expostas. Essa forma de ataque extrapola os muros da escola e geralmente ganha dimensões incalculáveis.
Os critérios usados para identificar o comportamento bullying são: ações repetitivas contra a mesma vítima num período prolongado de tempo; uma forma de violência entre pares; ausência de motivos que justificariam os ataques; há a intenção de ferir; somente são tomadas como vítimas aqueles cujas imagens de si são empobrecidas e revigoram as características postas em evidência pelos autores de bullying; não há bullying sem que haja um público a corresponder com as apelações de quem ironiza, age com sarcasmo e parece liderar aqueles que são expectadores (VINHA; TOGNETTA, 2010). Fante e Pedra (2008) acrescentam ainda que se deve considerar também os sentimentos negativos mobilizados e as sequelas emocionais, vivenciadas pelas vítimas. A principal diferença entre o bullying e outros tipos de violência é a propriedade que ele teria de causar traumas ao psiquismo das vítimas, comprometendo a sua saúde física e mental e seu desenvolvimento socioeducacional.
As ações são consideradas repetitivas quando os ataques são desferidos contra a mesma vítima num período de tempo, podendo variar de duas ou mais vezes no ano letivo. Um fator que precisa ser considerado é o medo, que se torna constante, de que um novo ataque volte a acontecer.
Fante e Pedra (2008, p. 9) salientam que:
o bullying é diferente de uma brincadeira inocente, sem intenção de ferir; não se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas no calor de uma discussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito à integridade física e psicológica e à dignidade humana. Ameaça o direito à educação, ao desenvolvimento, à saúde e à sobrevivência de muitas vítimas. As vítimas se sentem indefesas, vulneráveis, com medo e vergonha, o que favorece o rebaixamento de sua auto-estima e a vitimização continuada e crônica.
Por isso, essa forma de violência não pode ser interpretada como uma brincadeira própria da idade.
Algumas das ações que são perpetradas pelo bully e que caracterizam o bullying são:
exclusão social: ignorar, não deixar participar, insultar; agressão verbal: insultar, colocar apelidos ofensivos, falar mal do outro; agressão física indireta: esconder, quebrar, furtar coisas da vítima; ameaças: bater, ameaçar somente para causar medo, obrigar a fazer coisas com ameaças (chantagem), ameaçar com armas; assédio sexual: assediar sexualmente com atos ou comentários.
Fernández (2005) constatou que no fenômeno bullying diferentes papéis são desempenhados pelos envolvidos, dentre os quais destacam-se as vítimas32, os agressores e os expectadores.
Na categoria vítima, existem vários tipos de vítimas, mas uma característica em comum que todas possuem é a baixa popularidade entre seus colegas, desencadeando uma rejeição suficiente para impedir a possibilidade de receber ajuda de seus semelhantes. As “vítimas típicas33” são tímidas, retraídas, passivas, submissas, ansiosas, temerosas, com
dificuldades de defesa, de expressão e de relacionamento, geralmente, são consideradas pelos colegas como diferentes ou “esquisitos”. Além desses, as diferenças de raça, religião, opção sexual, desenvolvimento acadêmico, sotaque, maneira de ser e de se vestir traçam o típico retrato das vítimas que, na opinião de Fernández (2005), também têm parte de responsabilidade no fenômeno, uma vez que a sua própria falta de segurança ajuda o seu antagonismo, pois seus gestos, a postura de seu corpo, suas dificuldades na interpretação das mensagens dentro do discurso entre semelhantes e sua falta de “simpatia” não a favorecem.
Entretanto, alerta Fernández, é preciso tomar cuidado de não culpar o indivíduo, uma vez que a vítima tende a interpretar “o problema como contido em si mesma e, em alguns casos, que o mereça, o que inibe as possibilidades de comunicar a sua situação a outras pessoas. Além disso, sente que a comunicação a debilitaria ainda mais diante dos olhos de seus colegas, perdendo o prestígio” (FERNÁNDEZ, 2005, p. 53).
Existe também a “vítima provocadora”, que é aquela que busca a atenção dos espectadores e principalmente do grupo de colegas, age impulsivamente, provocando os colegas e atraindo contra si reações agressivas, contra as quais não consegue lidar com eficiência – por isso, acaba sendo vitimizada. “É mais ativa, segura e com maior autoestima que outro tipo de vítima; fisicamente mais forte e com facilidade para a provocação, costuma protestar com mais frequência [...] sendo ainda o elemento provocador da agressão” (FERNÁNDEZ, 2005, p. 53).
Ainda na categoria de vítima encontra-se a “vítima-agressor”, que comporta os indivíduos que são ou foram vitimizados e que acabam reproduzindo os maus-tratos sofridos. Fante (2008) acredita que podem ser esses os que, em casos extremos, munem-se de armas e
32“A atual literatura sobre o fenômeno aconselha que utilizemos as expressões alvos de bullying e autor de bullying à vítima e agressor respectivamente, na tentativa de evitar preconceitos por parte dos agentes que trabalham com situações problemas em que haja essa forma de violência” (VINHA; TOGNETTA, 2010, p. 3).
33 Os alunos vítimas de bullying, com frequência, passam a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-
se a ir para a escola, têm uma tendência maior à depressão, podem fingir enfermidades e até mesmo provocá-las em razão do seu estado de estresse. Trocam de colégio com frequência ou abandonam os estudos.
explosivos e vão até à escola em busca de justiça. Matam e ferem o maior número possível de pessoas e dão fim à própria vida.
Os “agressores ou bullies” comumente são indivíduos de temperamento agressivo e impulsivo, que têm pouca empatia, são prepotentes, arrogantes e estão sempre metidos em confusões e desentendimentos. Podem ser também pessoas com grande capacidade de liderança e persuasão, que usam de suas habilidades para submeter outro(s) ao seu domínio. De acordo com Fernández (2005, p. 54), “os agressores costumam ser deficientes em habilidades sociais para comunicar e negociar os seus desejos, enquanto as vítimas acusam uma falta de autoestima e de segurança”.
Vinha e Tognetta (2010, p. 3) apontam ainda como características do autor de bullying o fato dele ser:
notadamente mais forte fisicamente, mais esperto, ágil em manobras de articulação da turma para se voltarem contra um alvo e é um provocador permanente. Utiliza-se de sarcasmos e ironias e escolhe a dedo suas vítimas, pelo seu amplo poder de detectar nelas uma ‘falta’ ou uma característica que as façam diferentes e frágeis.
O agressor geralmente pertence a famílias nas quais há pouco relacionamento afetivo entre seus membros e parece existir uma correlação entre eles e a procedência de lares com alto nível de agressões e violência (FERNÁNDEZ, 2005).
Os “observadores ou testemunhas” são os indivíduos que não sofrem nem praticam, mas convivem em um ambiente onde isso ocorre, calam-se em razão do temor de se tornarem as próximas vítimas. Esse grupo “representa uma atitude passiva e complacente perante a injustiça e um modelo equivocado de valor pessoal, além de manifestar clara falta de solidariedade” (FERNÁNDEZ, 2005, p. 55). Muitos repudiam as ações dos agressores, mas nada fazem para intervir. Outros apoiam e incentivam dando risadas, consentindo com as agressões. Outros fingem se divertir com o sofrimento das vítimas, como estratégia de defesa. Antunes e Zuin (2008, p. 35) alertam que quando se definem os papéis, muitas vezes estereotipados, dos envolvidos no fenômeno bullying, não se considera o fato de que “as influências familiares, de colegas, da escola e da comunidade, as relações de desigualdade e de poder, a relação negativa com os pais e o clima emocional frio em casa” não são naturais e apartados das contradições sociais que os produziram. Observam também, que “o bullying se aproxima do conceito de preconceito, principalmente quando se reflete sobre os fatores sociais que determinam os grupos-alvo, e sobre os indicativos da função psíquica para aqueles considerados como agressores” (ibid., p. 36). As agressões usualmente se voltam, com maior
frequência, para grupos com características físicas, socioeconômicas, de etnia e orientação sexual diferente do que se considera “normal”, como por exemplo, os alunos obesos ou acima do peso, com baixa estatura, homossexuais e filhos de homossexuais.
Abramovay, Cunha e Calaf (2009, p. 28) alertam ainda que as pesquisas sobre o
bullying têm demonstrado que este:
não é o fenômeno mais grave que acontece no espaço escolar. Além da violência física e verbal entre pares, foram detectadas agressões verbais entre alunos, ameaças, agressões físicas, discriminações racistas e sexistas, furtos, violência sexual, a presença de gangues e tráfico de drogas. A relação entre alunos e professores é muitas vezes tensa, passando pela violência verbal de ambas as partes, e por ameaças e discriminações.
Na visão de Antunes e Zuin (2008, p. 2), antes de prontamente aceitar a definição e classificação do fenômeno bullying, “é necessário refletir a respeito da medida em que elas possibilitariam a compreensão do cerne da violência. Apesar da divulgação ampla de tal conceito e de ter adentrado com todas as forças nas discussões sobre violência escolar no Brasil”, nota-se a ausência de estudos direcionados a investigar criticamente o bullying. Para os autores,
[...] tal conceito faz parte de uma ciência instrumentalizada e a serviço da adaptação das pessoas para a manutenção de uma ordem social desigual. É importante que se questione a finalidade do conceito criado pelos pesquisadores da área e adotado inteiramente por alguns colegas brasileiros. Pensar até que ponto a classificação possibilitada pela adoção desta tipologia da violência não mascara os processos sociais inerentes aos comportamentos classificados como bullying, ou mesmo admitindo a existência de tais processos, ao tratá-los como naturais, é o primeiro passo que uma ciência deve dar, se o seu objetivo é, de fato, contribuir para o desenvolvimento da humanidade e não para a mera adaptação dos indivíduos (ANTUNES; ZUIN, 2008, p. 35).
Ao classificar determinados comportamentos, neste caso, os “tipos” de violência e, mesmo dentre esses “tipos” elencar detalhadamente as suas variáveis constituintes, as pessoas têm:
[...] a ilusão de que de alguma forma exercem seu controle sobre eles, e que de alguma maneira também conseguem controlar a violência e a natureza, tanto dentro, quanto fora de si. Porém, os fenômenos classificados, contraditoriamente, tornam-se naturais, pois se deixa de lado a raiz de sua existência, convertendo-os em números e dados estatísticos, e, como atentaram Marx e Engels [...], aparecem como ‘uma coleção de fatos sem vida’ [...]. A contradição está exatamente neste ponto: ao voltarem a ser tratados como naturais passam a exercer seu poder sobre o homem e se tornam mais incontroláveis, pois estão agora mascarados sob o rótulo de ciência (ANTUNES; ZUIN, 2008, p. 35).
A banalização e as associações indevidas ao termo bullying tendem a esvaziar o sentido dessa palavra e seu conceito. Essa é uma das expressões mais ouvidas nos últimos tempos “agora tudo é bullying”. Porém, vale explicitar que nem todos os conflitos que ocorrem no ambiente escolar podem ser explicados através do bullying, tais como as contradições de gênero, a homofobia e o racismo. Tal fenômeno também não pode mascarar outras formas de manifestação da violência – e de indisciplina – que ocorrem e que precisam ser igualmente compreendidas e combatidas. Ele é apenas uma das formas através da qual a violência se manifesta na escola, mas não é a única e nem a mais grave.