A riqueza e diversidade dos dados produzidos junto ao grupo pesquisado tornaram o processo de análise e discussão complexo, levando-nos a recortes e busca de apreensão da realidade vivenciada pelos adolescentes, na tentativa de uma das possíveis aproximações da prática assistencial e da tecnologia de cuidado desenvolvida.
Com o propósito de favorecer a compreensão do trabalho desenvolvido, apresentamos os resultados distribuídos nos seguintes tópicos: Adolescente em hemodiálise: contexto,
significados do adoecimento e do tratamento; As oficinas vivenciais como tecnologia leve no cuidado de Enfermagem ao adolescente em hemodiálise e A tecnologia leve no cuidado de adolescentes em hemodiálise: repercussão na qualidade de vida.
5.1 - Adolescente em hemodiálise: contexto, significados do adoecimento e do tratamento
Neste tópico discorremos sobre os dados levantados com a observação da dinâmica da unidade de diálise e a entrevista realizada com os adolescentes, antes das oficinas vivenciais.
Com o propósito de favorecer a compreensão do trabalho desenvolvido destacamos os aspectos - Contextualizando a dinâmica de tratamento dos adolescentes em hemodiálise e Conhecendo os adolescentes em hemodiálise e a sua relação com o adoecimento e o tratamento, dando destaque aos sentimentos e expectativas dos sujeitos quanto a participação nas oficinas vivencias.
5.1.1 Contextualizando a dinâmica de tratamento do adolescente em hemodiálise
Para abordar a questão proposta neste estudo, iniciamos com o período de observação do cenário da pesquisa, realizado no mês de novembro, uma vez por semana, seguindo o roteiro de observação (Apêndice D).
Primeiramente foi observado o local da pesquisa antes da sessão de hemodiálise (HD) para poder compreender como o adolescente está inserido neste contexto e suas relações, onde verificamos pontos que retratam uma gama de situações repleta de significados e que nos ajudaram a analisar o fenômeno estudado.
Era rotina os pacientes permanecerem no refeitório ou na sala de espera aguardando o início do tratamento. O local possui cadeiras, mesa e televisão, onde todos, independente da faixa etária, ficam juntos. Nas paredes existiam alguns cartazes com informações sobre
horários, dias de exames e consultas, e, como a coleta foi realizada no período natalino, possuíam algumas decorações referentes a esta data comemorativa.
Os adolescentes ficavam junto com outros pacientes e também com alguns acompanhantes, conversavam entre si e faziam suas refeições, mas o que chamou a atenção foi a preocupação deles uns para com os outros (questionando atrasos, faltas, se tinha alguém hospitalizado eles queriam saber notícia, se alguém não chegava eles achavam que já havia acontecido algo relacionado à saúde e ficavam especulando), porém alguns ficavam isolados jogando no celular ou assistindo televisão, regularmente eram as mesmas pessoas que ficavam afastadas do grupo.
Além destes dois locais destinados aos pacientes antes do tratamento hemodialítico, existia um lugar direcionado às crianças (brinquedoteca), mas o mesmo não estava localizado na clínica e sim em uma instituição que representa os pacientes renais crônicos, que fica em frente ao local da pesquisa, sendo aberto para todos os usuários. Esse lugar também desenvolvia atividades destinadas aos acompanhantes, e, pela proximidade, dava bastante suporte à clínica de diálise.
Os adolescentes, antes da diálise, mantinham uma relação interpessoal de proximidade, de forma geral, mas de maneira mesmo formal e mais à vontade com quem era responsável pela sua diálise, apenas cumprimentando os demais.
Para entrar na sala onde dialisavam, todos passavam por uma balança para verificar o peso e em seguida sentavam ao lado da máquina reservada para eles. Nesse período em que aguardavam sentados, a maior parte permanecia tranquila, em silêncio, apenas querendo saber quem iria puncioná-los, contudo os mais novos (10 anos) ficavam tensos, chorosos com medo da punção e com queixas relativas ao estado clínico, solicitando a presença de seu acompanhante, caso ele não estivesse ao seu lado. No grupo de pesquisa, tivemos a participação de duas adolescentes com essa idade e ambas apresentavam dificuldade para aceitar a punção, mas apenas uma sempre chorava e durante o tratamento relatava muitas queixas relacionadas ao seu estado clínico (náuseas, tontura, frio, calor, cefaleia, etc.). Para os demais adolescentes os procedimentos nesse momento eram basicamente técnicos e apoiados em protocolos assistenciais.
A rotina de tratamento valorizava prioritariamente a tecnologia dura e leve-dura, focada no procedimento e na tentativa de demorar o menor tempo para iniciar o tratamento, pois assim os pacientes seriam desligados o mais cedo possível. A dinâmica se restringia a: verificar o peso, realizar a punção ou acessar o cateter venoso central, operar a máquina,
verificar a pressão arterial, administrar medicamentos e em caso de queixas proceder conforme cada caso.
Os técnicos de enfermagem seguiam uma rotina fixa, tentando não perder tempo na hora do início, se concentravam na atividade para ligar o quanto antes seus pacientes, pois assim terminaria mais cedo. Verificou-se que os técnicos de enfermagem conversavam mais com os colegas de trabalho em relação aos adolescentes.
Nessa fase, os enfermeiros realizavam as primeiras punções, punções complexas, checavam a programação da máquina de forma individualizada, supervisionavam a equipe, procuravam ficar na sala até todos os pacientes estarem ligados e, quando necessário, davam apoio e conversavam com os adolescentes. Em seguida (maior período) ficavam na sua sala resolvendo assuntos burocráticos, aguardando o chamado em caso de intercorrências para comparecer na sala de HD, e seguiam basicamente o modelo biomédico.
Os adolescentes, regularmente, assistiam TV e dormiam durante a maior parte do tempo do tratamento, e apenas alguns conversavam ou jogavam no celular, porém, em momentos esporádicos, em média uma vez por semana, eram convidados a desenvolver algumas atividades com alunos de terapia ocupacional e pedagogia de uma Universidade da rede Privada de ensino e que realizam atividades específicas em suas áreas de competência.
Era comum intercorrências leves durante a HD como náuseas e hipotensão, mas raramente hipertensão, hipoglicemia e bacteremia. Nesses casos todos os que estavam presenciando permaneciam tranquilos, os profissionais atuavam prontamente e demonstravam preocupação. Foi detectado que os adolescentes ficavam tensos e preocupados quando eram intercorrências graves ou ficavam sabendo que algum deles estava hospitalizado.
Os sinais e sintomas relatados por esses pacientes, vão ao encontro de que Doenges, Moorhouse e Geissler (2003) relatam sobre a insuficiência renal crônica: que produz intensas mudanças em todos os sistemas corporais; quanto à circulação pode ocasionar (hipertensão arterial, arritmias, edema nos pés), sintomas neurossensoriais (cefaleia, visão turva, câimbras, dormência), sintomas gástricos (azia, náuseas, vômito, distensão abdominal), e em relação à pele pode ocorrer prurido cutâneo.
No ambiente na sala de HD não existia uma preocupação com acolhimento, as pessoas tendiam a contar histórias de sofrimento por conta da doença, mas o grupo compreendia as demandas e, além da doença, o problema social. Contudo, os profissionais tinham tendência a se afastar quando o paciente era solicitante e questionador, na tentativa de evitar as queixas. Era um local com poucas cores, excesso de tecnologia dura, com pouco espaço para movimentação, barulho intenso dos equipamentos e rotinas.
O processo de trabalho na sala de HD essencialmente era exercido pela equipe de enfermagem, com acompanhamento do médico, eventualmente da psicóloga e da assistente social.
Pôde-se observar que a relação adolescente-adolescente era amigável e de cumplicidade, a adolescente-profissional era de zelo, atenção e empática. Na profissional- profissional, eles gostavam de conversar entre si, principalmente sobre a vida particular. A relação adolescentes-demais usuários quase não envolvia diálogo, mas os mais velhos gostavam de dar conselhos e emitir opiniões. Era visível que o grupo, de uma maneira geral, tendia a ser intolerante com pessoas que eram poliqueixosas.
Era perceptível tratamento diferenciado com as crianças, todos possuíam essa preocupação de maior cuidado; em relação aos adolescentes e adultos, os profissionais não procuravam conversar, fazer perguntas e nem orientar, mas essa relação melhorava um pouco com os idosos.
Quando se aproximava do término da hemodiálise os adolescentes iam ficando inquietos, pois estava próximo de irem por estar próximo de irem embora; nesse período tinham dificuldade de se concentrar e ficavam mais falantes, excitados.
Já os profissionais nesse momento agiam de forma bastante técnica, o objetivo principal era agir sem interferências para não atrapalhar, pois queriam iniciar o quanto antes o próximo turno, e isso representava terminar mais cedo a rotina de trabalho.
Identificou-se uma rotina especifica a ser seguida durante o desligamento da máquina onde o foco se centralizava nas tecnologias dura e leve-dura. Os profissionais seguiam sempre os seguintes procedimentos: devolviam o sangue que estava nas linhas arterial e venosa, retiravam a agulha e pediam para que os adolescentes fizessem pressão no local da punção para poderem ir desligar outro paciente; quando checavam que estava tudo dentro das conformidades técnicas, eles liberavam os adolescentes.
Após a sessão de hemodiálise os adolescentes não perdiam tempo para ir embora e pouco conversavam, apenas se despediam.
Quando iam embora não era comum receberem qualquer tipo de orientação, apenas lembretes quando existia algum procedimento para realizar ou troca de turno de HD. Só foram observadas essas orientações relacionadas principalmente à grande quantidade de ganho de peso interdialítico e para procurar evitar os líquidos.
A pesquisa convergente-assistencial investiga fenômenos do contexto da prática assistencial de enfermagem que, na sua maioria, são complexos e multifacetados, pois incluem dimensões de natureza humana e tecnológica, por isso foi importante, inicialmente,
realizar esta contextualização do cenário onde o estudo foi desenvolvido. Na pesquisa convergente assistencial, os processos de assistência e de coleta e análise de informações deverão ocorrer simultaneamente, o que facilitará a imersão gradativa do pesquisador nos relatos das informações, a fim de refletir sobre como fazer interpretações e descobrir lacunas que poderão ser preenchidas ao longo do processo de investigação (TRENTINI; PAIM, 2004).
Após o período de observação, foi realizada a entrevista (APÊNDICE E) com os adolescentes antes dos encontros em grupo serem desenvolvidos.
5.1.2 Conhecendo os adolescentes em hemodiálise e a sua relação com o adoecimento e o tratamento
Com base nas entrevistas pré-oficinas foi possível definir as seguintes temáticas de interesse central do grupo de adolescentes: repensando a condição de ser renal crônico em hemodiálise por meio da busca dos significados da condição vivenciada; e expectativas em relação às oficinas a serem realizadas durante o tratamento hemodialítico.
O grupo de adolescentes pesquisados apresentou a seguinte caracterização: oito sujeitos do estudo tinham entre 10 e 17 anos, sendo seis do sexo feminino e dois masculino; o grau de escolaridade variou bastante, porém todos eram alfabetizados, dois com ensino fundamental incompleto, seis com ensino médio incompleto. Destes adolescentes, apenas dois permaneciam matriculados em escola e a justificativa dos demais por não estarem estudando foi que o tratamento hemodialítico exige deles muito tempo, pois envolve o período do tratamento em si, tanto pelo número de dias por semana como as quatros horas de hemodiálise, somado ao tempo do deslocamento até a clínica, seis deles moravam em bairros distante da clínica e dois residiam em outro município. Esses dois adolescentes que moravam no interior do estado dependiam do transporte disponibilizado pela prefeitura, que também era responsável por fazer o transporte de outras pessoas que precisavam de atendimento de saúde na capital, resultando em cada dia de tratamento em média 10 a 12 horas de tempo disponível para esses adolescentes.
Em relação ao tempo de doença, a média foi de 3,1 anos e desses adolescentes, seis dialisavam pela FAV e dois por cateter venoso central na jugular direita.
Com base nas entrevistas foram definidas as seguintes categorias relativas a percepção do adolescente sobre o adoecimento, seu tratamento e as expectativas quanto à participação nas oficinas vivenciais.
Categoria 1 - Percepção do adolescente renal crônico em hemodiálise sobre a condição