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É recorrente encontrar entre os trabalhos, tanto acadêmicos como de outra natureza171,

a caracterização dos efetivos da FEB, grosso modo, como oriundos de camadas populares, semianalfabetos e, em sua maioria, negros ou mestiços. No entanto, um levantamento criterioso desses dados nos arquivos militares permanece ainda por ser feito. A documentação, composta, dentre outras fontes, por cópias dos certificados de reservistas da FEB, esparsa e desorganizada, demandaria um investimento pessoal e de tempo muito superiores ao que se dispõe para elaborar uma tese de doutorado. Assim, cogitando-se que fosse possível, a despeito das dificuldades que serão apontadas, trabalhar com essa documentação em sua totalidade, o desafio só poderia ser realizado com a colaboração de uma equipe de pesquisadores, ao longo de vários meses.

Isso porque, em primeiro lugar, localizar todos esses certificados, no total 25.334, é uma tarefa no mínimo complicada, caso seja possível. Não apenas pelo fato deles não estarem agrupados em um único arquivo, sendo a hipótese mais provável a de que a maior parte esteja espalhada nas respectivas unidades às quais pertenciam os combatentes. Há também a questão do possível estado de conservação em que possam se encontrar, visto que no Arquivo Histórico do Exército (AHEx), um dos maiores centros de documentação militar do país, grande parte da documentação só recentemente172, recebeu tratamento arquivístico. Além

disso, é preciso considerar que se trata de um documento produzido no momento em que o militar se desliga do Exército, o que, nesse caso, não aconteceu simultaneamente com todo o efetivo da FEB. É conhecido o fato de que os soldados e cabos convocados exclusivamente para a FEB não puderam seguir a carreira militar. Embora se afirme que receberam seus certificados de reservistas ainda na Itália – por ocasião da dissolução da FEB, em 6 de julho de 1945 –, as cópias dos certificados encontrados no AHEx revelam, como veremos, que isso não foi uma realidade para todos os praças. As dificuldades em situar, física e temporalmente, esses documentos também valem para o caso dos oficiais, ainda que esse universo seja bem menor do que o dos praças. A maioria daqueles que optaram por seguir a carreira militar, foram deslocados para diversas unidades espalhadas por todo o território brasileiro e se

171 Como, por exemplo, os trabalhos de Francisco Ferraz (2002), Sirlei de Fátima Nass (2005) e o de Demócrito

Arruda et al. (1950).

172 Em especial, a partir de abril 2001 quando o Ministério da Defesa aprova o Projeto Cultural Acervo

Documental do Exército criado com o propósito de levantar e selecionar - para catalogação, informatização e difusão - documentos não apenas do AHEx, como também das demais organizações militares.

desligaram do Exército em tempos, lugares e condições distintas, o que nos permite dimensionar os obstáculos em investigar tal documentação.

Parte dela, – mais precisamente 1.166 cópias dos certificados de reservistas – será objeto de análise deste capítulo. Tal documentação se encontra reunida em sete volumes, catalogados por ordem alfabética, no AHEx. Numericamente, esse conjunto corresponde a cerca de 5% do total do efetivo da FEB na Itália, embora haja informações de que, ao menos, 32 desses homens não embarcaram para o front europeu. Portanto, esse conjunto não pode, nem deve ser tomado como uma amostragem estatística, visto que não há informações suficientes sobre sua representatividade no universo de documentos referentes ao efetivo total da FEB. No entanto, a despeito dessas questões/limites, consideramos que levando em conta o que se conhece sobre tais efetivos, trata-se de tarefa válida, na medida em que nos possibilita, a partir de dados fornecidos pelo Exército, uma melhor aproximação do perfil histórico e sociológico desses combatentes. Em alguma medida, o trabalho com esse conjunto de certificados permite um acesso, que qualifica mais precisamente o perfil do ex-combatente e contribui para o entendimento da “comunidade de sentidos” que informa o discurso de vitimização entoado, de modo geral, pelas associações de guarda de memória e pela imprensa, no pós-guerra.

Mas os problemas de natureza arquivística não são os únicos a dificultar a realização dessa tarefa. Somam-se a eles as falhas no preenchimento dos documentos examinados. No levantamento realizado no AHEx173, foram encontrados, com frequência, certificados com

alguns campos (tempo de permanência no Exército, graduação militar, forma de ingresso na FEB) em branco ou nos quais constava a seguinte inscrição: “não foi apresentado documento, a pessoa informou”, sugerindo, possivelmente, algumas imprecisões. Tal conjunto de fontes é formado basicamente por dois tipos de documentos: 1077 cópias dos Certificados de Reservista de 1ª categoria174, e 89 cópias das fichas de isenção definitiva do serviço militar em

tempos de paz. Os documentos são muito similares no que diz respeito às informações que apresentam. Ambos são compostos por duas folhas. Na primeira, consta, uma foto 3x4 e, dentre outras informações, nome completo, data de nascimento, filiação, cor da pele e dos olhos, estatura, tipo de cabelo, sinais em particular, grau de alfabetização, profissão na vida civil, local onde reside, unidade em que serviu, graduação militar, data de inclusão/exclusão

173 Com a ajuda de Natália Leal do Carmo, a quem agradeço a colaboração.

no Exército, assinatura e impressão digital do polegar direito do reservista (Figura 5). Na segunda, são repetidos alguns dados – nome, filiação, local onde reside, cor da pele e dos olhos, estatura – e acrescentados outros que dão maiores detalhes sobre as características físicas dos reservistas, como barba, bigode, rosto, tipo de nariz e de boca (Figura 6). Os campos destinados ao preenchimento desses três últimos itens foram, em geral, deixados em branco, havendo porém informações sobre estado civil e o comportamento na(s) unidade(s) em que serviu.

Não se pode afirmar ao certo o motivo dessa documentação ter ido parar no AHEx, uma vez que a trajetória militar dos reservistas, não apenas os da FEB, deveria ser arquivada nas respectivas unidades em que eles serviram. Se essa é uma questão que permanece ainda sem resposta, alguns indícios nos permitem, ao menos, levantar hipóteses sobre a origem do material. Em primeiro lugar, vale ressaltar que os documentos arquivados como “Cópias do Certificado de Reservista de 1ª Categoria” talvez sejam, na verdade, um documento também conhecido como Ficha Modelo “E”, que substitui, para fins legais, o dito certificado. A Ficha Modelo “E” pode ser expedida pela Organização Militar que detém o acervo de assentamentos do ex-combatente – um procedimento burocrático, ao que parece, mais simples

do que o pedido de 2ª Via do Certificado – e é, ainda hoje, bastante requerida nos processos de

pensão em que os familiares não possuem mais o certificado original para comprovar a condição de ex-combatente. Embora os documentos em questão não sejam designados como a tal ficha – mas como uma Cópia do Certificado de Reservista de 1ª Categoria –, reforçam essas suspeitas o fato de que, em todos eles, pode-se ler a inscrição Relação Modelo “E”, no canto externo da segunda folha. Sendo assim, a hipótese seria a de que esses documentos tenham sido requeridos na Vila Militar do Rio de Janeiro. A referência à Vila Militar do Rio de Janeiro – indicação que aparece no canto interno da ficha muitas vezes parcialmente encoberta pela encadernação do material –, e as variações nas datas de exclusão do Exército – entre janeiro de 1945 e novembro de 1948 –, podem ser tomadas como indicativos de que essa documentação (mesmo no caso dos praças convocados) não foi produzida simultaneamente na Itália, por ocasião da dissolução da FEB.

Outra característica comum nesse conjunto de documentos é o fato de todos eles terem sido produzidos pelo Centro de Recompletamento de Pessoal (CRP) da FEB. O CRP foi uma das Unidades não divisionárias mais importantes da FEB, pois desempenhava a missão de fornecer homens para substituir os feridos ou mortos em combate. A FEB, como se sabe, foi

constituída por elementos que reuniam um órgão operativo, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária – do qual faziam parte o 1º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro (o Sampaio), o 6º Regimento de Infantaria de São Paulo (o Caçapava), o 11º Regimento de Infantaria de Minas Gerais (o Lapa Azul), a Artilharia Divisionária, o Batalhão de Engenharia de Combate, o Batalhão de Saúde, o Esquadrão de Reconhecimento, a Companhia de Transmissões e a Esquadrilha de Ligação e Observações; e as Unidades Não Divisionárias, que eram integradas por órgãos de apoio, como a Inspetoria Geral, o Depósito de Pessoal – posteriormente transformado no CRP –, o Depósito de Intendência, o Serviço de Saúde, o Serviço Postal e a Agência do Banco do Brasil. Os três primeiros escalões que embarcaram para a Itália – o 1º Escalão em 2 de julho de 1944 e o 2º e o 3º Escalões em 22 de setembro de 1944 –, com aproximadamente 5.000 homens cada um, constituíam a 1ª DIE, enquanto os dois últimos que embarcaram, respectivamente, em 22 de novembro de 1944 e 8 de fevereiro de 1945 faziam parte do Depósito de Pessoal. As crescentes baixas dentro da 1ª DIE entre os meses de dezembro de 1944 e janeiro de 1945, não apenas em função do treinamento incompleto e inadequado, mas também devido às precárias condições de saúde em que vários combatentes chegaram no front, davam mostras da importância do serviço de recompletamento. Seu efetivo na Itália foi de 9.773 homens que desembarcaram no porto de Nápoles em 7 de dezembro de 1944 (o 4º Escalão) e 22 de dezembro de 1945 (o 5º Escalão), no dia seguinte à vitória brasileira em Monte Castelo. Assim, nos últimos cinco meses de conflito, o Depósito de Pessoal exerceu eficientemente a função de preencher as baixas em decorrência dos combates. Já em solo italiano, o Depósito foi transformado, por iniciativa do General Truscott, então comandante do V Exército Americano, no Centro de Instrução e Recompletamento, localizado nas proximidades do povoado de Staffoli (MORAES, 1947). Além da sua função primordial de recompletamento, o Centro ocupou-se também do treinamento e instrução das tropas estacionadas na retaguarda.

Diante dessas informações, não se encontra nenhuma evidência que leve a crer que o conjunto de reservistas representado pela documentação arquivada no AHEx tenha alguma discrepância no que diz respeito aos critérios de seleção aplicados aos três primeiros escalões que embarcaram para a Itália. Contudo, vale destacar que apesar de não existir até o momento nenhum indício do quão representativo esse conjunto é em relação ao total de reservistas da FEB, é possível construir a hipótese de que ele nos forneça uma imagem razoavelmente representativa dessa totalidade. Por hora, o objetivo é em concentrar esforços nessa tarefa,

mesmo com todos os seus limites, deixando para um trabalho futuro o investimento necessário na realização de uma pesquisa de grande monta que trace, com bases estatísticas, o perfil da FEB.

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