RANDA-JIMÉNEZ, 2016, p.24), assim como nas necrópoles do Bronze Médio de Torre Velha 3, Belmeque e Montinhos 6 (PORFÍRIO e SERRA, 2016). Segundo Vilaça et al. (1998, p.38) o gado serviria também para puxar carros, algo que só deveria acontecer em cerimónias rituais ou fúnebres.
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de fúrcula (SANTOS eSCHATTNER,2010,p.101;SANTOS,2010,p.135). Poderíamos, assim, estar na Beira Alta perante o que Alexandre Canha (2002,p.161) chama de elites agro- pastoris, onde o poder residiria na capacidade de assegurar e redistribuir excedentes e na demonstração pública dessa capacidade e de outros bens de prestígio; daí a grande necessidade em controlar e assegurar o território envolvente destes povoados, reservando- o para a agricultura e pastorícia. Seria também muito provavelmente com o gado, através das rotas de transumância, que se iniciariam e manteriam os variados contactos e trocas supra-regionais, compreendendo-se, assim, a ideia de que estaríamos perante elites compostas por “pastores”. Sem embargo, tal não seria possível sem a «(...) generalização de uma ideologia guerreira que se expressa nos rituais, no vestuário e na alimentação, que aparenta constituir um código que une as elites em diferentes contextos culturais» (MARTINS,1998,p.77).
Efectivamente, também o vestuário e apresentação estética geral dos indivíduos terão servido como forma de exercer o poder. Tal terá passado pela importação de diferentes modas, práticas e simbologias, como novos tecidos vindos do Mediterrâneo que seriam complementados com as fíbulas, cuja difusão se inicia nesse período, e cinturões (VILAÇA, 2000b, p.35; ALMAGRO-GORBEA, 1998, p.85). Também o uso de pinças, navalhas de barbear, pentes (exemplar presente na sepultura de Roça do Casal do Meio) (GOMES,1995B) e espelhos (apenas conhecidas representações em estelas) demonstra um outro nível de preocupação com a higiene e aparência visual (VILAÇA,2007a, p.147). Assim, como Senna-Martinez e Elsa Luís (2016, p.124) indicam, a demonstração de status através do mundo funerário terá sido, assim, substituída por demonstrações no mundo dos vivos.
OMUNDO FUNERÁRIO
Como sabemos, a complexificação social de uma comunidade nem sempre se reflecte no registo arqueológico, o que não significa que ela não exista desta ou aquela forma. É o que acontece com o mundo funerário do Bronze Final da Beira Alta que apesar de reflectir a individualidade que marca esse período não parece espelhar a sua sociedade em complexificação. O espólio costuma ser reduzido ou mesmo inexistente e quando presente, baseia-se em urnas ou outros fragmentos cerâmicos típicos da região e poucos
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objectos de adorno em metal, o que claramente contrasta com a riqueza metalúrgica dos povoados.
No IIº milénio generalizam-se os túmulos de tipo cairn, pequenos e circulares, construídos com lajes e blocos de granito amontoados, alguma terra e cobertos por quartzo, no centro dos quais se encontram fossas, cistas ou outras estruturas de formato cistóide. São monumentos de características semelhantes mas todos com algumas diferenças no que toca a estruturas, dimensões, orientações, espólios, etc. Com datações do Bronze Final (TABELA 2)conhecemos as necrópoles da Casinha Derribada (Mundão,
Viseu) e da Senhora da Ouvida (Castro Daire). Existem outras que por falta de investigação e, especialmente, pela carência de datações a radiocarbono permanecem na dúvida quanto à sua cronologia, mas que parecem apontar também para o Bronze Final pela sua estrutura e alguns materiais. É o caso das necrópoles do Rochão (Castro Daire) (SANTOS eMARQUES,2007), de Mazugueira/Caramêlo (Tondela) (VILAÇA eCRUZ,1999,
p.77) e do Alto do Barro Vermelho/Alto do Espinhaço (S. Pedro do Sul) (SILVA,1998,
p.248-253), do monumento 2 dos Moinhos do Vento (Arganil) (SENNA-MARTINEZ,1989,
p.132;VILAÇA eCRUZ,1999,p.78) e do monumento da Víbora (Carregal do Sal) (SENNA- MARTINEZ,1989,p.141; VILAÇA eCRUZ,1999,p.78-79). Verifica-se que ao longo do tempo os tumuli vão sendo construídos com dimensões cada vez mais pequenas, com variações de diâmetro entre os 3m e os 12m, e vão assim também perdendo domínio visual, embora sejam implantados em plataformas elevadas pouco acidentadas. São monumentos discretos apesar de se servirem de abundantes blocos de quartzo para contrastarem na paisagem. A sua distribuição é feita por agrupamentos tanto de uma ou duas dezenas de cairns como de apenas 1 ou 3 monumentos, definindo-se, por vezes, alguns núcleos. No centro dos cairns, os espaços funerários variam entre cistas, “caixas” ou fossas, onde eram depositados os restos humanos ou simplesmente cinzas, dentro de urnas ou directamente sobre a base do espaço.
Existem depois outros tipos de monumentos. Na necrópole do Paranho (Molelos, Tondela) temos um monumento datado dos finais do séc. XIV ao séc. X a.C. que consiste em 6 cistas, rodeadas por uma fiada circular de pedras espetadas no solo, e preenchidas com terra. Nas cistas, 3 delas com urnas, encontraram-se ossos incinerados, restos de artefactos em bronze e um bracelete simples, também em bronze (CRUZ,1997). Sem
datações, mas semelhante, é o monumento da Travessa da Lameira de Lobos (Cujó, Castro Daire), de planta subcircular e também definido por um círculo de lajes graníticas
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fincadas e, curiosamente, quase todas insculturadas com reticulados e semicírculos que se opõem ao longo do círculo e que encaram o exterior (VILAÇA et al.,2014b). Na Quinta do Paço (Vouzela), José Coelho encontrou uma cista, também parecida às de Paranho, que continha um vaso cerâmico com terra, cinzas e carvões (VILAÇA eCRUZ,1999,p.78). Temos depois o caso da remexida U.E. [1] da sala 20 de BMSR, onde se encontrou um fragmento de tíbia direita de um jovem adulto e que não foi possível datar, mas que poderá ser vestígio de um enterramento intencional ou de uma morte acidental dos finais do Bronze Pleno/inícios do Bronze Final (IBIDEM, p.79; CARDOSO, SENNA-MARTINEZ e
VALERA,1998,p.261).
Terão também existido reutilizações25 de monumentos megalíticos antigos,
testemunhados por materiais ou estruturas no seu interior. Na necrópole da Fonte da Malga (Viseu) identificaram-se alguns cairns entre mamoas, uma delas reutilizada com uma cista no seu interior (KALB,1994,p.415-416;VILAÇA,2015,p.86). Na necrópole de
finais do Calcolítico/inícios da Idade do Bronze do Rapadouro (Vila Nova de Paiva) foram recolhidos na câmara do Monumento 1 ossos carbonizados cujas datações a radiocarbono apontam para uma reutilização do espaço para uma incineração durante o Bronze Final (CRUZ,2001,p.185;CRUZ eCANHA,1997). Segundo Domingos Cruz (2001, p.186), a Orca do Picoto do Vasco (Pendilhe, Vila Nova de Paiva) terá também sofrido uma reutilização, atestada por um fragmento cerâmico típico do mundo Baiões/Santa Luzia recolhido nas camadas superficiais da câmara do monumento megalítico. Já no antigo monumento megalítico da Casa da Orca da Cunha-Baixa, em Mangualde, foi encontrado um pequeno fragmento metálico, de forma esférica, que os investigadores (NUNES et al., 1989) identificam como uma peça decorativa, talvez uma ponteira “bouterolle” de bainha ou um adorno do punho de um punhal (“pommette”), provavelmente do Bronze Final.
Neste mundo funerário do Bronze Final parece prevalecer a incineração, prática que começa por ser testemunhada no Monumento 2 da necrópole da Serra da Muna cujas