• No results found

Appendix 1: The members of the committee

Em linhas gerais, o humanismo pode ser definido como toda tentativa religiosa ou secular de estabelecer uma dignitas hominis, um lugar humano ideal no seio das criaturas e

35 I, 30-38. O conceito de meta-humano é desenvolvido brilhantemente por Vicente ferreira da Silva a partir

de Heidegger especialmente na fase mítico-aórgica de seu pensamento: FERREIRA DA SILVA, Vicente. Obras

Completas: Transcendência do Mundo. Introdução Geral Rodrigo Petronio. Posfácios Julián Marías, Per

Johns, Agostinho da Silva, Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Editora É, 2010. Organização, introdução geral, bibliografia e notas Rodrigo Petronio. São Paulo: Editora É, 2009-2010.

36 Sobre a antropologia fundamental, sigo sempre as intuições e explicações iluminadoras do professor

36

da Criação, bem como a modalidade e o limite de perfeição que lhe cabem como criatura livre. Esse estabelecimento de uma dignitas não é uma constante homogênea na Antiguidade, mas uma de suas linhas, de matriz vitruviana, que parte do pressuposto de uma medida humana ideal. Esta, por meio do Renascimento, desembocou na cultura moderna sob a forma do antropocentrismo, na cristologia antropofânica, nas diversas ramificações da filosofia da existência, na psicanálise e na forma acabada do individualismo liberal das democracias modernas.

O anti-humanismo é perceptível nas concepções que maximizam a função do Outro, instaurado como forma final de uma pura alteridade, bem como em perspectivas, sejam seculares, religiosas ou ateístas, que trabalhem com a noção de estruturas objetivas de produção de poder, mediante as quais a intervenção individual se torna praticamente insignificante. O Idealismo alemão, o materialismo dialético, o marxismo científico, o comunismo, a perspectiva descritivista das ciências duras (física, química, biologia), a dialética negativa da Escola de Frankfurt, a hermenêutica arqueológica de Foucault, a leitura estrutural de Marx realizada por Althusser são exemplos patentes de anti- humanismos. Aliás, não por acaso Sloterdijk toma justamente o exemplo de Althusser para demonstrar a divisão de consciência no interior do projeto marxista, fraturado entre um projeto humanista/utópico/revolucionário e outro, anti-humanista/científico/estrutural. Essa fratura se materializou nas consequências biográficas trágicas do próprio Althusser, consequências estas que Sloterdijk analisa como fruto da indefectível emergência da divisão da consciência cínica no mundo moderno, justo no coração do próprio marxismo37.

6. Humanismos

Parto da seguinte convicção: a definição de anti-humanismo, como o próprio nome o diz, é uma definição privativa que só existe e só funciona dentro de um regime de fascinação antropofânico, ou seja, no interior de um antropogema teândrico, centrado na

imago hominis, e cuja aparição na cena mundana é absolutamente ancorada nas religiões

abraâmicas. Uso aqui o conceito de fascinação no sentido de Fascinator, figura conceitual

37

criada pelo grande filósofo Vicente Ferreira da Silva, em uma de suas leituras de Heidegger: horizonte desocultante de desempenhos humanos na cena mundana38. Por isso, chamarei estas duas modalidades de compreensão do ser humano, tanto o humanismo quanto o anti-humanismo, de humanismos, no plural. Procedo assim por acreditar que, embora com notáveis distinções formais e reais, ambos sejam variações em torno de um mesmo problema filosófico: a postulação do ser humano no arco tensional das bases descritivas lançadas pela aliança entre as tradições greco-latina e judaico-cristã. Penso que essa divisão é proporcionada pela própria obra de Sloterdijk, senão na letra do texto, em um sentido hermenêutico absolutamente válido, que não a deturpa. Porém, houve uma guinada na história recente que implodiu o projeto dos humanismos a ponto não apenas de comprometer drasticamente seus valores descritivos, mas até mesmo de inviabilizar seus pressupostos epistemológicos. Essa guinada se chama Charles Darwin.

Como se nota pela minha escolha conceitual, minha preocupação neste estudo não são os conceitos de humanismo e anti-humanismo, embora eles às vezes necessariamente apareçam de maneira lateral. O cerne desta pesquisa é o estudo da hominização sob o ponto de vista filosófico, ou seja, das concepções antropofânicas que modelaram a fisionomia humana no âmbito das ciências, analisadas de um ponto de vista filosófico. A hominização, portanto, é um conceito mais amplo, não apenas distinto de humanismo e anti-humanismo, mas que inclusive os recobre epistemologicamente. Está ligada à própria seleção, preservação e adaptação da espécie, e aos mecanismos antropológicos que concorreram nesse movimento de especiação. De certa maneira, visões humanistas e anti- humanistas, entendidas em termos filosóficos, também dizem respeito a uma longa cadeia de hominização, mas não apresentam séries temporais e periodizações tão longas.

Em outras palavras, ambas as visões, humanista e anti-humanista, são distinções oriundas de uma mesma matriz de construção discursiva sobre o ser humano e de um

38 FERREIRA DA SILVA, Vicente. Obras Completas. Organização, introdução geral, bibliografia e notas Rodrigo

Petronio. São Paulo: Editora É, 2009-2010. Três Volumes. __________. Lógica Simbólica. Prefácio de Milton Vargas. Posfácio Newton da Costa. São Paulo: Editora É, 2009. __________. Dialética das Consciências. Prefácio de Miguel Reale. Posfácios Vilém Flusser e Luigi Bagolini. São Paulo: Editora É, 2009. __________.

Transcendência do Mundo. Introdução Geral Rodrigo Petronio. Posfácios Julián Marías, Per Johns, Agostinho

38

mesmo horizonte antropofânico. Entre uma antropologia cristã (homem como escândalo e desmedida) e uma antropologia vitruviana (homem como medida e fim), tais matrizes discursivas pertencem respectivamente ao universo teândrico das religiões abraâmicas e às antropofanias do mundo grego e romano, mundo este que pela primeira vez na história produz uma visão de mundo rigorosamente antropocêntrica. Nisso basicamente consiste a leitura ruidosa que Sloterdijk faz de Foucault, autor seminal para a compreensão das tecnologias do eu e dos dispositivos discursivos agenciadores das categorias de humanismo e anti-humanismo na modernidade. Ao mesmo tempo em que retém muito do seu método genealógico-arqueológico, cuja origem se entrelaça também à herança da Teoria Crítica, Sloterdijk evidencia as limitações espaço-temporais de sua hermenêutica. Em linhas gerais, como um dos representantes maiores dos humanismos, Foucault teria sido o último pensador grego do Ocidente. O canto de cisne dos humanismos.