O caso que nos ocupa foi relatado em 1758 pela escrava Joana Pereira e tem por cenário a Vila da Mocha, sujeita ao bispado do Maranhão. O relato foi registrado pelo Padre Manuel da Silva, religioso da Companhia de Jesus, que atuava como missionário nos mais longínquos recantos da colônia. A vila da Mocha, fundada em 1712, faz parte das terras conquistadas em 1674, partindo-se do interior da Bahia, por um proprietário de terras português residente em Salvador, Domingos Afonso, que fundou inúmeras fazendas de gado na região. A região em torno da vila ficou, até 1761, subordinada ao bispado de Pernambuco e Maranhão e para lá foram mandadas inúmeras famílias e degredados de forma a garantir a colonização das novas terras que passariam a funcionar como uma economia de apoio às atividades açucareiras da Bahia e Pernambuco, desenvolvendo a criação de gado em larga escala. Os registros apontam a forte presença de escravos oriundos, sobretudo, de Angola, e crioulos vindos da Bahia e do Maranhão. Para lá também migraram inúmeros trabalhadores livres prejudicados pela crise do açúcar decorrente da concorrência holandesa nas Antilhas. Em 1761, essa região acabou por ser desmembrada do Maranhão e passa a chamar-se oficialmente de Capitania de São José do Piauí (MOTT 1985).
O documento estudado intitula-se “Apresentação de Joana Pereira, Custódia de
Abreu e Josefa Linda” e se inicia com o depoimento da escrava mestiça Joana, moça solteira, com idade aproximada de dezenove anos e moradora nas Cajazeiras, fazenda
do Capitão-mor José de Abreu Bacelar. E “sem outro mais efeito que o da verdade e de
obedecer os editais do Santo Tribunal”, vai se denunciar ao Padre Manuel da Silva e confessa que, há oito anos, quando moradora na vila da Mocha, se deixou ser tomada por discípula a uma mestiça forra conhecida como Cecília, que também já era mestra de sua irmã mais velha de nome Josefa Linda. Joana afirma que estas foram as duas
Mestras que teve para tudo o que será denunciado em seguida. Antes de prosseguir ela
pede compaixão ao Tribunal do Santo Ofício e promete não reaver seus pecados. Em
seguida, confessa que, quando iniciou seu aprendizado com a “Mãe Cecília”, nas
proximidades do dia de São João, lhe foi dito que o Demônio tinha torpezas com as mulheres e que, se ela consentisse, lhe seria ensinado como. Ela aceitou e, então, durante todo aquele mês lhe foi ensinado o ritual que deveria realizar para sua consagração diabólica na véspera de São João, inclusive a ladainha que deveria desfiar no início, em frente à Igreja da vila. Assim, nua e à porta da Igreja, entre blasfêmias e
exortações a outra divindade, a quem chama “Tundá”, ela profere contundentes arrenegações aos mais diversos elementos da fé cristã.
Em seguida Joana Pereira afirma ter se dirigido a um terreno às margens da vila aonde se teriam enforcado alguns delinquentes e que ficara conhecido, portanto, como “Enforcado”. E, após repetir as mesmas arrenegações e invocações, lhe apareceu um moleque, ao qual a mestra Cecília nomeava Homem. Joana confessa: “Adorei-o antes de me pôr de quatro, pa ra ter torpíssimos e nefandos atos”. Em seguida descreve pormenorizadamente as tais torpezas que se repetem constantemente ao longo dos anos.
A mestiça afirma que, em tais encontros, nunca via mais do que uma figura e que esta
“uma s vezes era homem, outras animal imundo, outras cachorro, outra s bode, ou cabrito, outras cavalo".
A Mestra tinha ainda outro ritual encantatório para fazer aparecer o “Homem”, o qual Joana também realizou com sucesso. A bruxaria consistia em por nos quatro cantos da casa quatro potes vazios, um em cada canto para, em seguida, ir “correndo até o último, dizendo na boca de cada pote: Salve, sa lve, salve, chegando ao último dize: Salve Lúcifer. E logo de dentro há de sair um Homem”. Algum tempo depois de iniciar seu consórcio com a Mestra Cecília e o Homem, Joana teria se mudado para fazenda do Capitão-mor onde já era cativa sua irmã Josefa Linda. Lá, começou a receber ensinamentos muito parecidos dessa sua irmã de quem suspeitava ser outra discípula de Cecília, mas que, apesar de sua desconfiança, alegava não conhecer mestra nenhuma. Quando Joana mudou de senhor e passou a viver nas Cajazeiras, seu círculo de contatos com outras aprendizas cresceu, pois, na fazenda, conheceu às escravas mulatas Tereza e Agostinha, todas já versadas nos conteúdos heréticos, provavelmente sob a orientação de Josefa Linda.
Em seguida Joana informa sob algumas das atividades secretas praticadas pelas “bruxas” da fazenda. Uma descrição que, em mais de um ponto, se adequa a visão de uma reunião noturna, tal como relatada nos processos inquisitoriais europeus de feitiçaria, ao mesmo tempo em que apresenta sutis peculiaridades culturais. Joana diz
que, com as outras três escravas, parte “de compa nhia umas atrás das outras, cada uma
com o seu em figura de Homem à Mocha destas Cajazeiras ao lugar da vila chamado o Enforcado” e embora ela afirme que iam de pé, sabe que é “levada” por longas distâncias. Ela conta que, em pouco tempo, se achava com suas companheiras no “Campo do Enforcado” para cerimônia presidida pela Mestra Cecília, na qual constam
(...) de todas as cores e ca stas”. No Congresso, a Mestra Cecília anuncia ao seu séquito
de seguidoras “Entremos na nossa Vida Nova” e, então, tem início o ritual baseado em adorações e ajuntamentos carnais a que se dedicaram até o cantar do galo, quando a
Mestra encerrou a reunião sob estas palavras: “Acabou-se a nossa Vida Nova, bem nos
podemos ir embora”. Joana e suas companheiras voltam para fazenda em que viviam
tão misteriosamente quanto se foram.
Joana revela ainda ao padre que aprendeu a desprezar os sacramentos e que as raras vezes em que foi à missa o foi acompanhada do Diabo. Conta também que
blasfemava “orando em ódio contra todos e contra todas as cousas de Deus”. Além
disso, a discípula queria tornar-se Mestra e se dedicava a ensinar, por sutis sugestões e contos, outras moças escravas, além de uma “moça branca” parenta do próprio Capitão-
mor, sempre com o fim de “ver se alguma inclinava para isso”. Sem ter mais o que
confessar, roga misericórdia alegando que a ignorância foi causa de seus erros.
O documento seguinte trata da confissão de Custódia de Abreu, 18 anos, índia e também escrava do Capitão-mor José de Abreu Bacelar. Diante do padre missionário da Companhia de Jesus, Manuel da Silva, a cativa data como início de seus infortúnios pecaminosos seis para sete anos, quando seu senhor comprou uma escrava mestiça que tinha por nome Josefa Linda e de quem se fez muito amiga desde que chegou. Não
tardou a que Josefa segredasse-lhe a existência de “um homem muito destro e que não
parecia com os mais homens, que este tinha e exercitava com as mulheres de muitas e várias sortes atos torpes e que sabia fazer cousas incríveis”. Custódia se entregou aos ensinamentos da amiga para que também pudesse andar e se relacionar com o misterioso Homem. Em conversa com Custódia a escrava mestiça Josefa confessou que tudo aquilo havia aprendido na vila da Mocha sob as orientações de uma Mestra chamada Cecília.
No segundo dia, entre ensaios e preparações, Josefa veio a Custódia com duas imagens representando o Cristo e a Virgem do Carmo, a quem se referia respectivamente como o “Moleque” e a “Negrinha”, termos comuns na época para designar escravos e escravas jovens. A discípula foi alertada de que a cerimônia que se seguiria deveria ser bem apreendida e executada já que era provável que o Homem lhe
viesse ainda naquela noite. Josefa lhe disse, então, que o “moleque” era para si e que a
“negrinha” seria sua escrava e Custódia logo confessa ter batido “no chão com ela s ambas, com fúria de senhora, com desprezo e desdém, dizendo que aquele era o
Moleque e que aquela era a Negrinha”.Com uma violência explosiva Josefa também açoitava e blasfemava contra as imagens.
Segundo o que nos conta Custódia, a imagem que representava a Virgem Senhora foi o alvo preferencial da agressividade incontida da escrava Josefa que, entre
outras ofensas, a insultava de “rabicha, puta sem vergonha, cachorra parada, perra,
bruaca”. Josefa continuava seu espetáculo “arrenegando” de seus progenitores, de seu corpo e de sua alma. Após urinarem ambas sobre as imagens, em seu frenesi ritualístico, teve lugar os atos sexuais dos quais as imagens sagradas foram tidas por testemunhas, acusadas por Josefa de estarem “com inveja e querem vir a donde... vem seu Senhor, isto é, querem vir exercitar as desonestidades que elas estavam exercendo”, mas também tiveram participação ativa como instrumentos sexuais.
Após os ensaios e aprendizados, no dia apontado por Josefa, Custódia afirma ter finalmente encontrando-se com o Homem a quem prestou as devidas homenagens e adorações previamente ensinadas e com quem se entregou aos mais variados atos
sexuais. Custódia afirma ter mantido tais relações desde a chegada de Josefa à fazenda
até o momento, mas afirma não haver sido “deflorada” pelo Homem, com quem só
manteve relações sexuais efetivas após o ter sido por “pessoa humana”. Durante esses
encontros a índia cativa afirma que visualizava o tal Homem umas vezes “em figura
humana”, mas também sob as mais diversas formas animais (bode, cachorro, pato, galo, touro, cavalo e cobra). Todos estes atos passaram-se, segundo a confissão de Custódia, no interior da residência principal da fazenda que, apesar de muito ocupada de gente, foi palco desses acontecimentos que se mantiveram ocultos por meios misteriosos.
A confissão prossegue inteira de detalhes sobre a relação homoerótica que as escravas mantinham entre si e sobre a relação que ambas mantinham com o Homem. Em outro ponto peculiar ao nosso interesse, Custódia narra que, ao dia de sua comunhão, juntamente com Josefa, conseguiu sorrateiramente furtar a hóstia e entregá- la ao seu Homem que “furiosamente, batia com ela (a hóstia consagrada) no chão com incrível desprezo, pisava-a a couces e a açoutava e logo a pisava com pedra, mijava sobre ela”. Em seguida, o Homem discursava negando ao Cristo o projeto e execução da criação do mundo (na verdade, entre Cristo e o Pai não é feita distinção de ordem
alguma), pois o acusava de se gabar “que criara este mundo, mas que soubéssemos que
não fora o Sujeito que o criara, mas ele”.
E assim passaram-se os dias nos quais Custódia afirma ter incansavelmente desprezado e blasfemado contra as imagens religiosas da casa, tendo evitado ir à missa.
Sua mestra lhe contava estórias de como as coisas se passavam na vila da Mocha, com rituais e cerimônias feitos à porta da Igreja, que se iam buscar às covas, ossos de “menino pagão”, e que o demônio se nomeava por Tundá. Todos estes elementos tiveram de ser adaptados à nova realidade em que Josefa se encontrava, mas, por fim, tudo se realizou a contento. No termino de seu depoimento Custódia se desculpa pelos detalhes esquecidos e de tudo pede perdão, também prometendo apartar-se da companhia de Josefa com que ainda convive no cativeiro da fazenda.