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Appendix E The Gibbs sampling approach

Doise (2001), representante da Escola de Genebra, parte do conceito de atitude oriundo da Psicologia Social e, ao contrário de Abric (1994), concentra-se na ancoragem como processo responsável pela geração do fenômeno representacional. A atitude, nesta visão, é tratada como um construto derivado da associação entre valores sociais, próprios da coletividade, ou seja, da vida em grupos, e atitudes psicológicas, inerentes aos indivíduos integrantes desses grupos. Posteriormente, as pesquisas em Cognição Social imprimiram um ar mais interdisciplinar ao estudo das atitudes, deslocando-o da Psicologia Social para outras áreas do conhecimento.

A partir de sua investigação sobre as RS dos Direitos Humanos, o teórico pesquisou como as inserções sociais concretas dos sujeitos condicionam suas representações, vistas como tomadas de posição simbólica entre indivíduos e grupos. Interessado em compreender as concepções ideológicas dos sujeitos e sua relação com a construção das RS, Doise (2001) postulou as atitudes como “tomadas de posição simbólica” pelos sujeitos com relação ao objeto representando.

Referido teórico distingue níveis possíveis de análise em Psicologia Social sobre a hipótese de que diferentes membros de dado grupo partilham certas ideologias, diferenciando- se entre si nas relações que mantêm no campo de RS construído, através do qual é possível entrever as experiências sociais, as relações grupais (ideológicas) e as atitudes.

Tais níveis são sistematizados pelo autor em: (i) intrapessoal, relacionado ao modo como cada indivíduo organiza em seu repertório comunicacional as RS que constrói; (ii) interpessoal/situacional, relacionado ao momento da construção das RS na dinâmica da comunicação entre sujeitos, (iii) posicional, relacionado às atitudes dos sujeitos com relação ao objeto de representação e a suas condições de produção e (v) ideológico, relacionado à compreensão da construção de RS na dinâmica de funcionamento de grupos (JODELET, 2001).

Grande parte das pesquisas em RS tem se ocupado dos dois primeiros níveis. No entanto, as duas últimas perspectivas de análise apresentadas nos interessam diretamente na construção da metodologia de nossa pesquisa por julgarmos ser a RS sobre a latinidade em

suas manifestações no discurso dos sujeitos latinoamericanos fator preponderante na formação de grupos (ideológicos) em torno à ancoragem da noção de “ser latino”.

Esta noção é construída em situações específicas (condições de produção), em termos sociais, linguísticos, políticos e culturais, dentre outros, nos quais os sujeitos investigados se posicionam, enquanto membros do grupo social, com relação aos desdobramentos dessa latinidade assumida como traço identitário da nação latinoamericana, tantos os falantes de língua espanhola, como os brasileiros, falantes de língua portuguesa.

Na visão de Doise (2001) sobre o fenômeno representacional, destacamos a concepção do autor de que RS são entendidas como:

Um conjunto organizado de opiniões, de atitudes, de crenças e de informações referentes a um objeto ou a uma situação determinado ao mesmo tempo pelo próprio sujeito (sua história, sua vivência), pelo sistema social e ideológico no qual ele está inserido e pela natureza dos vínculos que ele mantém com esse sistema social. (DOISE, 2001, p. 156).

A conceituação de Doise (2001) a respeito das RS revela a percepção do autor sobre os comportamentos intergrupais, de interesse da presente pesquisa, na tentativa de compreender como os processos de categorização social guiados pela ancoragem intervêm na interação entre grupos, evidenciando que de fato as RS precedem a interação, alicerçando-a em contextos ideológicos de produção discursiva, precedendo também a ação, predeterminando-a.

Fundada neste raciocínio está a concepção de RS como “uma ação sobre a realidade” (DOISE, 2001). Na medida em que refletem uma estrutura cognitiva, ou seja, um construto em torno das estruturas mentais evidenciadas pelas EID de que fala van Dijk (1999), as RS contribuem, sócio e cognitivamente, para construção de conhecimentos pelos processos de elaboração de RS, que por sua vez orientam as práticas sociais dos indivíduos em geral, na condição de membros de grupos sociais.

Em busca do princípio organizador das RS em sua proposta psicossociológica, Doise (2001) constatou que não casualmente se instaura o sentimento de pertença de um indivíduo a um grupo, já que “cada indivíduo tem vários grupos de pertença: alguns deles servirão mais de pontos de ancoragem de suas opiniões e crenças que outros” (DOISE, 2001, p. 57). Deste modo, para o teórico, o sentimento de pertença de um indivíduo a dado grupo

social se dá por questões ideológicas, ou seja, por traços de compartilhamento de crenças, interesses, atitudes, opiniões e visões de mundo.

No caso específico de nossa pesquisa, os sujeitos investigados, ao se filiarem espontaneamente às comunidades temáticas de sites de redes sociais na WEB, constituem seus “grupos de pertença” e, por conseguinte, passam a integrar grupos sociais. Ao investirem em discussões nos fóruns abertos, estes sujeitos expõem suas “opiniões e crenças” revelando, deste modo, suas representações, em especial, nos textos que produzem.

Neste sentido, as postagens analisadas nesta pesquisa relevam os diferentes temas que uma categorização como “ser latino” assume para os membros do grupo analisado na interação contextualizada nos sites de redes sociais. Deste modo, as RS construídas mostram como os indivíduos dispõem de processos que lhes dão condições de atuar em sociedade e como as ideologias orientam o funcionamento desses processos.

Muitas vezes lançando mão de métodos estatísticos correlacionais, Doise (2001) fundamentou a perspectiva psicossociológica de investigação do universo consensual visto como uma modalidade do saber gerado através da comunicação, na vida cotidiana, com a finalidade de orientar os comportamentos e atitudes em situações reais concretas, evidenciando o “quem sabe” e o “de onde sabe”, ou seja, evidenciado as condições de produção das RS.

Van Dijk (2003), ao propor um modelo de análise contextual das ideologias, trata o “quem sabe” e o “de onde sabe” problematizado por Doise (2001) a partir da investigação de elementos como os “papeis sociais”, o sentimento de “pertencimento”, as “circunstâncias” e a referência aos “outros sociais”, todos expressos pelos atores sociais no momento da enunciação. Estas categorias mostram-se relevantes na análise a que nos propomos, uma vez que se mostram como elementos reveladores do modo pelo qual os sujeitos investigados evidenciam suas atitudes sobre o objeto representado.

Segundo Celso Pereira de Sá (1998), na definição de RS de Doise (2001), “à qual se integram proposições de Pierre Bourdieu” vê-se que “representações sociais são princípios geradores de tomadas de posição ligados a inserções específicas em um conjunto de relações sociais e que organizam os processos simbólicos que intervém nessas relações” (DOISE,

2001, p. 65), o que revela de fato a influência do metassistema social sobre o sistema cognitivo. Ainda segundo Sá (1998):

A posição ou inserção social dos indivíduos e grupos é aí um determinante principal de suas representações, o que leva Doise inclusive a interpretar o conceito de ancoragem diretamente em relação à classe ou estrato social em que a representação é construída. Em outras palavras, se a ancoragem se dá em relação a um pensamento preexistente, trata-se sempre de um sistema que se constitui e opera no âmbito de uma determinada posição no campo social. Esta é, pois, uma perspectiva que nos parece potencialmente útil para o jovem pesquisador que esteja muito preocupado em não perder de vista os aspectos mais explicitamente sociais – coletivos e ideológicos – das representações. (Idem, 1998, p. 75).

É exatamente sobre “a posição ou inserção social” dos indivíduos e grupos latinoamericanos que objetivamos compreender como se dá a construção da RS sobre a latinidade como sentimento de pertença aos grupos de cultura latina. Daí a necessidade de não “perder de vista os aspectos mais explicitamente sociais – coletivos e ideológicos – das representações”, motivo pelo qual adotamos como princípio metodológico a perspectiva psicossociológica de Doise (2001).

A partir desta perspectiva, constituiremos uma base de análise em torno aos índices linguístico-discursivos, as EID, responsáveis pela construção de tais RS. Para tal, abordaremos o caráter ideológico e discursivo das representações, embasando-se na Teoria Interdisciplinar da Ideologia proposta por van Dijk (2009) a fim de evidenciar como estruturas linguístico-discursivas contribuem para a elaboração de RS.