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Karol Wojtyla, para além das actividades pastorais, expôs as suas principais preocupações sobre o Homem, num conjunto de diversas publicações que constituem um alicerce importante da sua ética de tipo personalista. A sua produção antropológica, filosófica, teológica, poética, entre outras reflexões, compreende o período dos anos 50 até ao início do seu Pontificado.

O trabalho literário prosperou particularmente nos seus primeiros doze anos de sacerdote. A experiência da guerra, de um país humilhado pelo comunismo e as suas actividades pastorais e intelectuais clandestinas foram material útil para o seu trabalho poético e dramático.

Contudo, em 15 de Outubro de 1938, estudante de liceu, num serão literário na “Casa Católica de Cracóvia”, Karol Wojtyla apresentou algumas das suas primeiras poesias e textos para o teatro. Numa carta que data de 28 de Dezembro de 1939, Karol

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Wojtyla escreveu ao seu amigo e mestre Kotlarczyk, pedindo-lhe a sua opinião sobre o primeiro drama intitulado David e, do qual não se conhece qualquer indício. Diz o autor “Escrevi um drama, ou antes, um poema dramático, chamado David: o meu herói reveste-se, ao mesmo tempo, do traje bíblico e da batina carmesim. Pus nele muitas coisas e muitos sentimentos que enchem a minha alma. Sinto curiosidade em conhecer a tua opinião”119. Alguns meses depois, apresentou Job e Jeremias, dramas sobre o sofrimento, em que o dramaturgo colocou a acção no Antigo Testamento e no tempo em que escreveu. Job foi escrito na Primavera de 1940. A coluna vertebral deste texto foi a história bíblica de Job que representava o sofrimento da Polónia subjugada pelos nazis. Karol Wojtyla fez nesta obra de meditação sobre a justiça e a história uma adaptação do Romantismo polaco. No Verão e depois de uma leitura aprofundada da Bíblia Hebraica escreveu Jeremias. Continuou o tema do sofrimento da Polónia a partir de inspiração bíblica. Este tema foi desenvolvido na Carta Apostólica Salvifici doloris, de 11 de Fevereiro de 1984.

Com vinte cinco anos de idade, começou a escrever a peça O Irmão do Nosso

Deus, não como um drama biográfico convencional, mas tendo como linhas gerais a

vida de Adam Chmielowski. Nesta obra o dramaturgo aprofundou o mistério da decisão vocacional, apresentando a figura histórica do Irmão Alberto, cuja luta tem aspectos semelhantes aos da sua vida. Este era “uma das figuras mais enigmáticas da vida cultural e religiosa da Polónia moderna”120, por quem há muito Karol Wojtyla estava encantado. Publicou o drama teatral O Irmão do Nosso Deus que dedicou ao Irmão Alberto (Adam Chmielowski), pintor polaco de 1800, que tudo abandonou para se dedicar aos pobres, atitude que Karol viu com enorme fascínio e, ao mesmo tempo, encarou como modelo para alicerçar a sua vocação. Este homem, que tudo deixou para se dedicar aos pobres e desalojados, foi o baluarte espiritual do seu desapego total, para prosseguir de forma radical o seu sacerdócio. Esta peça foi escrita no último ano do seminário em Cracóvia e o objectivo principal era o de dar a conhecer a luta interior travada na descoberta da vocação e que culminou na dádiva de amor total e radical aos outros. No entanto, podemos também salientar a perspectiva do problema da violência revolucionária, apresentada pelas lutas do Irmão Alberto e pela confrontação da personagem Adam com o Estranho. “No plano mais profundo, a acção dramática em O

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MALINSKI, M., Le radici di Papa Wojtyla. Biografia scritta da un amico, Borla Editore, Roma, 1979, citado por ACCATTOLI, Luigi, Karol Wojtyla o homem do final do milénio, Tradução de Maria do Rosário Pernas, Paulinas, Lisboa, 2000, p. 31.

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Irmão do Nosso Deus constituía uma luta sobre o significado da liberdade e por

extensão do significado da existência humana”121. Em 1989, João Paulo II, canonizou Adam Chmielowski santo.

A 6 de Março de 1949, o manuscrito do jovem padre regressado de Roma,

Missão de França, aparecia na primeira página do Tygodnik Powszchny um prestigiado

começo para um estreante ensaísta, uma vez que este era o melhor jornal da Polónia comunista, a fonte mais credível de informação não censurada122. Neste ensaio, Karol Wojtyla apresentou a experiência vivida em França, junto dos padres-trabalhadores. O catolicismo francês do pós-guerra encontrava-se numa situação de desespero pelo que Karol Wojtyla ficou cativado pelo compromisso e método de persuasão utilizado por estes padres. Esta nova maneira de ser sacerdote era uma resposta pastoral inovadora e que estava de acordo com as circunstâncias. Ao mesmo tempo admirou-se e encantou-se com as reformas litúrgicas que incluíam missas com diálogo em que havia participação activa das pessoas.

O segundo artigo, publicado pelo mesmo jornal, “foi o seu tributo a Jan Tyranowski, intitulado «Apóstolo». Nos anos seguintes contribuiria com ensaios sobre a antropologia cristã, castidade conjugal e outros temas, tanto para o jornal Tygodnik

Powszechny como para a revista Znak”123.

A partir de Janeiro de 1954, momento em que defendeu a tese do segundo Doutoramento intitulada A avaliação da possibilidade de construção de uma ética

cristã fundamentada no Sistema de Max Scheler, podemos, então, considerar vários

períodos de produção filosófica.

A produção filosófica, propriamente dita, abrangeu o período entre a data da tese de Doutoramento sobre Max Scheler e as reflexões sobre filosofia social que precederam a sua eleição Papal.

O primeiro período englobou os anos 50-70, em que desenvolveu temas relacionados com a ética filosófica e o amor humano. O segundo período foi um marco na transição do seu pensamento que teve início com a obra Pessoa e Acto. O terceiro período nasceu com a última secção de Pessoa e Acto que tem como título O Homem na

Esfera da Responsabilidade.

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WEIGEL, George, op. cit., p. 114. 122

Cf. WEIGEL, George, op. cit., p. 109. 123

O primeiro período ainda se pode dividir em duas fases. Numa primeira fase, publicou vários ensaios de filosofia moral e de ética, entre os quais se destacaram a sua tese sobre a Ética de Scheler e Amor e Responsabilidade. Na segunda fase encontramos um conjunto de estudos de Ética Personalista com filiação tomista e enriquecida por autores como Kant, Scheler e Hume, compilados na obra espanhola Mi visión del

Hombre.

Wojtyla, convencido de que a realidade «objectiva» do mundo, poderia permitir a descoberta de algo importante na busca da felicidade, das virtudes e dos deveres morais na vida, começou a investir no campo da ética. A partir deste momento, conclui que a análise filosófica da realidade em relação com a vida moral, que lhe tinham dado a conhecer, estava desactualizada, relativamente ao mundo contemporâneo. Aristóteles e S. Tomás de Aquino tiveram como base filosófica a cosmologia, Karol Wojtyla pensou “que, começando de outro ponto de partida, a filosofia podia ainda ir mais ao fundo das coisas tal como são, para ajudar-nos a captar a forma, em que devemos agir. A experiência moral que tem da pessoa humana, da vida «entre» a pessoa que sou e a pessoa que devo ser era o palco, no qual as grandes questões morais do bem e do mal, virtude e dever, se apresentariam em si mesmas”124. Dando seguimento a este seu pensamento, e atraído pelo modo como a fenomenologia via as coisas como um todo e permitia chegar à realidade das mesmas, iniciou a tese de doutoramento fundamentada na obra de Max Scheler. Com a finalidade de encontrar um alicerce filosófico sólido para a vida moral, utilizou como base a fenomenologia da ética de Scheler, particularmente a ética dos valores. No entanto, concluiu que esta não podia resolver na totalidade os problemas, mas ainda assim, era extremamente importante, porque se tratava de um novo caminho que permitia fazer a síntese do realismo metafísico de Aristóteles e de S. Tomás com a sensibilidade da experiência humana da fenomenologia de Max Scheler. “O estudo de Scheler constituía a primeira tentativa ininterrupta, de Karol Wojtyla, de vincular a objectividade realista, existente na filosofia que aprendera no seminário e no Angelicum, à ênfase da filosofia moderna na experiência humana e a

subjectividade humanas”125.

Entre o ano de 1955 e o ano de 1958, Karol Wojtyla escreveu cerca de vinte artigos, com conteúdo ético-antropológico que abordavam temas como o problema da ética científica, o humanismo, a finalidade do homem, a gratuidade, a atitude face ao

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WEIGEL, George, op. cit., p. 126. 125

prazer, o direito natural, o amor e a justiça, entre outros, sempre tendo como cenário de fundo a felicidade, principal aspiração do homem. Estes artigos corresponderam a três cursos que ministrou na Universidade Católica de Lublin (1954-1958). Nos anos de 1956 a 1958 escreve vários artigos intitulados ABC da ética, que foram também publicados no jornal Tygodnik Powszechny.

Nos dois anos seguintes, as suas reflexões orientaram-se para o personalismo, característica do seu pensamento ético que desenvolveu na escola de Ética de Lublin, inserido no grupo de filósofos e intelectuais, particularmente preocupados com a fundamentação da ética. Mais tarde já como Papa salientará a necessidade desta fundamentação, através de uma reflexão ética profunda, numa verdadeira antropologia apoiada na metafísica. Para este pensador “A crise da ética é a prova mais evidente da crise da antropologia, originada por sua vez pelo rechaçar dum pensamento verdadeiramente metafísico. Separar estes três momentos – o ético, o antropológico e o metafísico – é um gravíssimo erro”126.

O trabalho de professor e a sua actividade literária como poeta e dramaturgo desenvolveram-se paralelamente ao trabalho pastoral e sacerdotal que deixou marcas profundas na sua produção intelectual. Foi destas pontes entre as várias dimensões da vida que nasceu Amor e Responsabilidade e A Loja do Joalheiro, este último como complemento filosófico segundo o qual só se pode chegar à verdade partindo da diversidade de métodos.

Amor e Responsabilidade foi publicado em 1960. Nele fez a exegese da sua

experiência como conselheiro de noivos e jovens casais, no sentido de criar uma moral sobre a sexualidade humana, a partir da experiência de homens e mulheres sedentos de respostas. No trabalho com os jovens casais não se inibia de falar de assuntos que segundo a mentalidade da época eram impróprios para padres. Assim, num retiro referiu que o desejo sexual era um dom de Deus e como tal o deviam oferecer exclusivamente a Deus, através de um voto de virgindade ou, então, oferecê-lo a outra pessoa que não podia ser magoada, mas amada. Como só a pessoa podia amar, significava que ela queria a felicidade do outro, oferecendo-se a si própria como dom ao outro. Desta forma, respeitava o desejo que existe no amor e não o estava a violar. Era assim que os jovens continuavam à procura da beleza do amor.

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WOJTYLA, KAROL, Mi Visión del Hombre. Hacia una nueva ética, 3ª ed., Ediciones Palabra, Madrid, 1998, pp. 21-22.A partir de agora MVH seguido de página.

Em 1957, numas férias que fez na região dos lagos Mazurian com alunos de filosofia, psicologia e ciências médicas, apresentou o projecto desta obra, promovendo reflexões, debates e diálogo individual ou em grupo sobre o seu ponto de vista prático e humano. “Amor e Responsabilidade, como lembrou o autor, «nasceu da necessidade pastoral». A vasta experiência pastoral de Wojtyla na preparação para o matrimónio, e como confessor de jovens, convenceram-no de que era preciso desenvolver e repensar a ética sexual da Igreja. Os homens e as mulheres jovens contavam como direito não só à instrução mas também à afirmação e celebração da sua vocação, no matrimónio, que incluía a vocação para o amor sexual. Com Amor e Responsabilidade, Karol Wojtyla deu um passo em frente num dos campos minados da vida católica contemporânea”127.

A partir de 15 de Setembro de 1979, o Papa João Paulo II, nas audiências de quarta-feira deu início a quatro anos de discursos semanais, onde se propôs desenvolver a ideia do amor sexual humano à imagem da vida interior da Trindade que tinha arquitectado nesta obra.

Em Dezembro de 1960, foi publicada, na revista Znak (O Sinal), com o pseudónimo «A. Jawien», a peça de teatro A Loja do Joalheiro. Tratava-se de uma história que narrava as vicissitudes de três casais e expõe uma profunda reflexão sobre o sacramento do matrimónio. “A Loja do Joalheiro, uma meditação poética sobre o mistério do matrimónio, constituiria pagamento parcial da dívida de Wojtyla para com o

Srodowisko. Ao mesmo tempo, aprofundava a meditação do dramaturgo sobre a luta

humana ao fazer de um dom o seu próprio destino como criatura à imagem e semelhança de Deus”128. A maioria das situações dramáticas, vividas por estas personagens, era adaptação da sua experiência vivencial com os elementos do grupo

Srodowisko. A habilidade poética de Karol Wojtyla foi bem explorada, como refere

George Weigel que apresentou nesta obra a história de três casamentos vividos em circunstâncias diferentes. Um dos casais, Andrew e Teresa, estiveram casados pouco tempo, pois o marido morreu na guerra e ela ficou com Christopher nos braços para criar. Stefan e Anna, não morreram na guerra, mas deixaram morrer o seu amor estável, que deixou de florir, caindo na indiferença e na hostilidade. A flor do amor que murchou deixou rebentos, Mónica, filha do casal que sofreu com toda a situação. Mais tarde, Stefan e Mónica, apaixonaram-se, mas marcados pela dor e pelo peso das suas histórias familiares incorporaram a esperança da redenção para todos. Estas personagens

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WEIGEL, George, op. cit., p. 140. 128

continuaram a ser pontos de referência, nos discursos sobre a família elaborados por Karol Wojtyla durante o seu pontificado face a muitos casais do nosso tempo, em que um dos elementos fica sozinho com os filhos para criar, após a morte de um deles; em que o amor estável e a indiferença criam hostilidade e cujas principais vítimas são os filhos que, mais tarde, carregarão esse peso e na maioria das vezes ficam divididos entre o casal. A partir da esperança que existe, por parte dos rebentos da videira, conseguirem construir um projecto de duas pessoas que se encontram, transformadas pela entrega mútua, os filhos procuram agarrar e alicerçar o amor e a fidelidade, de modo a que não sejam reduzidos a simples emoções.

No desenvolvimento da segunda fase do primeiro período de pensamento, decidiu que era necessário aprofundar a nova leitura do Tomismo reavivado pela linguagem fenomenológica, deixando os esquemas de confrontação para intensificar uma das suas principais características, o diálogo “com os pensadores que contribuíram para formar os sistemas éticos vigentes nos nossos dias, concretamente Kant e Scheler”129.

Partindo da comparação entre o pensamento de Scheler e Kant, Karol Wojtyla propõe na tradução da concepção aristotélica-tomista do acto ético, o enraizamento nas noções de potência e acto. Todavia, temos que recordar que estas noções metafísicas foram abaladas por Kant.

Como o teleologismo fundamental da ética de Santo Tomás não o satisfez completamente, pois estava orientado para o fim último, procurou na construção da filosofia moral a via de Scheler. Deste filósofo, Karol Wojtyla utilizou a concepção da experiência como ponto de partida da sua ética.

Wojtyla permaneceu sempre “fiel aos critérios que marcaram a sua obra filosófica-ética: conservando o núcleo normativo da ética tomista tradicional, procurando reinterpretá-la e enriquecê-la seguindo a direcção de correntes filosóficas contemporâneas”130.

Toda a sua reflexão estava impregnada da experiência e dos problemas do dia a dia, que muito contribuíram para a sua descoberta intelectual. “O meu conceito de pessoa, «única» na sua identidade, e do homem como tal, centro do Universo, nasceu da

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MVH, p. 8. 130

experiência e da comunicação com os outros em maior medida do que com as leituras”131.

Estas reflexões marcaram mudanças intelectuais importantes e contribuíram para a transição temática do seu pensamento, o que se verificou na obra antropológica

Pessoa e Acto (Osaba y czyn), publicada em 1969 e que veio a constituir o ponto de

referência da sua obra filosófica. O projecto filosófico de Karol Wojtyla esteve sempre ligado ao seu serviço apostólico, evangélico e pastoral. A ideia desta obra nasceu da sugestão apresentada por Stanislaw, Monsenhor em Cracóvia que depois de ter lido

Amor e Responsabilidade o aconselhou a escrever uma obra sobre a pessoa. Mas

naquele momento os seus pensamentos estavam sedentos de explorar questões filosóficas que visavam a relação entre a verdade objectiva das coisas e a experiência pessoal ou subjectiva da verdade, apoiando-se na filosofia do ser e na filosofia da consciência.

Este projecto foi esboçado durante as sessões do Concílio, por isso, podemos falar, diz-nos George Weigel, de um produto do Concílio Vaticano II. Karol Wojtyla acreditava que o Concílio teria que dar respostas ao mundo moderno, mas só o conseguiria fazer através de uma explicação filosófica mais clara. Para contrapor a desintegração planeada pelas mais diversas ideologias era necessário fazer renascer o mistério inviolável da pessoa. “Para Wojtyla era fundamental demonstrar filosoficamente que a procura humana do significado se dirige para o bem e que a pessoa que procura o bem deseja dirigir-se para algo que é, objectivamente, bom”132. Na Constituição Gaudium est spes a Igreja fez uma proposta ao mundo moderno, no sentido de construir uma civilização caracterizada pela justiça, pela paz e pela prosperidade alicerçada no conceito da pessoa humana. Karol Wojtyla tinha participado activamente neste documento e pensava que esta nova antropologia tinha de estar bem fundamentada em pressupostos filosóficos, acessíveis a todos independentemente da sua religião, visto tratar-se da pessoa humana.

Karol Wojtyla ao escrever Pessoa e Acto construiu um projecto intelectual com a finalidade de tentar criar uma filosofia da pessoa. Esse projecto filosófico começou com uma introdução sobre a natureza da experiência humana e sobre o modo como os seres humanos conhecem o mundo e a verdade das coisas. De seguida, Karol Wojtyla levou-nos numa viagem onde nos mostrou como é que os pensamentos sobre o mundo e

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MVH, p. 15. 132

sobre nós mesmos nos ajudam a compreender como pessoas. Nesse mundo que nos rodeia fazemos experiências que nos ajudam a conhecer como uma pessoa, como um sujeito de acções que pensa e actua livremente. Segundo Karol Wojtyla ao escolhermos determinado acto livremente fazemo-lo porque se apresenta como um bem. Ao escolhermos o bem e a verdade livremente, podemos discernir a transcendência da pessoa humana. Esta forma permite-nos compreender a pessoa que somos e a pessoa que deveríamos ser. Mas o acto livre de escolher de Karol Wojtyla, não tem o mesmo significado dado à liberdade da cultura contemporânea, porque ele considera o auto domínio como um indicador da verdadeira liberdade humana. Assim sendo, ao atingirmos o auto domínio canalizamos livremente os instintos naturais do espírito e do corpo para acções que aprofundam a humanidade da pessoa e se ajustam às coisas como elas são. “Wojtyla passa por cima da discussão entre empiristas e idealistas, ao tratar de demonstrar que na acção moral, não na psique ou no corpo, falamos do centro da pessoa humana, o núcleo da nossa humanidade, pois é na acção moral que a mente, o espírito e o corpo formam na unidade a pessoa”133. Como essa pessoa vive no mundo com outras pessoas, Karol Wojtyla concluiu com uma análise de acção moral. Neste caminho desenvolveu a teoria da participação onde salienta a solidariedade como a atitude que permite a auto realização ao complementar os outros.

A obra Pessoa e Acto que apresentámos de maneira mais informal está estruturada em quatro partes. Na primeira parte, aprofunda-se a causalidade eficiente da pessoa a partir dos seus actos conscientes, através dos quais a pessoa é o próprio sujeito da acção. Na segunda parte, a pessoa realiza-se a si própria como pessoa, na medida em que ela é a causa eficiente da própria acção, isto é, uma vez que tem a capacidade de auto determinar-se. Na terceira parte, dá-se a integração da pessoa na acção, em que ela realiza o próprio auto-domínio, orientando os dinamismos naturais do corpo e da psique que constituem o desenvolvimento da terceira parte. Na quarta parte, reaviva-se a necessidade de interacção do homem com os outros homens, particularmente numa