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Appendix A. A description of other blocks in the macro model KVARTS

O Vaticano II, o último Concílio, trouxe algo novo na história dos concílios, pois muitos aplausos vieram primeiramente de fora da Igreja, da parte dos que não participam da vida e da fé da Igreja. Enquanto aqueles que fazem parte da vida da Igreja no primeiro momento sentiram-se recriminados. O mundo sentia-se confortado e capaz de aprovar o resultado do trabalho conciliar; mas enquanto isso, houve no interior da própria Igreja, muitas hesitações e certo combate de ideias. Para responder a pergunta dos conservadores: o que o Concílio trouxera de bom? Em uma resposta breve seria possível dizer: o Vaticano II é uma abertura para o mundo. Pode-se ainda perguntar se tal movimento é realmente expressão da essência da Igreja e se corresponde à sua missão ou se ele se opõe diretamente a essa essência? Provavelmente foi esta questão que mais provocou divergência de ideias dentro do próprio Concílio, mas que não terminou juntamente com ele. Os progressistas mostraram-se satisfeitos, pois para eles o Concílio desenvolvera um trabalho de renovação e de reforma, mas não de mundanização. “O Concílio não visa, ao que parece, a uma mundanização, e sim a uma abertura para o mundo”.72

A Igreja vive em virtude do mistério trinitário que lhe foi revelado por Cristo. Para que isso tivesse acontecido, houve um abrir-se de Deus perante a história do mundo e da história da salvação com Jesus Cristo. “Deus ‘abriu-se’, comunicou-se e ‘mundanizou-se’, pois ele se encarnou.” Deus é amor e tem necessidade de comunicar-se, só a partir do seu amor pode-se entender outro amor qualquer. Neste sentido, o abrir-se de Deus é um doar-se. A teologia apoiando-se na Sagrada Escritura descreve com o termo missio, que significa missão: abertura e comunicação de Deus em Cristo, pois ele quer levar o mundo a ouvir a palavra de Deus e fazê-lo também participar da unidade do amor do Pai. Entretanto, a Igreja

71 Cf. FUELLENBACH, John. Igreja, comunidade para o reino. p. 117-120.

não pode fechar-se em si mesma. A própria Igreja é um gesto de abertura, necessariamente ela deve realizar essa abertura para orientar o homem para o amor de Deus. O amor da Igreja é semelhante ao amor de Deus; a expressão de amor é algo autêntico e legítimo; portanto, “são legítimas todas as ‘aberturas’ requeridas pelo papel missionário da Igreja.” São, porém, “inautênticas as ‘aberturas’ que se opõem à ordem de pregar, ou seja, à missio.” Conclui-se que a verdadeira abertura da Igreja deve acontecer mediante ao amor e ao serviço, sendo uma abertura do tipo cristológico e não mundanizante.73

O n. 17 da Lumen Gentium é dedicado a vocação missionária da Igreja. Os padres conciliares da Comissão De Missionibus já desejavam um esquema só para tratar das missões, por isso eles apresentam alguns fundamentos da teologia da missão. Três pontos são evidenciados: 1. A teologia da missão é baseada na missão do Filho, no mandato dele aos Apóstolos e na ação do Espírito Santo; 2. A ação missionária assume e reforça, mas sem destruir o que há de bom nos povos e na cultura; 3. Todos os fiéis participam, de diversas formas na missão da Igreja, todos devem anunciar o Evangelho, suscitar a fé no Batismo e na celebração eucarística como Igreja Corpo de Cristo. No início do texto do n. 17, encontra-se o principal fundamento da missão:

Assim como fora enviado pelo Pai, também o Filho enviou os apóstolos (cf. Jo 20,21), dizendo: “Ide pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo aquilo que vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28, 18-20). Este mandamento solene de Cristo, de anunciar a verdade, recebeu-o a Igreja dos apóstolos para lhe dar cumprimento até os confins da terra (cf. At 1,8)…(LG 17)

Tudo se baseia no mistério trinitário; o fundamento está no Pai e no Filho, enviado pelo Pai, e no Espírito Santo, que presente na Igreja, a impulsiona:

O Espírito Santo impele-a [a Igreja] a cooperar na realização do propósito de Deus, que estabeleceu Cristo como princípio de salvação para o mundo inteiro. Pregando o Evangelho, a Igreja dispõe os ouvintes para crerem e confessarem a fé, prepara-os para o batismo, liberta-os da escravidão do erro e incorpora-os a Cristo, para que, amando-o, cresçam até a plenitude…(LG 17)

Porém, nas origens da missão da Igreja está a disposição livre e misteriosa do Pai que envia o seu Filho ao mundo e doa o Espírito Santo para transformá-lo em Povo de Deus:

Assim a Igreja conjuga operações e esforços para que o mundo inteiro se transforme em Povo de Deus, corpo do Senhor e templo do Espírito Santo, e para que em Cristo, cabeça de todos, seja dada ao Pai e Criador do universo toda a honra e toda a glória. (LG 17)

Nesta última frase do n. 17 visa-se à integração do mundo inteiro ao Corpo de Cristo, e templo do Espírito, para a honra e glória do Pai e Criador.74

Tudo isso já é presença do Reino de Deus, o sonho de Deus para toda a criação. Para fazer com que o Reino de Deus influenciasse positivamente sobre este mundo e pudesse transformá-lo segundo o desígnio definitivo de Deus, Jesus escolheu a justiça e a compaixão como seus princípios de vida. Ninguém deve ser excluído do amor de Deus. Jesus dá a sua vida por esses princípios, os quais pode- se dizer, que são os princípios do Reino. Ele envia os Apóstolos para continuarem a sua missão (cf. Jo 20,21); a mesma missão da Igreja (cf. Mt 28,18-20). A partir desta perspectiva a missão é transformar toda a criação. Pode-se considerar que a Igreja não é a única detentora do Reino de Deus, desta forma, ela não deve auto- definir-se como o Reino de Deus. Desde o Vaticano II a Igreja se reconhece e se vê mais como um “fermento” do Reino de Deus ou como Igreja a serviço do Reino, que é mais amplo. Finalmente pode-se dizer que, em relação a missão da Igreja, houve uma mudança importante: uma teologia de transcendência cede espaço a uma teologia de transformação.75