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Appendix C: Uncertainties in Using the Whole Air Inlet

A estratégia desenvolvida pela empresa utiliza-se com habilidade dessas necessidades humanas. O espaço dessa empresa é governado pela cultura organizacional,

carregado de ritos e regido por dois tipos de normas: implícitas e explícitas. As implícitas são aquelas que não estão escritas nem formalizadas, mas circulam tacitamente. Elas não são ditas, mas podem ser observadas e têm grande peso na avaliação do comportamento dos adeptos dentro e fora da empresa. As normas explícitas estão formalizadas e normatizadas, aparecem em cartazes, nos manuais de procedimentos, painéis e são verbalmente colocadas no cotidiano e nos treinamentos. Elas apresentam a missão, a filosofia e a política que estão contidas no manual de procedimentos da empresa. Esse manual contém as determinações do que se faz na empresa, como, onde, quando, para que e a quem se dirige. Os comunicados internos - CIs; os cartazes; os quadros de avisos; os emblemas e as fotos de funcionários modelo, fazem parte das normas explícitas e anunciam a presença subjetiva do estreito espaço existente na relação entre corpos e corporação.

O corpo que, PROSS (1998) chama de mídia primária, torna-se o primeiro instrumento de inscrição da identidade cultural do homem. Um contexto de muitas das crenças humanas, convicções culturais portadoras dos seus significados. O autor as classifica em três categorias - mídia primária, secundária e terciária - sendo a mídia primária o corpo.

Essa mídia primária é a que transita diariamente na relação que se dá no espaço corporativo. Autor do espetáculo de representação de papéis na empresa analisada, cada vendedor interpreta o seu personagem balizado pelas normas implícitas e explícitas que são interdependentes e caminham lado a lado. A harmonia entre as duas é responsável pelo que se produz no espaço corporativo. Elas coordenam o trabalho dos numerosos indivíduos submetidos à organização. Através delas é que as empresas estabelecem os papéis necessários ao desenvolvimento das atividades no processo produtivo. Essas normas “[...] em seu âmbito e complexidade, resultam do empenho de cada atividade individual” SAMAIN (2003). São elas que, como os maestros, dão o tom, o ritmo e a freqüência na qual o ator no espaço corporativo tem que tocar, dançar e atuar. Dessa sincronia depende a produtividade corporativa que tem a responsabilidade de prover a empresa e seus adeptos, projetando-os social e financeiramente.

Essa projeção ou evolução de vinculações patológicas são eficientemente exploradas pela programação televisiva da empresa. Ela mostra pessoas na cama recebendo ajuda do corpo de bombeiros por não mais se movimentarem em função do sobrepeso de cem, duzentos e até trezentos quilos. Em seguida, mostra essas pessoas com seus corpos atléticos, praticando esportes e dando entrevistas em suas mansões com carros importados, iates e motos. Mostram a família tradicional com mulher e filhos expressando felicidade, explicitando que conseguiram tudo graças ao uso do produto e a sua comercialização. Essas declarações vêem sempre acompanhadas da exortação: “se eu consegui, você também pode, faça como eu fiz, acate o que o seu supervisor determinar e você alcançará a felicidade”.

Em busca dessa felicidade os adeptos se entregam à corporação que tem a pretensão de ser o espaço mater dos homens no mundo. Uma vez nela insertos, em função dela se consomem enquanto ela consome quase que integralmente o tempo de vida dos homens e mulheres que a ela se dedicam. Na perspectiva de Vicente ROMANO (1993) o tempo de vida dos homens é consumido com: oito horas de trabalho, uma ou duas horas de almoço, na empresa ou no seu entorno, quatro horas em transporte (para a ida ao trabalho e retorno para casa). Aproximadamente quatro horas em atividades feitas em casa voltadas para o trabalho. Além do cuidado pessoal com a apresentação em função do trabalho e o envolvimento próprio ou de terceiros, cuidando do uniforme ou vestuário de trabalho. E ele ainda precisa dormir, divertir-se, ler, relacionar-se socialmente e desenvolver vida afetiva. A dedicação ao trabalho é tanta, que no início o adepto dessa empresa confunde esse espaço com o seu próprio mundo. A corporação tira vantagens do fato de os homens não viverem sem o engajamento organizacional para atender suas necessidades básicas de sobrevivência e de realização pessoal e profissional de acordo com BERG (1985). Ela se aproveita disso para moldá-los segundo seus padrões. Uma empresa não vive de si mesma, não existe sem pessoas, não sustenta a si própria sem os adeptos. A sua existência requer artesãos com técnicas especificas e artistas dedicados, ou seja, homens qualificados; então, utiliza-se das normas, da filosofia e da política organizacional para comprometê-los com ela. Isso funciona porque as normas são agentes úteis e práticos, que transformam os homens em

instrumentos para operar a técnica17 e sustentar o empreendimento lucrativo das corporações.

Esse fato governa o sistema da empresa analisada que busca no mercado de recursos humanos aqueles que constituem a sua existência de fato – pessoas que se submetem, que cedem seus corpos para o experimento e nesse estado de entrega à organização os programa para que cumpram as suas metas e realizem os seus objetivos mecanicamente. Aqui se pode pensar que “os homens são eles próprios, programados para programar” FLUSSER (1983:38). Isso se torna evidente quando se observa o processo de entrega dos corpos ao programa que os transfigura para que se adeqüem ao tipo de trabalho específico, e na íntima relação que desenvolvem com a filosofia corporativa.