O quinto artigo analisado é A ruptura do mundo masculino da medicina: médicas brasileiras no século XIX de Elizabeth Juliska Rago, recebido para publicação em dezembro de 2000. A autora possui graduação em Comunicação Social pela Faculdade de Comunicação Social Anhembi (1978), graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1968), mestrado Programa de Estudos Pós-Graduados em História - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992) e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005). Atualmente é assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Outras Sociologias Específicas e Ciências Sociais Aplicadas à Administração - Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, trabalho, medicina, feminismo, gênero- trabalho-medicina, cultura e feminismo.
O tema central do artigo é sobre a luta das primeiras mulheres médicas para ingressar num campo tradicionalmente masculino, o da medicina, na segunda metade do século XIX.
A autora introduz este artigo relatando a história de uma menina de 12 anos, Maria Augusta Generosa Estrela, filha de um abastado português ligado ao ramo farmacêutico, que havia deixado a mesma em Funchal, Ilha da Madeira. Segundo a autora, a menina já se destacava por sua autonomia e coragem, desde a infância e cedo se decidiu pela medicina. A razão da autora lembrar dessa personagem é discutir sobre quem teria sido a primeira médica do Brasil, confrontando diferentes autores.
Outra razão foi para mostrar os atributos psicológicos dessa personagem histórica, que teria sofrido com a discriminação social ao dedicar-se ao ramo da medicina. Para tanto, a autora destaca que no Brasil, até o ano de 1879 as mulheres não podiam frequentar os cursos superiores e que isso só ocorreu mediante debates dos intelectuais sobre o assunto, o que levou D. Pedro II a aprovar a Reforma Leôncio de Carvalho nesse ano.
Isso demonstra a reserva de mercado que os homens teriam estabelecido para as profissões de maior status social como a medicina, criando uma série de obstáculos culturais e institucionais para impedir o acesso das mulheres aos cursos de formação dessas profissões. Exemplar dessa resistência foi a oposição do deputado Malaquias Gonçalves de Pernambuco que discursou contra o pedido de estudar medicina de Josefa Aguida nessa época. A autora do artigo destacou alguns argumentos do deputado para reforçar sua tese de que as mulheres estavam sendo afastadas da profissão de medicina, pois para o parlamentar a mulher não tinha capacidade física e intelectual para tal estudo.
Procurando historiar o percurso das primeiras médicas do Brasil e as formas como elas protagonizaram as estratégias de resistência contra o preconceito, a autora destaca a amizade
surgida entre Josefa Aguida Felisbela Mercedes de Oliveira e Maria Augusta Generosa (outra das primeiras médicas do Brasil) que se conheceram no New York Medical College for women, onde estudaram juntas. Esse foi o início de uma intensa atividade de luta a favor da igualdade de condições entre homens e mulheres no exercício da medicina, sobretudo no periódico A Mulher em circulação desde 1881.
Como destaca Rago:
A Mulher fora projetada para convencer as mulheres brasileiras de suas aptidões
latentes, e para mostrar que tanto a mulher como o homem podem se dedicar ao estudo das ciências (...) as duas estudantes expressavam a idéia de vantagem da escolha da profissão de médicas tanto para as mulheres quanto para a sociedade, mostrando que as mulheres médicas gentis podiam inspirar a confiança das pacientes que no Brasil, frequentemente, relutavam em expor seus corpos e seus males aos médicos. (2000,p.125).
Mediante essa mesma, linha de raciocínio a autora continua sua argumentação ao, demonstrando que não apenas no ensino superior, mas também na educação básica ocorria a segregação da maior parte do público feminino, de tal maneira que se observa que a instrução das mulheres nos anos que antecederam a República era restrita, sendo apenas preparatória para que se tornassem boas mães.
Ainda Rago acrescenta que:
No decorrer do século XIX, as meninas não podiam frequentar o ensino oficial ministrado no colégio Pedro II no Rio de Janeiro, o que só aconteceu no século XX, portanto, alguns anos já transcorridos desde a Reforma Leôncio de Carvalho. Em contraste com outras escolas particulares, o colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, seguramente era o que oferecia o melhor ensino da época. Saffoti afirma em seu livro pioneiro que a educação secundária feminina se fazia então, quase exclusivamente em colégios confessionais, alguns dos quais protestantes e a maioria católicos. (2000, p.221).
Com relação ao parâmetro que destaca as formas de inserção da mulher no mercado de trabalho formal, pode-se perceber que a autora levanta dados que revelam a dificuldade de se aceitar as médicas como profissionais confiáveis. Dentro da sua argumentação, lembra que as mulheres que praticavam a medicina, na segunda metade do século XIX, sofreram todo tipo de pressão da sociedade para que se afastassem dessa profissão, até peças de teatro eram feitas para ridicularizar as médicas brasileiras, assim como um artigo jornalístico que classificou uma médica recém-formada de “machona”.
Essas ocorrências não se verificam apenas no Brasil. Em Buenos Aires, Cecília Guierson, futura primeira médica argentina foi recebida pelos colegas homens com profunda zombaria o que lhe dificultava os estudos. Nos Estados Unidos, as estudantes de medicina eram vaiadas quando passavam e, muitas vezes lhe atiravam pontas de cigarros e bolinhas de papel no rosto. Quanto à atitude das outras mulheres, conta-se que as funcionárias do Genove College afastavam-se com asco quando avistavam Elizabeth Blackwele, considerando que dama alguma, possuidora de um pouco de decência, se exporia às coisas horríveis, ensinadas nas escolas médicas. (2000, p. 218).
No que tange o terceiro parâmetro a ser analisado. As estratégias de superação empregadas pelas mulheres no seu esforço, ingresso e permanência no mercado de trabalho. Elisabeth Rago acrescenta que:
Algumas mulheres médicas conquistaram o reconhecimento público no Brasil ou no exterior, enquanto outras vieram e trabalharam num círculo mais restrito. Enquanto grupos minoritário e subalterno, essas pioneiras utilizavam o recurso da competência como arma para ingressar e permanecer num campo masculino por excelência. (RAGO, 2000, p. 220)
A autora cita no artigo um exemplo de superação, de uma médica, de nome Elisabett Blacwell, que rompeu as barreiras que excluía as mulheres da medicina, quando consegui ser admitida no Genova College of Medicina em Nova York. Mais tarde fundou o primeiro hospital do mundo dirigido por mulheres o New York Infirmary for Women and Children. Sendo assim, em 1857, passou a receber médicas formadas para fazerem residência, o que era negado às mulheres nos hospitais dos Estados Unidos, o que dificultava o desenvolvimento de suas carreiras.
Para Rago:
A inserção das mulheres na medicina foi um processo lento e difícil e muitos obstáculos tiveram de ser removidos, até que as primeiras médicas no mundo todo fossem reconhecidas, tanto pelos médicos como pela sociedade em geral. (2000, p.223).
As mulheres que investiram na profissão da medicina tiveram que lutar contra o preconceito da sociedade, onde desde o final do século XIX, foram muito pressionadas não apenas pelos homens, mas por outras mulheres, às vezes familiares que entendiam ser esta uma profissão masculina. Afinal o imaginário cultural do século XIX nos países estrangeiros e no Brasil foi marcada pelas idéias do determinismo biológico.
A autora menciona um fato importante,
As famílias das médicas apresentadas neste artigo gozavam de independência econômica para enfrentar o desafio aos costumes sociais daquela época, onde isto
representou um fator relevante na ousadia dessas mulheres, para penetrar num universo, no qual o poder masculino se fazia presente (RAGO, 2000, pp. 224, 225).
Percebe-se que as mulheres tiveram que enfrentar o preconceito da sociedade, bem como dos médicos, para inserir-se na medicina, os quais julgavam uma profissão imprópria para as mulheres. Foi um processo lento e difícil, mas as mulheres conseguiram vencer os obstáculos que as impediam de exercer a medicina.