Como já referido, o algodão cultivado no Sertão paraibano era predominantemente de variedades arbóreas, consideradas como nativas da região do Seridó e, por isso, adaptadas às condições do ambiente natural local. Como já mencionado nesse trabalho, as variedades cultivadas, em geral chamadas de algodão mocó, faziam parte de sistemas policultivos e adotavam formas de manejo tradicionalmente desenvolvidas na região semiárida do Nordeste brasileiro. Como adaptabilidade, compreende-se, aqui, tanto a relação da planta com o ambiente, quanto a seleção dessas plantas realizada pela intervenção humana. O cultivo dessas plantas na região resulta, portanto, de uma construção social, da intervenção humana no ecossistema, selecionando entre a diversidade de espécies existentes aquelas que melhor atendem às suas necessidades. Nesse sentido, considera-se que o cultivo do algodoeiro mocó, estabelecido na região sertaneja, esteve relacionado à sua resistência às condições ambientais, a sua possibilidade de atender a demanda da produção animal e também à qualidade da sua fibra, características que justificam a sua presença marcante na região.
Não sem razão, o reconhecimento da qualidade da fibra produzida por essa variedade já havia sido observado pelos compradores ingleses que, na década de 1920, chegaram a comprar uma fazenda no Rio Grande do Norte com a intenção de promover melhorias na qualidade desse algodão (MOREIRA e SANTOS, 1994). Na Paraíba, no mesmo período, o governo estadual criou em 1928 a Estação Experimental de Pendência, instalada no município de Soledade, que tinha como objetivo fazer experimentos com o algodão Mocó (MOREIRA, et. al. 1996). Na década de 1960, segundo Moreira et. al.(1996), a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) assumiu a responsabilidade em coordenar as pesquisas com esse algodoeiro desenvolvendo novas variedades na qual buscavam aumento de produtividade.
Com a criação do CNPA/EMBRAPA, em 1975, as pesquisas ganharam mais aporte de recursos humanos e financeiros, a partir dos quais foram desenvolvidas variedades precoces e mais produtivas desse algodão. Apesar dos esforços empenhados com
as pesquisas, nesta época, a cotonicultura nordestina e a paraibana já apresentavam fortes sinais de crise. No entanto, como demonstrado no gráfico 6, mesmo se observando queda na produção do algodão herbáceo entre as décadas de 1960 e 1970, observa-se um pequeno acréscimo na produção do algodão arbóreo, o que pode ser atribuído às pesquisas realizadas pelo CNPA/EMBRAPA.
O algodão mocó no sertão paraibano é destacado nesse estudo pelo fato de que seu cultivo era encontrado nos sistemas produtivos dos camponeses16, consorciado com lavouras de milho e feijão, destinadas prioritariamente ao consumo familiar. Assim sendo, mesmo tendo o algodão como uma atividade voltada para a comercialização, os camponeses a mantinham associada à produção para o autoconsumo, diminuindo, assim, os riscos causados pelas condições climáticas e também pela variação dos preços do algodão. Ou seja, como relata um dos agricultores entrevistados:
na época em que se produzia o algodão mocó era uma época de fartura, tinha milho, feijão e fava; tinha dinheiro para comprar a roupa, o sapato e também tinha comida para os animais (Luis, agricultor de Pocinhos, 2008)
Esta afirmação contribui para compreendermos o cultivo do algodão sertanejo como uma atividade adaptada ao sistema de policultivo característico das estratégias de produção camponesa. Para os entrevistados, o período de produção de algodão foi um período em que o agricultor viveu bem, pois, além de obter o alimento, tinha também o algodão que possibilitava retorno financeiro.
Mesmo tendo conhecimento prévio das situações de exploração em que viveram os agricultores camponeses dessa região, as falas durante a pesquisa foram marcadas por registros e saudosos do que houve de bom naquela época. Sendo que entre os entrevistados poucas foram as referências a situações de exploração e submissão registradas em vários trabalhos de pesquisa. É importante observar que, na memória camponesa, são boas as lembranças da produção durante o período em que se cultivou o algodão. Foi uma época em que tanto havia produção de alimentos quanto a presença de uma lavoura geradora de renda. Apesar de as dificuldades e os problemas relacionados à exploração camponesa no sistema gado-algodão-lavoura não serem uma lembrança comum ao grupo entrevistado,
16 Para Moreira et al (1995), o cultivo do algodão mocó era benéfico às lavouras de subsistência e ao sistema de
produção camponês. Essa lavoura contribuía para a manutenção do ecossistema sertanejo; por ser perene, com ciclo de vida em torno de cinco anos, evitava a degradação dos solos; servia de sustentáculo para a atividade pecuária e apresentava as condições favoráveis à produção orgânica.
mesmo entre os poucos que relataram memórias das dificuldades vividas naquela época, é comum a opinião de que a situação vivida no período do algodão, em termo de retorno da agricultura, foi melhor que aquelas que a sucederam.
De acordo com o estudo realizado por Costa (2008, p.6),
[...] produzia-se algodão, consorciado com lavouras de subsistência, principalmente o milho e o feijão, majoritariamente por pequenos produtores, possibilitando a estes, quando o clima favorecia, a subsistência e o algodão para comercializar com o proprietário ao qual, de alguma forma, agregara-se. Nas mãos do fazendeiro, o algodão tornava-se a mercadoria propulsora do seu acúmulo de riquezas e a fonte principal de alimento para seu gado, ração de excelente qualidade, reduzindo, assim, os custos de sua produção pecuária, centro dinâmico de seus negócios.
Observando que a produção de algodão era realizada tanto por proprietários como por não proprietários de terra, essa atividade foi aqui compreendida como um dos sistemas de manejo produtivo característico das condições sociais e ambientais que marca a história da ocupação camponesa no Curimataú paraibano. Porém, o que de certa forma fora um sustentáculo e uma perspectiva de desenvolvimento para a agricultura local tendera ao desequilíbrio com os avanços tecnológicos da cotonicultura e a crescente produção das áreas cotonicultoras nas regiões Sudeste e Centro-Oeste brasileira. O parque industrial têxtil montado no Sudeste e a produção da matéria prima local, em muito diminuía os custos de produção e, consequentemente, tornava inviável a compra do algodão nordestino, reduzindo, desta forma, a viabilidade econômica do algodão produzido no Nordeste brasileiro após as fases de exportação (MOREIRA, et al 1995).
Não bastassem os dados que expressavam a crise econômica da cotonicultura nordestina, a emergência de uma praga, popularmente conhecida como bicudo do algodoeiro17, a partir de 1983, pode ser considerado como fator importante no agravamento da situação. Esse inseto, já presente em outras regiões produtoras de algodão do mundo, era causador de grande diminuição da produção por inviabilizar a formação da pluma. Seu controle, por sua vez, requeria investimento de recursos financeiros no uso de inseticidas e na contratação de mão de obra para executar as pulverizações. O aumento dos custos de produção exatamente no momento de crise econômica dessa lavoura tornou a presença do bicudo como efeito arrasador sobre a cotonicultura paraibana intensificando a crise que já se
17 Essa praga, cientificamente chamada de Anthonomus grandis, é um besouro que deposita seus ovos nos botões
florais e, no período de larva, consome vorazmente os tecidos vegetais dos frutos. Dessa forma, impedem o seu desenvolvimento e consequentemente leva à perda da produção.
estendia desde a década de 1970, tornando inviável economicamente investir dinheiro no controle da praga. Assim a ação devastadora promovida pela presença desse inseto - considerado o vilão da cotonicultura nordestina - é aqui compreendida em associação com fatores socioeconômicos que já sinalizavam para a crise da cotonicultura local dentro do processo de desenvolvimento econômico em curso no país.
Para Moreira et al (1995), a decadência da cotonicultura possui diversas causas e entre elas destacam a prolongada seca entre os anos de 1979 a 1983, durante a qual a falta de forragem para o gado levou os fazendeiros a utilizarem as capoeiras de algodão para a alimentação animal, fato que, para os autores, explica a diminuição de 52% da produção durante esse período. Dessa forma, instalação da praga do bicudo do algodoeiro, no auge da crise da cotonicultura paraibana, a partir de 1983, já encontrou essa lavoura extenuada.
A falência do sistema cotonicultor paraibano promoveu uma mudança significativa na estratégia de produção agrícola estadual então conduzida para a intensificação da pecuária nas áreas anteriormente ocupadas pelas lavouras de algodão. Esta nova realidade tornou ainda mais problemática a situação dos não proprietários, comprometendo as relações com os sistemas de moradia e parceria, não sendo mais possível manter tais relações associadas com o crescimento das pastagens plantadas sobre as áreas anteriormente ocupadas por lavouras de subsistência. O trabalho realizado por Costa (2008, p.6) destacou
[...] que, na região semi-árida [sic] as políticas modernizantes foram no sentido de estimular a pecuária bovina em detrimento da agricultura de subsistência e da cultura do algodão. Dessa forma, no semi-árido [sic], as indústrias mais atuantes passaram a ser as de ração concentrada e produtos veterinários, além de todos os nutrientes necessários para alimentar o modelo de desenvolvimento econômico adotado naquela área. Em decorrência deste “modelo”, financiado pelo Estado, aumentou no semi-árido [sic] nordestino os símbolos desta modernidade: tratores, pastos, bois e matas exógenas, reduzindo-se, em paralelo, o número de pessoas ocupadas e de suas atividades de subsistência.
Tais razões demonstram que as mudanças ocorridas com o declínio do ciclo do algodão conduziram a uma condição de precariedade da agricultura camponesa. Se a lavoura de algodão permitiu a manutenção de camponeses na condição de agregados, meeiros, arrendatários etc., com o avanço da pecuária plantada já não existia possibilidades de estas formas de vida serem reproduzidas se não lhes fossem permitidas as condições de acesso à terra onde pudessem garantir a sua manutenção. Essa, a nosso ver, é mais uma questão de impactos socioambientais negativos em que a inviabilização do sistema de produção camponesa é promovido pelo processo de apropriação de grandes áreas de terras e exaustão
dos recursos naturais característico do desenvolvimento agrícola predominante em diversas regiões do país.
Como as práticas camponesas estão intimamente relacionadas com a disponibilidade dos recursos naturais, quanto maiores os impactos ambientais promovidos pelo processo de desenvolvimento capitalista, maior o impacto negativo sobre a manutenção das populações mais pobres e mais próximas das relações tradicionais de produção. Essa é a base da argumentação presente no conceito de “Ecologismo dos pobres” (MARTINEZ ALIER, 2007), tomado neste trabalho como referências para entender o caráter ambientalista da forma de produção camponesa - mesmo que não adotem essa denominação para si - à medida em que a manutenção da forma de vida camponesa está intrinsecamente associada ao manejo sustentável dos recursos naturais presentes nas suas unidades de produção. Voltaremos a essa discussão em espaço específico presente neste trabalho.