Anteriormente mencionei que o euskera é considerado pelos linguistas uma “língua aglutinante” (Azkue 1891; Santazilia 2012; Trask 1997: 120), por manter uma Tarefa nada simples, pois, segundo dizem, os caseiros de Araotz são desconfiados e frios, e em
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Vitoria-Gasteiz ouvi dizer que possuem “raízes obscuras”. De fato, um dos mitos fundacionais do bairro diz que este foi fundado por proscritos e criminosos das regiões circundantes, o que de alguma maneira explicaria que um tirano como Lope de Aguirre (de quem falarei a continuação) nascesse lá; “um bairro de rebeldes encaixotados entre montanhas [...]” (Uría 1963: 83). O araoztarras, por sua vez, têm um ditado para se referir aos originários de Vitoria-Gasteiz e de Álava: “se você vê uma cobra e um alavês, deixa a cobra e mata o alavês”. Cabe lembrar que eu sou alavês, o que, nesse sentido, não facilitava as coisas.
composição léxica segmentar, caraterizada pela adição de afixos relacionais a um morfema radical (Santazilia 2012: 23). Procurando fazer uma analogia com isso, mas saindo definitivamente do domínio da linguística, neste subcapítulo pretendo falar de um baserri, Aguerre Garaikua [A02], que apresenta um problema relativo ao que, se é permitida a metáfora, poderíamos denominar uma aglutinação de fatos e fazeres. Trata- se de uma cadeia heterogênea de acontecimentos associada de tal modo ao nome que define o baserri, que seus efeitos extravasam em muito o cotidiano do bairro.
No período da minha pesquisa, em três ocasiões turistas ou visitantes que passeavam por Araotz me pararam para perguntar o seguinte: “em que baserri nasceu Lope de Aguirre?”. Em Vitoria-Gasteiz, por sua vez, foram várias as ocasiões em que, quando expliquei que estava fazendo pesquisa de campo em Araotz, as pessoas exclamaram: “lá onde nasceu Lope de Aguirre?”. Enfim, na atualidade é praticamente um fato histórico indiscutível que Lope de Aguirre nasceu em Aguerre Garaikua [A02] (fig. 2.02). Mas não o foi em outro tempo.
Em primeiro lugar é conveniente fazer um breve esclarecimento sobre o personagem. Lope de Aguirre é uma das figuras da Conquista de América mais controvertidas e estudadas da história . Depois de participar durante décadas da 65
Conquista e da Guerra Civil do Perú, se alistou em 1559 na expedição do governador Pedro de Ursúa (também basco), cujo propósito era navegar o Amazonas (por segunda vez na história da Conquista) na procura do “El Dorado”. Três meses depois de partir, e no meio do rio, Lope de Aguirre organizou o assassinato de Ursúa e uma revolta que culminou na proclamação da independência do Perú e de Terra Firme. A viagem, no entanto, transcorreu como um banho de sangue propiciado pela própria paranoia do líder, também conhecido como “Aguirre o Louco”, que mandou executar, dia após dia e por motivos às vezes absurdos e sarcásticos, cerca da metade do seu próprio exército. Aguirre não conseguiu chegar até o Perú para levar a cabo os seus propósitos; os poucos soldados sobreviventes o traíram, de modo que os espanhóis o alcançaram em Barquisimeto (Venezuela) em 1561; o executaram imediatamente e espalharam seu corpo esquartejado pelo continente.
Para uma recopilação crítica monumental de todo o dito, filmado e escrito sobre Lope de
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Aguirre, ver Galster (2011 [1996]). Para uma interpretação antropológica da história do personagem, ver Caro Baroja (2014 [1968]).
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Fig. 2.02. Baserri Aguerre Garaikua [A02].
Contudo, na agressiva carta que o conquistador mandou para Felipe II (rei de Espanha) e por meio da qual veio se proclamar a “primeira independência da América” (Galeano 2005: 153), Aguirre se apresentou como “cristão velho, filho de medianos pais, em prosperidade filhodalgo [fidalgo] em terra bascongada, no reino de Espanha, na vila de Oñate vizinho” (Aguirre 2011 [1561]: 71). Como veremos a continuação este fazer provocou todo tipo de consequências, pois durante séculos foram muitos os que procuraram, sem êxito, a casa do conquistador; uns porque queriam destruí-la, e outros, mais tarde, porque queriam venerá-la.
No processo judicial contra os soldados de Lope de Aguirre, chamados “os
Marañones”, o Governador Alonso Bernaldez de Quiroz sentenciou que “onde seja que dito Lope de Aguirre deixasse casas de sua morada, lhe sejam derrubadas pelas cimentações, de arte que não sobre figura nem memória delas, e uma vez derribadas, sejam aradas e semeadas de sal” (Quiroz apud. Zumalde 1963: 63).
Segundo Zumalde (1963), nos registros espanhóis não há constância de que a sentença de Quiroz chegara a se executar, entre outras coisas, porque, ao que parece, a casa dele nunca foi encontrada. De todos os modos, é muito provável que a família de Lope, ao saber das ações do infame, de sua “traição” (Caro Baroja 2014 [1968]) e das
consequências que tudo isso teria para o baserri, sepultaram o melhor possível qualquer escritura ou prova que pudesse relacioná-la ao personagem.
Durante 350 anos Lope de Aguirre foi representado pelos cronistas e tratadistas espanhóis como “louco”, “vilão”, “tirano”, “aborto”, “monstro”, “demônio”, “o mais detestável conquistador”, “traidor do Reino de Espanha”, etc. (Galster 2011 [1996]). No entanto, no começo do século XX a figura de Lope de Aguirre passou por uma reconstrução biográfica e imagética influenciada pelo incipiente nacionalismo basco. Em 1918, Ispizua, com o firme propósito de “reabilitar o nome e a figura” de Aguirre, publicou um influente livro (1979 [1918]) que tomou as ações do conquistador, numa analogia com as pautas do nacionalismo basco da época, como motivadas pelos “germes do separatismo político” e justificadas pela sua finalidade independentista. Para os nacionalistas bascos, Aguirre já não era mais traidor, demônio ou tirano, mas um mártir proto-independentista, um “anjo caído de grandeza infernal” (Galster 2011 [1996]: 317), e, enfim, um “príncipe da liberdade” (Otero Silva 1979).
Pois bem, o 29 de outubro de 1961, em razão do 400 aniversário da morte do personagem, se reúne em Araotz, concretamente no baserri Zumalde [A64] (figs. 2.03), a Academia Errante, um grupo formado por alguns dos intelectuais e acadêmicos bascos mais influentes da época. O encontro consistiu numa série de falas e depoimentos que tiveram lugar no decorrer de um prolongado almoço (fig. 2.04) e cujo objetivo era rememorar e problematizar a figura do difamado conquistador.
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Fig. 2.03. Baserri Zumalde [A64]. Note-se que o nome do baserri e o sobrenome do historiador que organizou o encontro coincidem, provavelmente porque ele estava aparentado com a casa.
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Fig. 2.04. Nome e lugar na mesa dos comensais durante o encontro da Academia Errante no baserri Zumalde [A64]. Fonte: Academia Errante 1963: 8. Alguns aroztarras me informam hoje de que a indicação da esquina esquerda sobre o público de Araotz é mentira; “não assistiram nem 40 nem 2, entre outras coisas porque não cabe tanta gente em nenhum cômodo de Zumalde” (Mariángeles de Elortondo [A15]).
A justificativa para que a reunião acontecesse em Araotz se esclareceu na fala do respeitado historiador Ignácio Zumalde, que, alguns anos atrás (1951: 51), teria sugerido a hipótese de que Lope de Aguirre era oriundo do baserri Aguerre Garaikua 66
[A02]:
Tenho que reconhecer que essas minhas considerações, que terminavam por localizar a casa natal de Lope em uma das quatro Aguerres de Araoz, não podem se sustentar em verdadeira crítica histórica. São totalmente gratuitas. E sem embargo, serviram para que muitos continuem acreditando que Lope de Aguirre era araoztarra. Por isso dizia antes que em certo modo me sito responsável de que nos reuníssemos aqui para homenagear a Lope de Aguirre. (Zumalde 1963: 73)
Independentemente de que Zumalde recuasse com este comentário sobre suas constatações historiográficas anteriores, o que pretendo salientar aqui é que foi este acontecimento, este encontro acadêmico-gastronômico e suas circunstâncias, o que de
O silogismo de Zumalde (1951) consistiu em que, se os oñatiarras tomam o sobrenome do
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nome do baserri e Lope de Aguirre se autodenominou oñatiarra, então Lope devia ser originário de um
baserri chamado Aguirre e localizado nas proximidades de Oñati. O historiador comprovou que no começo do século XVI existiam 5 baserris com esse nome no município, dos quais 1 estava em Berezano e os outros 4 estavam em Araotz. Disse ele mesmo que escolheu um desses três e não o outro porque “o espírito independente, rebelde e tosco dos araoztarras coincide admiravelmente com o de Lope de Aguirre” (Zumalde 1963: 72).
fato constituiu e consolidou a associação entre o nome de Lope de Aguirre e os nomes Araotz e Aguerre Garaikua, que por sua vez se associam ao baserri propriamente dito. Foi desde esse dia particular, num cômodo desse baserri, sentados nessa disposição nessas três mesas e almoçando esse menu (fig. 2.03), isto é, foi a partir desse fazer (mas precedido por todos os outros, desde o comentário de Lope de Aguirre sobre sua procedência na carta para Felipe II até a publicação do controverso artigo de Zumalde em 1951), que tal “opinião” historiográfica se socializou efetivamente reverberando e se expandindo pelas correntes de um “público” (Tarde 2005 [1901]) materializado em centenas ou milhares de textos de historiadores, de peças literárias e cinematográficas, de guias turísticos, de conversas, etc. A partir disso, cada enunciado (cada fazer) que envolve esta relação reconstitui aquele fazer, que por sua vez aglutina tantos outros, e o faz existir em ato, ou como diria Austin (1962), performativamente:
Ao chegar à cume da Penha de Urréjola, vi um pitoresco bairro aos meus pês, e perguntei ao meu amigo José que bairro era. Me contestou: -É Araoz. Dizer Araoz e
dizer Lope de Aguirre foi um, e com ele na boca continuamos o passeio, com suas aventuras, no resto do dia, foi nosso terceiro amigo. (Jaka 1963: 56)
O baserri Aguerre Garaikua [A02], por outro lado, não tem nada intrínseco ou inscrito materialmente que faça com que as pessoas pensem em Lope de Aguirre quando o vem. A relação nominal, a consideração, pode estar acontecendo muito longe, e simultaneamente pode exercer efeitos na casa, pode ser parte integrante dela (no sentido Proculeyano). Em uma ocasião, um casal de turistas que passeavam pelas proximidades de Araotz passou em frente à mencionada casa sem saber que era ela e, portanto, desconsiderando-a. Chegando à praça da igreja se encontraram comigo e me perguntaram qual era a casa do famoso personagem. Eu lhes respondi que se achava que era a que ficava em tal ladeira, e eles, surpresos e com um brilho no olhar, exclamaram- “Claro! Era aquela lá!”- enquanto constituíam em suas cabeças a relação analógica que fazia remeter o nome Lope de Aguirre ao objeto por mim referido: depois disso, já o
sabiam. Esta reconsideração produz efeitos imediatos: os turistas voltam até a casa para observar de novo a fachada, que adquire uma nova significação; desta vez Lope de Aguirre nasceu lá, de modo que tiram um selfie com a casa de fundo.
Enfim, a partir deste percurso descritivo sobre Aguerre Garaikua [A02] foi possível observar como o nome da casa, além de se constituir de uma aglutinação de lexemas, pode ativar conjuntos ou cadeias aglutinadas de fatos e fazeres que foram
atribuídas ao nome mediante outros fazeres, e que, ao fazê-lo, produzem novos efeitos que participam da interação social.
Nos próximos capítulos nos depararemos com várias reverberações sobre este assunto, no entanto, considero que este é o momento mais apropriado para passar ao seguinte tópico: a herança.