A comunicação oral muitas vezes acontece sob condições adversas, e a audição, sozinha, não é suficiente para a compreensão da mensagem. Para os deficientes auditivos, principalmente aqueles com perda auditiva profunda, a audição tem que ser suplementada com algum outro tipo de informação, que possa ser decodificada através de outro canal sensorial. Nesse momento a visão assume papel importante, por fornecer pistas claras de como a emissão da fala pode ocorrer. Este canal de informação pode receber a mensagem oral através da observação da expressão do rosto do falante, articulação e movimento seqüencial dos lábios. Essa forma de recepção da mensagem oral passou por diferentes terminologias, tais como: leitura labial, oroleitura, leitura de fala, leitura orofacial (PINTO, 1999).
Leitura orofacial, segundo INES (2006), é a capacidade do portador de deficiência auditiva “ler” a posição labial e captar os sons da fala. A leitura labial é útil quando o interlocutor formula as palavras com clareza, porém, é sabido que até o melhor leitor labial adulto só consiga entender, no máximo, 50% das palavras articuladas. O resto é complementação. Muitos sons são invisíveis nos lábios, por exemplo, a diferença entre as palavras “gola” e “cola”, que dependem unicamente dos sons guturais. Outros sons, como
“p” e “m”, “d” e “n” e “s” e “z”, podem ser facilmente confundidos. O portador de deficiência, não sabendo bem qual o contexto semântico, apresenta maior dificuldade em realizar a leitura orofacial. Para quem já nasce com uma dificuldade auditiva, a leitura labial é muito mais difícil do que para portadores de perdas auditivas adquiridas, pois o portador de deficiência auditiva precisa imaginar os sons que nunca ouviu. Leitura orofacial é a visualização de toda a fisionomia orofacial do falante, incluindo sua expressão fisionômica e gestos espontâneos. Esse conjunto de dados, associados à leitura orofacial, é de grande auxílio na compreensão do diálogo para a pessoa deficiente auditiva (INES, 2006).
Esse meio de comunicação é utilizado desde o século XIV e, desde então, considerado como uma das formas de comunicação dos surdos. Contudo, não somente eles fazem uso dessa comunicação, pois os ouvintes também se aproveitam da leitura orofacial para melhor comunicar-se, visto que, em lugares ruidosos, procuram olhar para o rosto do falante para compreender melhor o que lhes é falado. Sabe-se o quanto é incômodo assistir a um filme dublado, onde os movimentos da boca não combinam com os sons que escutamos (MARTINEZ e PEREIRA, 2001).
Na literatura internacional, pode ser encontrada tanto a denominação “speechreading” (leitura de fala), como “lipreading” (leitura labial). Para a compreensão da utilização dos termos leitura labial, leitura de fala ou leitura orofacial (PINTO, 1999), optou-se por utilizar o termo leitura orofacial em toda referência sobre o tema pesquisado.
O uso da leitura orofacial é feito de forma inconsciente ao se comunicar observando a expressão facial, gestos, mudança de postura e pistas, que mostrem caminhos para decodificar as informações e, atualmente, tem sido utilizada com freqüência na avaliação de deficientes auditivos (BEVILACQUA et al.,1999).
A LOF é diretamente dependente das capacidades sensoriais do leitor labial. Este tem que ter a capacidade de integrar códigos verbais (fala) e não verbais (gestos e expressões faciais), os quais são importantes dentro deste processo. Assim, é necessária a participação do indivíduo por meio de processos mentais, físicos e também a atenção sobre a fala (OLIVEIRA et al., 2001).
Para avaliar a performance da leitura orofacial, um dos métodos mais utilizados é o rastreamento, proposto por DE FILIPO & SCOTT (1978) e padronizado para o português por BEVILÁCQUA, PICCINO & PINTO em 1999.
Esse procedimento consiste em apresentar oralmente uma leitura ao sujeito (receptor), que deverá repetir exatamente o que foi falado pelo avaliador. Caso o sujeito não repita com exatidão a sentença, ou alguma palavra da sentença, cabe ao avaliador disponibilizar pistas que auxiliem o sujeito a dar continuidade à atividade.
Segundo PINTO (1999), o procedimento do rastreamento de fala utiliza a combinação das percepções auditiva e visual, para avaliar a recepção da fala. Esse procedimento se vale da técnica do discurso através da percepção bimodal.
O objetivo desse procedimento, segundo MARTINEZ e PEREIRA (2001), é obter a repetição verbal que corresponde ao texto lido, sem considerar o uso de pistas relacionadas com o erro, ou seja, as pistas facilitadoras durante a aplicação do procedimento não são incluídas na contagem das palavras.
Para aplicação do procedimento, deverão ser seguidas algumas estratégias propostas por DE FILIPO & SCOTT (1978), respeitando as etapas e o tempo para obter o escore final:
1. Ler um texto previamente selecionado, constando de seis a dez palavras, respeitando seus constituintes lingüísticos e gramaticais;
2. Ao final da leitura, esperar o sujeito repetir todo o trecho solicitado;
3. Não passar para um novo trecho antes que o sujeito tenha repetido exatamente o trecho lido pelo avaliador;
4. Se o sujeito não entender uma ou mais palavras do trecho, deverão ser utilizadas estratégias de auxílio, através das quais o avaliador oferecerá pistas para que o sujeito possa compreender o contexto e dar continuidade à leitura.
Caso sejam necessárias outras pistas, o avaliador poderá: 1. Repetir todo o texto lido de uma vez;
2. Reler o texto, grifando com o dedo a palavra de maior dificuldade;
3. Reler o trecho mais uma vez, substituindo a palavra de maior dificuldade por outra de mesmo significado ou similar;
5. Trabalhar uma palavra de cada vez, seguindo as pistas de 1 a 4.
Para o êxito do procedimento, é necessário selecionar previamente o material de leitura, que será sempre o mesmo durante todo o processo, garantindo a fidedignidade da análise dos escores.
Cada segmento lido deve dar continuidade ao texto, nunca retornando à leitura de um trecho anterior, para que o sujeito não sofra influência da aprendizagem ou da memória, interferindo na obtenção dos escores finais.
O texto deve ser lido em segmentos, como descritos nas estratégias anteriormente citadas, separadas em três períodos distintos, com duração de dez minutos cada um, devendo a aplicação do procedimento totalizar trinta minutos.
Primeira condição: Pista Visual e Auditiva Segunda condição: Pista Visual
Terceira condição: Pista auditiva
A quantidade de leitura para cada condição dependerá da resposta do sujeito para cada segmento respondido corretamente.
No final do tempo de cada condição, deverá ser registrado o escore obtido, através da contagem do número de palavras por minuto, naquele intervalo de tempo (NPM). O escore será igual ao número de palavras corretamente repetidas, divididas pelo tempo em que foi lido o trecho, por exemplo, por dez:
N. P.M = número de palavras repetidas corretamente dez minutos
O escore deverá ser registrado de forma isolada para cada condição de aplicação do procedimento e não pode ser somado às outras condições.
A performance sobre a percepção de fala é superior quando fornecemos a informação visual, em comparação à performance obtida sem esta via de informação. A leitura labial não é uma forma de back-up, utilizado somente quando o sinal auditivo está incompleto ou perturbado. Mesmo que a informação auditiva seja completa, a visão terá o seu papel: ela é uma parte completa dentro da percepção de fala (KOSLOVSKY, 1997).
As vantagens do procedimento do rastreamento de fala é que este avalia a recepção da fala no contexto do discurso contínuo, não requer instalações complexas para sua aplicação, qualquer texto pode ser utilizado, e ainda, pode ser aplicado pelo profissional, de maneira simples e direta (MARTINEZ e PEREIRA, 2001).
KOSLOVSKY (1997) relata que diversos estudos colocaram em evidência os fatores que influenciam a leitura orofacial. Dentre esses fatores de influência podemos destacar: - A percepção visual; - O meio ambiente; - Fatores de facilitação; - Códigos não-verbais; - A idade; - A motivação.
A acuidade visual pode ser normal ou corrigida, para que o leitor possa perceber as seqüências articulatórias e os movimentos dos lábios. A atenção visual exerce função muito importante sobre a capacidade de ler os lábios. O indivíduo deve ser capaz de manter determinado nível de atenção para realizar a leitura labial. Essa atenção vai permitir a distinção entre os diferentes movimentos articulatórios.
Ao se comunicar com o deficiente auditivo, é necessário sempre estabelecer o contato visual com ele, pois assim o manterá concentrado na leitura orofacial. Se o interlocutor não mantém este contato visual, o deficiente auditivo pode considerar que o interlocutor não está mais se dirigindo a ele (TOLEDO e SANTOS, 2001).
A memória visual também tem função muito importante sobre a leitura labial. O leitor labial percebe esses “patterns” articulatórios do locutor através dos movimentos labiais; ele retem estes “patterns” de maneira seqüencial na memória de curto prazo e decodifica esses códigos através de unidades lingüísticas.
Ele sintetiza a informação através de um sistema de associação sensorial e de códigos contextuais e envia essas informações à memória permanente, para a identificação final da mensagem (JACOBS, 1982).
O meio ambiente influencia diretamente no processo de leitura orofacial. KOSLOVSKY (1997) cita alguns fatores que conduzem a essa performance:
- A presença de ruído no ambiente onde se encontra o indivíduo que está fazendo a leitura orofacial deve ser considerada;
- As distrações visuais do ambiente podem também dificultar a leitura orofacial, principalmente se os estímulos são mais interessantes do que o locutor;
- A escolha adequada de estruturas lingüísticas e do léxico pelo locutor; - Distância e condições de iluminação;
- Qualidade da fala do locutor.
A capacidade do leitor orofacial em receber e tratar as informações não-verbais e as lingüísticas durante o processo de comunicação, é tão importante quanto a relação locutor/leitor labial. Alguns fatores de facilitação podem ser enumerados:
- Compreensão do contexto, baseada na experiência lingüística dentro de situações similares;
- Compreensão da intenção comunicativa;
- Compreensão do papel dos participantes e de suas opiniões;
- Percepção das dificuldades comunicativas e capacidade de utilização de estratégias de comunicação (KOSLOVSKY, 1997).
No entanto, apesar da leitura orofacial significar bom auxílio na comunicação, ela se torna impossível em algumas situações, tais como, falar ao telefone a grandes distâncias, quando existem obstáculos cobrindo a face do interlocutor e quando este último apresenta má articulação. Além disso, existem muitos sons na língua portuguesa que são semelhantes visualmente, portanto difíceis de serem diferenciados (TOLEDO e SANTOS, 2001).
As mesmas autoras relatam que para muitos doutrinadores, no processo de leitura orofacial, os gestos têm grande importância e não apenas os movimentos de braços e mãos, mas do corpo em geral. Ressaltam também existir muitos deficientes auditivos que têm como principal meio de comunicação a língua de sinais, que é gestual e se utiliza também de expressões faciais.
MARTINEZ e PEREIRA (2001) compararam, em seu trabalho, a performance de leitura orofacial em uma população de idosos, através do rastreamento de fala, antes e após um breve programa de treinamento de leitura orofacial. Foram selecionados 10 idosos que apresentavam deficiência auditiva neurossensorial bilateral adquirida pós-lingual e em processo de seleção e adaptação de A.A.S.I. Os idosos foram divididos em dois grupos: um
de 65 a 74 anos e outro de 15 a 85 anos. Os resultados encontrados pelas autoras mostram que após breve treinamento de leitura orofacial, há melhora foi considerável (sete palavras por minuto na performance dos idosos do grupo 1 e seis na do grupo 2).
Em estudo feito por OLIVEIRA et al. (2001), as autoras avaliaram grupos de deficientes auditivos com perdas auditivas semelhantes, comparando-se o desempenho da leitura orofacial com e sem o uso do AASI, através de adaptação do procedimento do rastreamento de fala levando-se em conta quais aspectos influenciam neste desempenho e quais estratégias são utilizadas pelo avaliador para melhor compreensão da informação oral. As autoras puderam observar que os indivíduos que apresentavam configuração audiométrica do tipo plana, mostraram melhores escores no rastreamento em comparação àqueles com perdas assimétricas e em rampa. Observaram também que a idade do indivíduo e o tempo de perda auditiva foram fatores que influenciaram no desempenho da leitura orofacial.
FRUCTUOSO e PAULINO (2006) avaliaram o uso da leitura orofacial em pacientes idosos usuários de AASI, através do procedimento do rastreamento. Participaram do estudo dez idosos, com idade entre 65 e 88 anos, com perda neurossensorial ou mista bilateral de grau leve a profundo. Os dados levantados mostram aumento considerável no número de escores de todos os indivíduos estudados, quando usado o procedimento de rastreamento na condição de pista visual auditiva (com AASI e leitura orofacial) em relação às outras condições utilizadas. As autoras concluíram que a maioria dos idosos, sujeitos da pesquisa, fazia uso da leitura orofacial para auxiliar na compreensão da mensagem falada, em todas as situações de comunicação onde houve possibilidade de acesso à pista visual.
TOLEDO e SANTOS (2001) em seu Trabalho de Conclusão de Curso, comparam a performance da leitura orofacial entre um grupo de vinte indivíduos, sendo dez ouvintes e dez deficientes auditivos, visando identificar diferenças na compreensão da comunicação oral e levantar quais estratégias são utilizadas para que a mensagem seja compreendida. Os resultados desse estudo mostraram que o grupo de ouvintes apresentou melhor performance no rastreamento (média de 24,7 ppm – palavras por minuto), sugerindo que a participação da pista auditiva é fundamental para compreensão da mensagem oral. Com relação aos deficientes auditivos (média de 13,07 ppm), observaram que os indivíduos que obtiveram melhores escores, foram aqueles que apresentavam maior tempo de deficiência auditiva e
os que apresentavam menor índice de IRF. Concluíram que, apesar da grande importância da contribuição dos aspectos visuais para a compreensão da mensagem oral, os deficientes auditivos, na sua maioria, não desenvolvem espontaneamente a leitura orofacial. Portanto, para que a pista visual possa ser usada como auxiliar da comunicação, é necessário que se use procedimentos de leitura orofacial, como rastreamento de fala, nos programas de reabilitação do deficiente auditivo.
O estudo realizado por PINTO em 1999, teve como objetivo verificar a aplicação do procedimento do rastreamento de fala, proposto por DE FILLIPO & SCOTT (1978), em pacientes adultos que receberam o dispositivo do Implante Coclear Multicanal (ICM). Foi realizada a análise dos prontuários dos pacientes adultos portadores de deficiência auditiva neurossensorial pós-lingual, que faziam parte da rotina do Centro de Pesquisas Audiológicas (C.P.A.) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (H.R.A.C.) – Universidade de São Paulo – de Bauru, selecionando 36 deles. A autora observou que a utilização combinada das pistas auditiva e visual, auxilia na recepção de fala para o adulto deficiente auditivo, onde a média do número de palavras repetidas por minuto foi de 46,6 npm. Com relação à influência do tipo de deficiência auditiva progressiva ou súbita nos escores dos sujeitos, foi constatado que, até 6 meses, tanto as perdas do tipo progressiva como súbitas, apresentaram evolução do número de palavras por minuto e a partir dos 12 meses, se estabilizaram. Embora a evolução das perdas tenha sido semelhante, a evolução das perdas progressivas apresentou os maiores escores para as condições de PVA, PV e PA. Os resultados obtidos nesse estudo alertam para a importância da avaliação da percepção bimodal, considerando-se que todos os sujeitos apresentaram melhora consistente da recepção de fala, quando utilizada a combinação das pistas auditiva e visual. Fica claro, ao final do trabalho, a importância de estudos e elaboração de procedimentos que utilizem o uso combinado das percepções auditiva e visual como forma de avaliação da comunicação, tanto na criança, mas principalmente no deficiente auditivo adulto, no que se refere à recepção da fala.
Estudo feito por DELL'ARINGA et al. em 2006, avaliou 30 indivíduos, de ambos os sexos, na faixa etária de 27 a 89 anos, portadores de deficiência auditiva bilateral sensorioneural moderada. A avaliação constou do teste de percepção de fala de palavras monossílabas, em quatro situações: sem AASI e sem LOF, sem AASI e com LOF, com
AASI e sem LOF, com AASI e com LOF. Pelos resultados, observou-se que houve melhora na porcentagem de acertos em 93,5% dos pacientes na situação com AASI e com LOF, em relação às demais situações. Os autores puderam concluir que a leitura dos lábios é uma importante estratégia de comunicação aos portadores de deficiência auditiva e sua recomendação auxilia no processo de adaptação de AASI.
Na Suécia, em 2001, foi realizado estudo com o objetivo de examinar a performance de leitura antes e depois de um treino de leitura orofacial, os efeitos de diferentes dispositivos táteis em tarefas de leitura orofacial. Os autores examinaram também os pré- requisitos cognitivos para uma performance de leitura orofacial antes e depois de um treinamento. Comparando-se a leitura orofacial sozinha dispositivos táteis prejudicam sentenças baseadas na performance de leitura orofacial no inicio, no entanto a performance melhorou com o treinamento. Não houve efeitos dos dispositivos vibrotáteis ou do treinamento obtido da decodificação de fala visual. A performance inicial e após treinamento de leitura orofacial são correlacionadas com habilidades cognitivas, mas o tamanho desta correlação mudou. O tamanho da correlação também variou com as diferenças táteis mediadas pela condição de leitura orofacial.
Pesquisa realizada no Japão em 2004, por HASHIMOTO e KUMASHIRO, investigou as limitações das vantagens da leitura orofacial em jovens adultos japoneses dessincronizando informação visual e auditiva de fala. O estímulo auditivo visual era apresentado em seis condições: somente auditiva e auditivo-visual com atraso auditivo de 0, 60, 120, 240 ou 480 ms. O estímulo era a filmagem de rosto feminino, falando sentenças curtas e longas, na língua japonesa. A inteligibilidade do estímulo auditivo visual foi medida em função do atraso auditivo, em dezesseis sujeitos que não realizaram treinamento de leitura orofacial. A inteligibilidade de fala com a pista auditiva atrasada menor que 120 ms era significativamente melhor na condição somente auditiva. Por outro lado, o atraso de 120 ms correspondeu à média de duração medida para o estímulo auditivo. Os resultados desta pesquisa mostram que o atraso auditivo maior que 120 ms não diminui a vantagem da leitura orofacial, pois as informações visuais e auditivas de fala parecem estar integradas na escala de tempo silábica.
Estudo realizado na França em 2004, por SCHWARTZ et al., utilizou paradigma bastante original para mostrar que observar os lábios do interlocutor permite ao ouvinte
ouvir melhor e, portanto, entender melhor. Nessa pesquisa, o estímulo auditivo-visual utilizado não podia ser diferenciado pela leitura orofacial por si só, já que continha exatamente o mesmo gesto articulatório, combinado com diferentes sons de fala compatíveis. Não obstante, o ruído mascarante foi mais inteligível na condição auditivo- visual, que na condição auditiva somente, devido à contribuição da informação visual para obter pistas auditivas. Substituindo o gesto articulatório por um estímulo visual não de fala com exatamente o mesmo tempo de duração, fornece as mesmas pistas temporais, não obtendo o beneficio de inteligibilidade.
Trabalho realizado pela Universidade de Connecticut em 2002, por CIENKOWSKI e CANEY, teve como objetivo estudar a integração da informação auditiva e visual de fala, em idosos. O desempenho dos três grupos de participantes foi assim comparado: jovens adultos com audição e visão dentro dos limites de normalidade, adultos mais velhos com a audição e a visão próxima ao limiar, e jovens como grupo controle, cujos limiares auditivos foram modificados através de ruído, para serem pareados aos adultos mais velhos. Cada participante realizou um teste de leitura orofacial e de identificação de silabas nas condições auditiva e auditivo-visual, opondo-se com pistas auditivas e visuais. Observou-se não houve diferenças significantes entre os grupos, porém, jovens adultos ouvintes freqüentemente escolhem alternativas auditivas, enquanto adultos mais velhos tenderam a utilizar pistas visuais. Em contrapartida, adultos mais velhos demonstraram leitura orofacial mais pobre que os outros participantes.
Ao observar os lábios do falante durante uma conversação (leitura orofacial), certamente melhora a percepção da fala, particularmente em condições ruidosas. Estudo realizado por CALVERT et al. na Universidade de Oxford, em 1997, descobriu, através de ressonância magnética por imagem, que as pistas lingüísticas visuais da leitura orofacial são suficientes para ativar o córtex auditivo em ouvintes sem a pista auditiva de fala. Outros dois estudos relatam que esta área cortical auditiva não se ativa quando o sujeito observa um gesto articulatório não lingüístico. Isto proporciona evidências psicolingüísticas de que a fala visualizada influencia na percepção da fala ouvida em um estágio pré-lexical.
Estudo realizado na Universidade de Washington avaliou os efeitos da idade na combinação da informação auditiva e visual de fala em consoantes, palavras e sentenças, em adultos jovens e em adultos mais velhos. Participaram do estudo 38 jovens adultos com
limiares auditivos normais para as freqüências de 4 kHz e anteriores. Os participantes tinham que identificar: vogal-consoante-vogal, palavras dentro de frases e sentenças com significado semântico nas condições: auditiva, visual e auditivo-visual. Todos os estímulos foram apresentados com fundo de ruído de vinte falantes, cujas razões S/R foram ajustadas