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Na América Latina o modernismo chegou mais tarde, com anos de atraso. As notícias eram trazidas da Europa e posteriormente dos Estados Unidos, através de publicações, por notícias estrangeiras ou mesmo por artistas brasileiros que iam visitar ou aperfeiçoar estudos.

Apesar de não ser possível tratar da produção artística da América Latina como algo homogêneo, por sua diversidade e multiculturalidades, os países que a compõem têm uma história similar e problemas comuns, além da proximidade no espaço território, tanto no que diz respeito às suas formações e ocupações enquanto países colonizados quanto aos anos de pressão e opressão também vividos em governos militares. O movimento moderno chegou como um modelo importado, modernidade tem a idéia do novo como em todo o lugar, porém o novo na América Latina, como destaca Aracy Amaral (2006), é uma preocupação na busca de raízes culturais e afi rmação de identidade, o que aproximou artistas à cultura popular, provocando uma temática voltada à valorização desta cultura. Exemplo desta afi rmação cultural, além de seu caráter extremamente revolucionário, acontece no México com a pintura muralista, que tem início a partir da Revolução Mexicana em 1910 depois de 30 anos de ditadura no país. Os artistas através de grandes fi gurações murais, narravam a história do país enfatizando o fervor revolucionário do povo. A pintura muralista fez parte do projeto educativo e cultural do México, e além do seu papel político e social, os artistas buscavam romper com a arte acadêmica, fazendo uma arte moderna ao mesmo tempo em que autenticamente mexicana.

No México, os maiores representantes da arte muralista foram Diego Rivera (1886- 1957), José Clemente Orozco (1883-1949), David Siqueiros (1896-1974) e Rufi no Tamayo (1899-1991). O trabalho de Orozco, na opinião de Giulio Argan (1992 p. 492), teve uma narrativa impetuosa que ia do “patético ao trágico, do realismo ao simbolismo”. Israel Pedrosa (1977, p. 147) esclarece que a pintura muralista usava “cores violentas, por vezes brutais, na busca do reencontro nacional”, e em Orozco é que se encontra esta técnica mais nativista. O mais famoso representante, Diego Rivera, viveu por muito tempo na Europa, onde teve contato com o fauvismo e o cubismo, fonte de inspiração para sua produção artística. Siquieros foi um grande expoente da segunda geração, segundo Argan (1992, p. 492), “para ele, a revolução nacional-popular mexicana é apenas o primeiro ato de uma revolução mundial” e seus trabalhos revelaram um surrealismo com o sentido político que

Breton, Aragon, Élourd e Picasso atribuíam ao movimento, enquanto que, Rufi no Tamayo vai num sentido oposto evitando qualquer caráter ideológico-político direto. Frida Khalo, assim como apresentamos anteriormente, também foi uma grande representante da produção artística mexicana no século XX.

No Uruguai a atuação de Joaquin Torres- Garcia (1874-1949), pintor, desenhista, escultor, escritor e professor uruguaio, foi de extrema importância, não só para arte local, mas também para a América Latina como um todo, conquistou renome internacional. Torres-Garcia viveu durante quarenta e três anos na Europa e Estados Unidos. Morou na Catalunha - Espanha, Paris, New York. Entre 1904/05 trabalhou com Antonio Gaudí nos vitrais da catedral de Palma de Mallorca e de La Sagrada Familia de Barcelona. Foi um pioneiro do modernismo. Em 1934 voltou para Montevidéu com o ideal de impulsionar uma arte própria e inédita para o continente americano que conjugasse a tradição da pré-história americana, com expressões artísticas próprias. Trouxe os postulados do construtivismo e em seu atelier formou um espaço de ensino e trabalho. Foi responsável pela formação de grandes artistas como Augusto e Horacio Torres, Julio Alpuy, José Gurvich, Gonzalo Fonseca, Francisco Mat o Vilaró entre outros. Em 1935 cria sua famosa obra El Norte es el Sur, desenho em nanquim sobre papel e declara:

Nuestro norte es el Sur. No debe haber norte para nosotros, sino en oposición al Sur. Por eso ahora ponemos el mapa al revés y entonces ya tenemos la justa idea de nuestra posición [...]. Desde ahora, el extremo alongado de Sudamérica apuntará insistentemente para el Sur, nuestro Norte. (TORRES-GARCIA, 1941, p. 193)

A Venezuela teve outro exemplo de retorno cooperador de um artista depois de uma longa temporada na Europa. Carlos Villanueva, formado na Inglaterra, projetou, em meados dos anos 40, a Cidade Universitária, em Caracas, base de um movimento de síntese das artes, onde reuniu obras de Calder, Léger, Pevsner, Arp, Laurens, Vasarely e de jovens artistas venezuelanos, em sua maioria de tendência construtiva. A arte cinética venezuelana é representada pelos artistas Jesus Rafael Soto (1923-2005), Carlos Cruz-Diez (1923) e Alejandro Otero (1921-1990).

Figura 10 – Joaquín Torres Garcia - El Norte es el Sur, 1935. Desenho nanquim sobre papel. Col. privada da família do artista. Fonte: Garcia (1941)

Na Argentina o movimento moderno é bem marcado pelo surgimento de publicações, como a revista mural Prisma, que é colada nos muros por Jorge Luiz Borges, responsável pela introdução do ultraísmo24 na Argentina, e seus

companheiros. Outra importante revista foi a Martin Fierro, a qual se tornou um espaço privilegiado de polêmicas, críticas humoradas e exaltação do novo, tanto na literatura como na arquitetura, música e nas artes plásticas em geral.

Xul Solar (1887 - 1963), nome artístico de Oscar Agustín Alejandro Shulz Solar, é um dos maiores representantes argentinos das artes plásticas no século XX. Foi um artista que teve como utopia a construção de um sistema fi losófi co e lingüístico unifi cador da América Latina. Emilio Pet oruti (1892-1971) foi um pintor argentino, que causou um escândalo com sua exposição de vanguarda cubista, em 1924, em Buenos Aires. O movimento Madi25 também foi bastante

representativo da arte argentina. Entre os artistas integrantes estão: Carmelo Arden Quin, Rhod Rothfuss, Martín Blaszko, Waldo Longo, Juan Bay, Esteban Eitler, Diyi Laañ, Valdo Wellington, entre outros.

No Chile, fi nal do século XIX, nasce o Grupo Los Independientes, abrangendo a maioria das tendências do cubismo. Entre os artistas que se destacam estão Luis Herrera Guevara (1891- 1945), Hermenia Arrate (1895 - 1941), Alfonso Vila (1897-1963), Byron Giyoux (1901-) e Juana Lecaros (1920 -). O Grupo Montparnasse no Chile, formado em 1922, pelos artistas Luis Vargas Rosas, sua mulher Henriet e Petit, os irmãos Órtiz de Zárate, José Perot i, e em algumas fases, Camilo Mori, foi também importante para o movimento moderno no país. A maioria dos artistas viveu em Paris e ao retornarem a Santiago lançaram manifestos contra o academismo existente. Na Colômbia destaca-se Pedro Nel Gómez Agudelo (1899-1984), engenheiro, arquiteto, urbanista, pintor e um dos mais importantes muralistas latino americanos do século XX, ao lado de Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros do

24 Ultraísmo foi um movimento literário moderno que iniciou-se em Madri em 1918. Através de um ar- i go publicado na Revista Nosotros. Borges publica um ari go Ultraismo em que anuncia os princípios do movimento: redução da lírica ao seu elemento essencial: a metáfora; supressão das frases de recheio, dos nexos e dos adjei vos inúteis; eliminação dos trebelhosornamentais, do confessionalismo, dos elementos circunstanciais, das prédicas e da nebulosidade rebuscada; e síntese de duas ou mais imagens em uma, de maneira a ampliar a sua faculdade de sugestão. Fonte: ALCALÁ, May Lorenzo & SCHWARTZ , Jorge. Org. Vanguardas argeni nas anos 20. São Paulo: Iluminuras, 1992 (p. 30)

25 Madi é um movimento arí si co que se iniciou em 1946 na Argeni na, pelo escultor e poeta russo hún- garo Gyula Kosice, radicado no país.

México. Usou sua expressão artística como meio para valorizar a identidade cultural da nação colombiana. Destaca-se também Ignacio Gómez Jaramillo (1910–1970), pintor, ilustrador e muralista.

No Peru, José Arnaldo Dieguez Sabogal (1888-1956), pintor. Foi criador do movimento indigenista, o qual reuniu um grupo de talentosos artistas, empenhados em exaltar as raízes do povo andino.

Os anos 20 também marcam a entrada do modernismo nas artes plásticas cubanas. Em Cuba, concomitantemente às preocupações de renovação da prática acadêmica, surge o interesse pela representação da identidade nacional. A Exposición de Arte Nuevo realizada no ano de 1927, organizada pela Revista de Avance, sinaliza o início da arte moderna em Cuba e apresenta os artistas mais signifi cativos da arte cubana desse período, a maioria esteve na Europa em contato com o movimento moderno. Destacam-se nomes como Víctor Manuel García Valdez (1897-1969), Antonio Gat orno (1904-1980), Eduardo Abela (1889- 1965), Carlos Enríquez Gómez (1900-1957), entre outros.

Wifredo Lam (1902-1916) é o artista cubano de maior reconhecimento internacional. Sua mãe era cubana e seu pai um imigrante chinês. Formou- se no curso da Academia de Bellas Artes San Alejandro, em Havana e foi para a Europa para prosseguir estudos. Seu contato com a arte africana na Europa, com os cubistas e com os surrealistas, somadas à sua herança cultural afro- cubana lhe possibilitou uma nova linguagem pictórica. Oswaldo Guayasamin (1919-1999), pintor equatoriano, nascido em Quito, é um importante representante da arte moderna do Equador e da América Latina. Teve sua formação estética na Escuela Indigenista e suas obras são bastante marcadas por esta tendência e denúncias sociais, somadas às infl uências das vanguardas européias, especialmente o cubismo e o expressionismo.

Concordamos com Aracy Amaral (2006, p. 75) quando nos diz que a arte moderna nas artes visuais da América Latina difere de uma região para a outra como projeção imagética, do muralismo mexicano à introspecção de Xul Solar, “no construtivismo saboroso de uma Tarsila dos anos 20 ou na poética de Di Cavalcanti”. A despeito da diversidade existe uma questão comum que é um “desejo de afi rmação local mesclado a uma linguagem atualizada, “moderna”. Enquanto os europeus foram buscar o exotismo externo, a América Latina atualizou seu próprio exotismo, sua identidade, dentro das novas linguagens artísticas.