5. Retorikkanalyse og Drøfting
5.3. Appellformene og De Retoriske Virkemidlene
Por seu caráter estruturante, o uso da linguagem/discurso é um fenômeno ideológico; é sempre usado de forma ideológica. Conforme Bakhtin (1992, p. 36), a linguagem é ideológica, “pois funciona como elemento essencial que acompanha toda criação ideológica, seja ela qual for”. Ela está presente em todos os atos de compreensão e de interpretação, pois conduz grupos de pessoas a adotarem determinados conceitos sociais, formas de pensar o mundo, sobre o que é certo ou errado, sobre o que é moral e/ou ético, sobre como as pessoas devem ver a si mesmas (CHAUÍ, 2005).
A ideologia, segundo Fairclough (2001a), é mais efetiva quando sua ação é menos visível. Para Chauí (2005), a ideologia invisível está relacionada à ideologia da competência, que oculta a divisão social das classes. Consequentemente, por competentes são designados os especialistas, aqueles que possuem os conhecimentos científicos e tecnológicos, e, relacionados à ideologia incompetente são designados aqueles que executam as tarefas ordenadas pelos especialistas.
A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normasou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representação) e prático (normas, regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir das divisões na esfera de produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social (CHAUÍ, p.108-9, 2005).
Para esta autora, a ideologia condiciona modos de ser no mundo porque fornece um quadro coeso de representações sociais sustentadas por um conjunto de explicações que têm a função de atribuir sentido às nossas ações e às nossas relações com as coisas do mundo. Essas
ações, que se encontram subordinadas a leis sociais reguladoras, porque prescritivas e normativas, fornecendo aos indivíduos explicações para a configuração social no sentido de ‘tornar normal’ o direito hegemônico – econômico e/ou cultural – de um determinado grupo social. Desse modo, a ideologia sempre atende a interesses dos grupos dominantes.
Se há a chance de minimizar uma força ideológica a ponto de fazer cair por terra determinadas representações sociais, o que ocorre é uma inversão de poder. Esse movimento de inversão pode ser ilustrado, na atualidade, pelo surgimento de ideias globais, como a do desenvolvimento sustentável, e/ou leis em favor de grupos sociais marginalizados, tais como o reconhecimento legal de relações homoafetivas. Esses exemplos ilustram que é possível a grupos de pessoas ou até mesmo a sociedades inteiras conseguirem libertar-se de discursos opressores quando percebem que determinados aspectos do senso comum sustentam desigualdades de poder em detrimento de si próprio (FREIRE, 1987).
Se a ideologia competente se faz pelo uso do discurso competente, o poder do grupo social que tem domínio do uso da linguagem bem articulada e coerente estrutura a sociedade hierarquicamente, invalidando os discursos de indivíduos que não partilham do mesmo domínio linguístico (CHAUÍ, 2005).
Essa condição de submissão social pode ser percebida no discurso de pessoas oprimidas, ou constrangidas socialmente, as quais se sentem incapazes de desenvolver uma autoestima à medida que reconhecem o próprio discurso como algo insuficiente frente àqueles validados institucionalmente. Em outras palavras, para esses indivíduos, tal diferenciação no domínio linguístico configura-se como um elemento fronteiriço, definidor de grupos identitários (WOODWARD, 2000).
O problema não reside no fato de existirem grupos identitários unidos por códigos de conduta e/ou linguístico. Ele existe quando essa divisão é representativa de desigualdades sociais responsáveis pela exclusão aos bens culturais e de consumo, condicionando determinadas camadas sociais a assumir identidades pessoais ou sociais desprestigiadas. No entanto, algumas medidas sociais promovidas por instituições não governamentais têm contribuído de forma exemplar no sentido de minimizar os problemas de uma realidade social, muitas vezes, invisível aos olhos das camadas sociais favorecidas.
Fruto do momento histórico em que vivemos, o trabalho desenvolvido por instituições filantrópicas que dão suporte às Organizações Não-Governamentais (ONGs) – ou mesmo ações solidárias promovidas por grupos de jovens religiosos –, busca preencher lacunas
relativas à assistência social, que por lei é obrigação do Estado, esclarecendo às pessoas sobre os direitos sociais, dentre os quais se destaca o direito pleno à cidadania.
Dentre o trabalho desenvolvido por religiosos e voluntários, destacamos o que é dedicado a preservar a integridade religiosa de grupos de jovens, sem distinção de condição social, promovido por Pastorais católicas12, as quais direcionam esforços no sentido de
fortalecer seus seguidores, tanto espiritualmente, afetivamente (autoestima), quanto em suas necessidades sociais. Esse trabalho realiza-se em práticas sociais rotineiras, a partir das quais, a participação em eventos de letramento voltados para a evangelização missionária de grupos de jovens promove a interação entre coordenadores e participantes, proporcionando a discussão de temas diversos.
Estas são ocasiões nas quais os participantes aprendem a se posicionar quanto aos assuntos debatidos, os quais devem estar sintonizados com o que defende o grupo. O fenômeno da aderência às formas de pensamento de um grupo social indica não apenas que essa aderência ocorre por causa da solidariedade e da afiliação social, mas porque “partilhar da ideia ou da linguagem é também afirmar um vínculo social e uma identidade”, conforme Jodelet (2001, p. 34).
As práticas e os eventos de letramento desenvolvidos nos contextos paroquiais subordinados às Pastorais Sociais se traduzem em ‘ações transformadoras’, cujos esforços são direcionados à evangelização missionária comprometidas com a justiça social. A esse respeito, é interessante observar que as consequências dessas ações têm abrangência direta nos processos cognitivos e na autoestima de seus participantes, pois seus esforços, mesmo que indiretamente, são destinados a minimizar as diferenças sociais, culturais, linguísticas e cognitivas relacionadas ao discurso incompetente. Busca-se, a partir de discussões de questões sociais atuais e das leituras de textos predominantemente religiosos, despertar a consciência crítica reflexiva sobre fatos sociais atuais, de modo que essas práticas se constituam em uma prática cidadã. Nelas, coordenadores e participantes partilham experiências e conhecimentos, numa troca mútua de aprendizagem.
Conforme a Cartilha de Pastoral Social nº1, Elaborada pela Conferência de Bispos do Brasil,
[...] as Pastorais Sociais, no plural, são serviços específicos a categorias de pessoas e/ou situações também específicas da realidade social. Constituem ações voltadas
12 O trabalho de evangelização, junto a comunidades de jovens, também é realizado por outras instituições religiosas distintas da Católica.
concretamente para os diferentes grupos ou diferentes facetas da exclusão social, tais como, por exemplo, a realidade do campo, da rua, do mundo do trabalho, da mobilidade humana, e assim por diante. O Setor Pastoral Social, por sua vez, integrado na dimensão sócio-transformadora, linha 6 da CNBB, tem duplo caráter: por um lado, representa uma referência para toda a ação social da Igreja, em termos de assessoria, elaboração de subsídios e reflexão teórica. Por outro lado, é um espaço de articulação das Pastorais Sociais e Organismos que desenvolvem ações específicas no campo sociopolítico.
Independente de se realizar em contexto religioso, o trabalho realizado por ONGs e Pastorais direcionado a grupos de pessoas fragilizadas e/ou oprimidas13 dá-se via eventos
desenvolvidos por grupos movidos por interesses sociais bem definidos. Ou seja, esses eventos são palco para discussões sobre questões sociais que têm poder transformador, pois se realizam em atividades interativas face a face, na qual é dado aos participantes o direito à palavra. Há ainda outros meios indiretos de combate à condição de incompetente discursivo, principalmente os veiculados pelo rádio e por programas televisionados que, de certa forma, possibilitam não apenas a construção de novas formas do dizer, mas, principalmente, o acesso a informações que antes lhes era vetado.
Dentre as diversas práticas de letramento direcionadas às pessoas em situação de fragilidade, muitas são destinadas a repassar informações e orientações de caráter social mais amplo, tais como: cuidado com a saúde do idoso; combate à violência doméstica; combate ao câncer de mama; informações sobre os direitos do cidadão; informações sobre a necessidade da preservação do meio ambiente; informações sobre o combate à dengue e ao cólera, entre outras doenças.
Em todos esses eventos, práticas de letramento são experienciadas plenamente pelos interactantes; textos escritos, imagens e o próprio discurso falado são recursos amplamente usados de forma estratégica, respeitando as práticas culturais situadas, para alcançar metas sociais (GEE, 2001). O sucesso desse tipo de interação social, mediada por textos predominantemente orais, depende fortemente do grau de envolvimento e da adesão do público alvo, de forma que as informações neles veiculadas precisam ser de pleno interesse dos indivíduos envolvidos em tais eventos (HEATH, 1983 apud PRINSLOO, 2000).
Ainda conforme a referida autora, é necessário avaliar vários fatores sociais, tais como o grau de interação familiar e a participação em domínios sociais distintos para que se possa
13 Neste ponto cabe um esclarecimento. Apesar de estarmos evidenciando grupos economicamente desfavorecidos, é evidente que pessoas de classes economicamente favorecidas também sofrem tipos diversos de opressão, como por exemplo: a violência doméstica, a violência contra o idoso, a violência sexual e, por isso mesmo, necessitam de apoio especializado.
explicar adequadamente qualquer tipo de sucesso ou fracasso associados às pessoas em práticas de letramento. O sucesso em práticas de letramento deve estar contido na reprodução das próprias práticas culturais, nos modos como as pessoas compreendem e interpretam o mundo ao seu redor.
Essas práticas sociais são formas de conhecimento que são elaboradas e compartilhadas com objetivos práticos, de forma que elas concorrem para a construção de uma realidade comum, criando um mundo de representações sociais que ajudam as pessoas a tomar decisões, assumindo posicionamentos defensivos (JODELET, 2001).
Em Prinsloo et al (2000), temos que as práticas culturalmente desenvolvidas validam a afirmação de que as pessoas partilham práticas discursivas distintas, nas quais elas compartilham formas características de falar, agir, valorizar e interpretar a linguagem escrita e falada. Logo, não é sem razão a afirmação de que o posicionamento reflexivo, aliado à agência, é um fator suficiente para promover mudanças sociais.
As pessoas, ou grupos de pertencimento, uma vez conscientes, não apenas de seus direitos, mas principalmente de informações úteis para garantir mais qualidade de vida, podem tomar decisões em prol de si mesmas, e uma delas pode ser a de negar o discurso ideológico dominante que os oprimem. Para tanto, é necessário que haja condições socioculturais para o surgimento do letramento crítico (SHOR, 1997).
Para Shor (1997), o letramento crítico começa quando as pessoas passam a questionar as relações de poder, os discursos e as identidades nele veiculados. Conforme esta pesquisadora, nós podemos redefinir a nós mesmos e refazer a sociedade se assim o quisermos, e isso dar-se-á através de alternativas retóricas e projetos dissidentes.
Alternativas retóricas são facilmente internalizadas pelos grupos sociais que partilham de ideias e ideais em comum. Já os projetos dissidentes são mais difíceis de serem colocados em prática, porque estão diretamente associados à agência (GIDDENS, 2003; ARCHER, 2000). Nesse caso, para que haja sucesso, é necessário levar em consideração vários fatores, tais como a solidariedade expressiva, o monitoramento e autorregulação das ações desenvolvidas.
Complementando, o letramento crítico é uma prática social que proporciona ao sujeito posicionar-se de forma diferente em relação aos fatos sociais, pois ele assume a condição de quem questiona os conceitos e os valores sociais facilmente aceitos como verdadeiros. A partir de um posicionamento crítico, o sujeito busca: examinar as origens de certas ideologias
opressoras; analisar as formas de construção do conhecimento, da cultura, a formação das identidades culturais e a rede de relações estabelecidas entre o local e global; ele percebe que é necessário questionar verdades universais e entende que há um lado positivo nos conflitos sociais.
Ratificando o que foi exposto, exemplos de sucesso de mobilidade social, via esforço individual – intelectual, esportivo, artístico –, contribuem para fortalecer a ideia de que ‘é preciso investir em si mesmo’, apesar de que muitos poucos conseguem de fato realizar a ascensão social. Para que haja a possibilidade de surgimento de novas práticas discursivas de modo a unificar e/ou transformar o contexto social, é preciso que a ideologia dominante já apresente sinais de enfraquecimento, o que é demonstrado pela quebra de paradigmas sociais que sustentam as relações de poder (FAIRCLOUGH, 2001b).
A teoria social do letramento enfatiza as relações sociais e a forma como as pessoas entendem seus papéis nas práticas sociais, como elas falam sobre suas experiências e como elas dão sentido ao que fazem (GEE, 2001). Esse processo é estruturador da sociedade, pois cada indivíduo internaliza determinadas práticas sociais valoradas, sócio e historicamente como positivas (BAUGNET, 1998). Trata-se não apenas de um processo interno ao indivíduo mas também de formas de conectar grupos de pessoas que compartilham ideias.
Isso significa que as pessoas têm consciência de seus letramentos e fazem uso de suas competências discursivas para selecionar seus grupos de pertencimento por afinidades cognitivas, afetivas ou culturais, ancoradas em suas representações sociais (JODELET, 2001). Essa seleção dá-se pelo fato de que as práticas sociais correspondem a modelos pré-existentes que regulam o uso e a distribuição de textos, e essa regulação ideológica determina quais grupos sociais têm acesso e quais podem reproduzir determinadas práticas de letramento, as quais devem ser compreendidas como formas de relações entre pessoas, grupos e comunidades, e não apenas como uma propriedade individual (GEE, 2001).
Conforme apresentado, as práticas de letramento são processos sociais que servem para promover eventos sociais e são gerados e modelados por usos singulares da leitura e da escrita, obedecendo a regras sociais que regulam a produção, a distribuição, o acesso e o uso aos textos.