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Repetir repetir - até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo. (Manoel de Barros)

Fátima e Adriano me disseram que os jovens da banda de lata participaram do início da ocupação do Assentamento Recreio. Os jovens que, hoje estão na adolescência, durante a ocupação estavam na infância. Segundo os adultos é provável que esses adolescentes se considerassem como sem terrinhas, já que as antes crianças tiveram vivências com o MST. É

15 Apropriamo-nos do conceito de produção de subjetividade de Félix Guattari. Pensamos, nesse caso, a produção de subjetividade que envolve narrativas que circulam o território do assentamento a respeito de modos de ser criança territorializados no MST, além de outros elementos individuais, coletivos e institucionais. Entendamos como construções coletivas a respeito de ser um assentado que integra o Movimento dos Sem Terra.

dizer que os jovens dessa geração experienciaram as lutas pela conquista da terra. Participaram da ocupação, de passeatas e das muitas tensões que ocorrem até o título de imissão da terra.

Para os pais de Maiara, entretanto, seria muito difícil que a nova geração de crianças se reconhecesse como sem terrinhas. Isso porque essas crianças não tiveram um contato direto com o MST. A turminha co-pesquisadora, por exemplo, faz parte dessa “nova” geração, ou seja, dessa infância que não se reconheceria como sem terrinha.

Contemos mais uma historinha de criança. Você é sem terrinha? “Sou” (e Parker mostra um sorriso alegre). “Sim, por causa que esse assentamento foi conquistado. E eu tou aqui e gosto” (Vaqueiro).

Você se considera sem terrinha? “Considero, porque é... desde pequena que eu moro aqui. E aqui é muito legal, e eu gosto” (Carla). “Eu acho que sim, né, porque a gente, as primeiras pessoas que fundaram essa comunidade foi com a ajuda do MST. Também que o Toninho, que é o esposo da Eliene, ele faz parte ainda, vizinho da [Rute]. Faz parte. Também ajudou muito para a gente construir a comunidade” (disse a Maiara num tom bastante sério). “Considero (olha para a câmera, depois fixa seus olhos nos meus e continua) e com muito orgulho” (Rute).

Ora, percebamos que a geração de crianças que não experienciou diretamente a ocupação e a luta pela conquista da terra reconhecem-se como sem terrinha e se aproximam das lutas que as comunidades rurais passaram junto ao MST para conquistar o assentamento. Toda a turma de co-pesquisadores se aproximou das lutas, da história e da constituição do assentamento. É um elemento de ligação com a história da terra, uma ancestralidade contextualizada com suas lutas. Mesmo que as crianças dessa nova geração já tenham nascido no Assentamento Recreio, elas trazem o orgulho da luta pela conquista da terra, porque elas vêem daquele território, daí a noção de ancestralidade.

Atentemo-nos que Maiara indica que ainda há militantes no Assentamento Recreio, o Toinho. Ou seja, a identificação com a luta não é algo que está apenas na memória e no imaginário das comunidades que compõem o assentamento. Não. É algo que ainda está presente na comunidade.

Rute diz que seu vizinho, mesmo tendo se casado, não se separou do MST.

- Rute: A minha opinião é que o MST é um movimento muito prestígio. (Se vira e sorri para um gatinho que sobe no parapeito do alpendre. Volta-se novamente para a câmera.) E que ele ajuda muito o sem terra. A maior coisa que eu tenho, assim, muita pena: não unido, né... Causa que os latifundiários, eles destroem muito o MST. Mas como mesmo assim, o... Até meu pai, ele faz parte, ele fazia muita parte do MST. Só vivia nisso. Mas, hoje, como ele casou e tem, cria família. Ele só faz

parte dos congressos que tem em Brasília. Já o vizinho lá de casa (fala fazendo um biquinho na boca), mesmo casado, ele não se separou do MST. Ele é uma... tipo assim, como se o MST fosse a metade da vida dele, né... e por isso, mesmo assim, eu amo o MST. Por mim, eu defendo muito os trabalhos que ele faz.

Percebamos a clareza que a co-pesquisadora se expressa a respeito do contexto em que o MST se encontra: o de ataque dos latifundiários. O pai faz/fazia parte do movimento, mas, com o casamento, ele participa apenas das grandes ações. De toda forma, o pai da Rute e do Vaqueiro ainda participa ativamente das reuniões da associação. Essa participação do pai indica que ainda há uma vivência política cotidiana na vida do pai. Tal vivência paterna integra, por conseguinte, de alguma forma, a vida dos filhos.

Destaco que, nas duas reuniões que participei da associação, o Vaqueiro estava presente. Ou seja, mesmo que não participe integralmente das reuniões, o co-pesquisador está por dentro das discussões do assentamento. Dizemos que o Vaqueiro não participa integralmente da reunião, porque em alguns momentos ele sai da sala onde ocorre a reunião e vai ao encontro dos amigos para brincar/conversar. De toda forma, quando está na sala, ele presta atenção nas discussões e se senta do lado do pai.

Perguntei ao Vaqueiro o que ele achava sobre o MST.

- Vaqueiro: Eu acho ele muito importante, porque... é... ele, ele é um movimento que procura terra para quem num tem onde morar.

Vaqueiro reconhece, portanto, a importância do movimento na luta para garantir um direito àqueles que precisam de moradia.

Sobre o MST, Carla disse: “Eu acho muito legal e interessante”. Mas por quê? “Porque eles ajudam a família, o assentamento é organizado. Mas tem algumas pessoas que procura a chave de alguma coisa, as pessoas de fora, aí eles não acha, aí fica dizendo que o assentamento é desorganizado. Não. Porque tem a pessoa da chave. Mas tem a pessoa da chave. E essa pessoa não sabe onde tá.” Carla diz que pessoas de fora muitas vezes têm preconceito com a organização do assentamento. Mas, na verdade, a co-pesquisadora explica que o assentamento é muito organizado. A pessoa de fora é que tem que buscar entender a organização do Recreio. Para Carla, o MST é importante porque ajuda as famílias, inclusive na construção de uma organização coletiva.

Naiara nos falou ainda que: “A minha opinião sobre o MST é que (olha para a câmera) eles trabalham para conseguir terra (olha pra mim) pros sem terra, né, logicamente (abre novamente o sorriso). E também é que é uma movimentação, né, muito organizada. Na minha opinião, né, não sei na dos outros. Na minha é. Mas na dos outro, pode ter algum diferente... E é isso.” Naiara também destaca a importância na luta pela terra e a peculiar organização do movimento. Ela se mostra bastante flexível que algumas pessoas discordem que o

assentamento seja organizado, mas ela defende a organização do assentamento que se vincula ao MST.

“O MST? Muito interessante, porque ele divulga as coisas que é mais importante” (Parker). A opinião do co-pesquisador é que o MST tem a função de trazer as informações mais importantes. Entendemos que a importância se dá pelo fato de ser uma divulgação/informação contra-hegemônica e que diz respeito ao campo. É uma informação mais próxima deles. Não prioriza tematizar as cidades. Parker destaca assim as razões pelas quais compreende que o movimento é interessante.

Maiara disse: “Eu acho que, assim, ele é, tipo assim uma comunidade. Que ele ajuda as pessoas que estão desabrigadas. ST, sem terra. Que as pessoas que não têm terra vão atrás de uma coisa de algum canto que dê para eles morar. Pronto” (abre um sorriso enorme que fecham seus olhinhos e mostra a língua num tom esperto). Para a co-pesquisadora, o MST é uma comunidade que ajuda as pessoas que não têm terra e moradia. A ideia de comunidade pode expressar a unidade e a organização do movimento.

Por fim, identificamos que todos os co-pesquisadores expressaram um sentimento positivo a respeito do MST (prestígio, amor, importante, organizado, que ajuda etc.), destacando também um entrecruzamento entre suas respectivas histórias e as histórias de luta do Assentamento Recreio: ancestralidade campesina.

Assinalamos ainda algumas singularidades dessas histórias:

1) Vaqueiro e Maiara destacam a relação entre a luta pela terra e pela moradia – intimamente ligada à história do Assentamento Recreio que teve negado o direito a cultivar e, depois, a morar na terra na qual estava a mais de cinco anos.

2) Maiara e Rute destacam ainda a presença atual do MST na vida do assentamento, personificada na pessoa do vizinho militante de Rute, o Toinho.

3) As falas de Maiara e Rute sugerem ainda que as questões a respeito do MST não parecem ser discutidas diretamente em casa com elas. Elas têm suas opiniões e se sentem à vontade para falar sobre o MST. Entretanto, Fatinha e Maiara, por exemplo, não consideram que Adriano seja militante do MST, enquanto ele se reivindica assim. Rute diz que o pai fazia muita parte, mas hoje menos, não afirma com certeza o papel do pai no movimento. Sabe que seu pai participa dos congressos. Por que elas se sentem à vontade para falar do MST, mas não falam com “segurança” a respeito de seus pais? De toda forma, dentro do próprio seio familiar, parece haver pouca tematização a respeito de quem se aproxima mais do MST.

4) Naiara e Carla defendem a unidade do assentamento e a organização da produção coletiva, mesmo que algumas pessoas discordem e achem que o assentamento e o MST são

desorganizados. O destaque a respeito da organização do assentamento parece estar relacionado ao momento que o Assentamento Recreio passa: possível divisão do assentamento em dois e possível mudança na produção coletiva para individual.

5) Parker foi o único que destacou a importância que o MST tem em trazer informações/divulgar. Não são apenas os meios de comunicação convencionais que produzem informação, pois o MST “divulga as coisas que são mais importantes”. Entendemos que é um realce para a importância que o movimento dá à comunicação (BARRETO, 2012).