2. Konseptuell analyse
2.5 Anvendelse av rammeverket
O respeitado jornalista Ed Bradley comandou por mais de duas décadas o tradicional programa de entrevistas da rede CBS de televisão norte-americana, o “60
Minutes”, dialogando com toda sorte de personalidades relevantes dos anos 1960 até a década dos anos 2000 (ele faleceu em 2006). Sua credibilidade pode ser expressa no número de prêmios Emmy obtidos: dezenove. Bob Dylan foi ao “60 Minutes” em dezembro de 2004, sua primeira aparição televisiva em cerca de 20 anos.
A entrevista é conduzida de forma sóbria, com linguagem simples e coloquial. O entrevistador, Ed Bradley, tenta adotar um tom imparcial, objetivo, mas em vários momentos se coloca na enunciação, o que faz com que a debreagem seja enunciativa (um “eu” que fala no aqui e no agora). Em alguns momentos, ocorrem debreagens internas, pois o Ed Bradley/enunciador delega a voz para o próprio discurso de Bob Dylan ou de pessoas que se referem a ele. Isto confere credibilidade a Ed Bradley, que se mostra ao espectador como um jornalista bem informado, que pesquisou sobre o assunto e tem conhecimento sobre o artista que está entrevistando.
No caso de Bob Dylan, a debreagem é enunciativa, pois claramente ele se coloca na enunciação: é um “eu” que fala no aqui e no agora para um “tu” também no aqui e no agora. Somente em um único caso, quando ele cita uma canção de sua própria autoria, existe a debreagem interna.
Para melhor apreender o objeto de estudo, optou-se por dividir a entrevista em temas, compondo oito temas discutidos no total. São eles: o processo de composição; a infância e a vida em família; a decisão de sair de casa; o destino de artista; o papel de porta-voz da geração; a relação com a imprensa; o assédio dos fãs; e o papel como celebridade. Estes temas não estão rigidamente separados na entrevista – eles são fluidos, daí a necessidade de tentar organizá-los em um todo coerente.
Destes oito temas, três são fundamentais para os objetivos deste trabalho: o papel de porta-voz da geração, a relação com a imprensa e o papel como celebridade.
Para iniciar a análise, será transcrito um trecho da entrevista:
Ed Bradley: Quando esteve em Israel escreveu: “Os jornais transformaram-
me num sionista e isso me ajudou muito”. De que modo?
Bob Dylan: Veja: se a percepção comum que tinham de mim em público era
a de que eu era um bêbado, ou um louco, ou um sionista, ou um budista ou um católico, ou um mórmon, tudo era melhor que “arcebispo da anarquia”…
Ed Bradley: …“o porta-voz de uma geração”…Deixe-me falar um pouco
da sua relação com a comunicação social. Escreveu que mentia à imprensa: por quê?
Bob Dylan: Dei-me conta de que a imprensa não é o juiz, Deus é o juiz, os
únicos a quem não devo mentir são a mim mesmo e a Deus, a imprensa não é uma nem outra coisa e considero-a irrelevante.
Nota-se aqui um entrelaçamento do tema do papel de porta-voz da geração e sua relação com a imprensa. Dylan adota figuras como “bêbado”, “louco”, “sionista”, “católico”, “budista”, “mórmon”, para atacar a ação da imprensa de rotular e catalogar as pessoas, uma forma de ordenamento das informações e do mundo, como discutido no item 1.9. A partir do momento em que ele é “carimbado” com outras etiquetas que não a de “porta-voz de uma geração”, nas palavras de Ed Bradley, ou “arcebispo da anarquia”, em suas próprias palavras, ele está livre do fardo de corresponder a um papel que não deseja – o de herói do mundo folk, como analisado extensamente no primeiro capítulo.
A parte final deste trecho explica, em parte, o comportamento de Bob Dylan na coletiva de imprensa de 1965. Por considerar a imprensa “irrelevante”, ele simplesmente adota um comportamento excêntrico, irônico e engraçado, esvaziando o sentido de ser entrevistado e comprometendo o objetivo dos jornalistas de retirar alguma informação, algum fato novo do diálogo com ele.
Outro fragmento é bastante esclarecedor para esta discussão:
Ed Bradley: Sente-se um impostor quando deixa que o julguem uma coisa
que de fato não é? O que imaginavam as pessoas que era e qual era a realidade?
Bob Dylan: A imagem que tinham de mim não era a de que eu era um autor
de canções e um cantor, mas uma ameaça para a sociedade, num certo sentido.
Ed Bradley: E qual era a realidade mais dura de enfrentar?
Bob Dylan: Era como se estivesse num conto de Allan Poe de onde não
sabia como sair, sabendo quem era durante todo o tempo, era o profeta, o messias. Nunca pensei ser um profeta, um salvador…Elvis, talvez, podiam mais facilmente ver isso nele…mas profeta, não!
Ed Bradley: Percebo e aceito que não se visse a si próprio como a voz
daquela geração, mas algumas das suas canções tocaram as pessoas e elas viram-nas como hinos, como canções de protesto, eram importantes para elas, eram parte do Movimento. Ainda que não as visse assim, era desse modo que elas eram vistas. Como concilia as duas coisas: o que os outros viam nas suas canções e o que você via?
Bob Dylan: O que eu escrevia eram canções, não eram sermões, se analisar
atentamente as canções, não creio que veja que sou verdadeiramente o porta- voz seja do que for…
Ed Bradley: Mas eles viam você assim…
Bob Dylan: Sim, mas não devem ter escutado as canções…
Ed Bradley: É irônico que a maneira como você se via fosse oposta à
deles…
Bob Dylan: Não é irônico?
Neste outro fragmento da entrevista, Dylan se refere ao fato de sentir o peso de ser visto como o porta-voz de sua geração, tema que está figurativizado em “profeta”, “messias”, “salvador” e uma curiosa referência a ser um personagem de “um conto de Allan Poe”, escritor norte-americano que criou o gênero policial e deu vazão aos
sentimentos de morbidez, terror, morte e solidão em sua obra. A própria expressão de ser visto como “uma ameaça para a sociedade” confirma o sentimento opressivo experimentado por Bob Dylan. Ele reafirma mais uma vez não ser “porta-voz seja do que for” e se defende alegando que escrevia “canções” e não “sermões”, por isso não poderia ser considerado um profeta, um salvador ou um messias, para usar suas próprias palavras.
Por fim, o último trecho a ser ressaltado nesta entrevista é o que se refere à discussão sobre ser uma celebridade:
Ed Bradley: O que pretende dizer quando escreve que “a coisa divertida da
celebridade é que ninguém acredita que seja você”?
Bob Dylan: As pessoas dizem: “Você é aquele que eu penso que você é?” e
eu respondo: “Não sou!” e as pessoas dizem: “Sei que é!” e eu respondo: “Ok!” e eles dizem: “Sim?” e dizem a seguir “Não é verdade! Não, você não é ele!…” e assim podemos ir até ao infinito…
Ed Bradley: Freqüenta os restaurantes agora? Bob Dylan: Não me agrada comer em restaurantes… Ed Bradley: Porque as pessoas vêm perguntar: “É você”? Bob Dylan: Sim, isso acontece sempre.
Ed Bradley: E não está habituado? Bob Dylan: Não.
Dylan se utiliza de diálogos que correspondem ao que acontece em sua vida para demonstrar como é o assédio dos fãs. Ele ancora essa situação, portanto, em uma situação real, através de debreagens internas, que simulam uma conversa e que transmitem o efeito de sentido de que o que ele está descrevendo é o que de fato acontece em sua vida. Dylan demonstra que, apesar de ter aproximadamente meio século de carreira artística, ele ainda não se acostumou com seu papel de pessoa célebre, de olimpiano, para usar o termo de Edgar Morin.
O que se conclui do discurso de Bob Dylan ao longo da entrevista é uma profunda coerência, sempre defendendo sua opinião de forma simples e ponderada, sem jamais elevar o tom, embora às vezes adote ironias ou aparente certo desinteresse em responder perguntas que em nada diferem das perguntas que lhe faziam no começo da carreira. De todo modo, novamente ele marca sua posição e renega o papel de “porta- voz” da geração a todo o custo, revelando o quão insensata essa etiqueta lhe parece agora com os anos de distanciamento dos eventos dos anos 1960, que deram margem a esse tipo de abordagem com relação a sua pessoa artística.
Com a perspectiva do espaçamento do tempo e a possibilidade de reflexão, Bob Dylan desmonta os acontecimentos a que era submetido, tal como o assédio dos fãs144, expondo o ridículo da situação, tanto para os jornalistas, quanto para seus seguidores quanto para ele próprio, na medida em que se via em um turbilhão de fatos que ou não lhe diziam respeito, sobre os quais ele sequer tinha conhecimento ou interesse para opinar, ou não tinham a menor relevância em serem veiculados pela imprensa, pois diziam respeito exclusivamente a sua vida pessoal.
144
Ed Bradley: As pessoas iam a sua casa? Bob Dylan: Sim.
Ed Bradley: Para fazer o quê?
Bob Dylan: Para discutir comigo política, filosofia, agricultura orgânica, e coisas do tipo… Ed Bradley: E o que você sabe de agricultura orgânica?