B., como será chamada a participante do estudo, tem 27 anos, é casada e primigesta. Ela teve um bebê com 25 semanas de gestação (prematuro extremo), pesando 500 gramas, e o acompanhou durante cerca de quatro meses de internação na UTI Neonatal.
No entanto, B. já estava internada no hospital havia um mês, com o diagnóstico de Incompetência Istmo Cervical2, diagnóstico esse que frequentemente leva a partos prematuros ou abortamentos espontâneos.
Durante a gestação, os atendimentos ocorreram no quarto da paciente, duas vezes na semana, com duração indeterminada, já que no hospital, muitas vezes, era necessário prolongar ou diminuir o tempo das sessões, em virtude de exames ou outros procedimentos médicos.
Após o nascimento do bebê, meus encontros com a mãe aconteceram sempre na UTI Neonatal, ao lado da incubadora do filho. Não existiam dias nem horários pré-definidos. As sessões se davam à medida que eu ou a paciente achava necessário.
O atendimento psicológico, solicitado pela equipe médica, teve início logo após a internação da paciente, pois esta se apresentava chorosa, com sintomas de ansiedade. B. estava com 20 semanas de gestação e a médica informou que ela permaneceria no hospital até o bebê nascer.
No primeiro atendimento, ela estava acompanhada da mãe, M. Esta tem 47 anos e 3 filhos: B. e seu irmão mais velho, do primeiro casamento, e um irmão menor (com 10 anos), do segundo casamento.
A paciente comentou que estava ansiosa, pois era “muito ativa” e, naquele momento, encontrava-se impedida de realizar qualquer atividade. Estava de repouso absoluto, restrita ao leito, pois, segundo ela, apresentara sangramento e seu colo do útero encontrava-se “fino demais”.
2 Problema no canal cervical que perde a capacidade (ou não a tem) de suportar o peso da gravidez sem
B. não pode realizar o procedimento da cerclagem3, pois o mesmo poderia romper sua bolsa e ela poderia entrar em trabalho de parto.
B. estava casada com F. havia seis anos. Morava com o marido e a sogra e descreveu a relação com eles como “maravilhosa”. Contou-me que sempre quisera ter filhos, mas, quando começou a tentar, teve dificuldades e procurou ajuda médica. Fez diversos exames e o médico informou que ela não poderia engravidar por ter um útero com dimensões menores que o esperado. Nessa consulta, a paciente já estava grávida e não sabia – sempre apresentou ciclos menstruais irregulares e achava que sua menstruação se atrasara.
Procurou outro médico para ter uma segunda opinião e na mesma época fez um teste de farmácia, “só pra descartar a possibilidade de estar grávida” (sic). Quando viu o resultado positivo, B. contou que ficou “extremamente feliz e com muito medo”, pois não queria se decepcionar e também porque estava preocupada com ela mesma, uma vez que não acreditava ser capaz de gerar um bebê.
O segundo médico confirmou a gestação de cinco semanas e solicitou uma ultrassonografia, para ver como o bebê estava. No exame, observou-se que o útero da paciente apresentava “dimensões normais”.
Com nove semanas de gestação, B. teve o primeiro sangramento e foi ao médico. Este verificou que o sangue estava fora da placenta e o bebê não corria qualquer risco. Após esse episódio, a paciente continuou tendo pequenas perdas sanguíneas até que, com 20 semanas, ocorreu um sangramento intenso, com a presença de coágulos.
A paciente procurou o hospital, onde se constatou um colo do útero curto (incompetência istmo cervical – IIC) e a necessidade de internação imediata. Novamente, o sangramento era fora da placenta, o que não prejudicaria o bebê. Segundo B., o médico disse que aquilo poderia ter “um fundo emocional”.
3
Cerclagem corresponde a uma sutura em bolsa como maneira de manter o colo do útero fechado, impossibilitando anatomicamente sua dilatação antes do final da gravidez, evitando, assim, a prematuridade (MATTAR, 2006).
Nesse primeiro atendimento, B. e sua mãe demonstraram bom relacionamento, com cumplicidade e parceria. A mãe da paciente se apresentava muito calma e serena, permitindo que a filha se expressasse, sem invadir a sua fala.
B. comentou que a mãe havia ficado com ela durante a semana, e o marido, nos finais de semana, pois moravam numa cidade, e ele trabalhava em outra. Disse que não gostava de ficar sozinha no hospital, pois se sentia “deprimida”. Em outro atendimento, a paciente comentou que se sentia “sufocada” com o marido a acompanhando, pois, devido à sua preocupação com o bebê, ele tornara-se superprotetor em relação a ela (e indiretamente ao bebê), impedindo-a de fazer até mesmo pequenas coisas: “não posso nem me virar na cama”.
Quando encontrei B. com o marido (F), ele demonstrou estar preocupado com a esposa e o filho. Tentou ser bastante participativo, no que diz respeito aos cuidados com a paciente. Como a gestação evoluía satisfatoriamente, ele apresentou-se menos ansioso – B. saiu da cama, caminhou pelo quarto e sentou-se no sofá.
F. falou do medo que sentiu quando a esposa precisou ser internada e disse que se colocou ao lado dela naquela situação para apoiá-la no que fosse preciso: “perguntei até onde ela iria para ter nosso filho, até onde ela suportaria (...) a partir do momento em que ela me disse que aguentaria qualquer coisa, pois aquele era seu maior sonho, independente da dor, do período de internação, de um nascimento prematuro e da realidade de uma UTI neonatal, me coloquei junto dela e vamos passar pelas dificuldades e alegrias juntos”. Na semana seguinte, B. disse estar chateada e haver chorado ao ver o marido arrumar as coisas para ir embora. Contou que tinha “a maior motivação do mundo” para estar no hospital, mas que se sentia “presa, impotente e dependente” e não gostava dessa sensação.
Ela comentou que durante o tempo em que o marido estivera com ela no hospital, ele falou sobre a casa que estavam reformando e o trabalho que tal reforma dava. A paciente disse, então, que se sentiu culpada por não poder
dividir o trabalho com ele e que sugeriu que ele fosse embora mais cedo naquele dia, para poder descansar.
Como sua internação foi repentina, a paciente disse que não tivera tempo para organizar suas coisas em casa e no trabalho – ela era vendedora em uma loja. Quando a mãe de B. chegou, a paciente disse se sentir culpada por fazê-la ficar longe do filho menor e chorou ao falar do irmão. M. acalmou a filha, dizendo que estava tudo bem, pois acompanhava o filho pelo telefone e ficava com ele nos finais de semana. Disse, ainda, que assim como B. fazia tudo pelo filho que ainda nem nascera, ela também fazia o que podia pelos filhos, e naquele momento estar ali com a paciente era importante para ela.
Observei que M. se apresentou muito tranquila, segura do que falava e com extrema clareza.
Em outro atendimento, encontrei a paciente sozinha. Ela contou que o marido estava no trabalho, e a mãe fora para casa, pois o irmão menor tivera um problema na escola – ele havia apanhado da professora.
B. mostrou-se extremamente nervosa com o ocorrido e disse que ela e os irmãos nunca haviam apanhado da mãe, que sempre fora “carinhosa demais, atenciosa (...) a mãe acordava a gente cantando”, apesar de todas as dificuldades pelas quais já haviam passado.
Pedi a ela que me falasse sobre sua infância e a paciente contou que seu pai era alcoólatra e violento com sua mãe. Quando B. tinha 6 anos, M. resolveu se separar e foi criticada por toda a família (exceto seu pai), que nunca a acolheu com os filhos.
M. se casou com 16 anos, com o rapaz que sua mãe (avó de B.) escolheu – “a mãe casou sem amor. Disse que a avó também se casara cedo, com 14 anos, e tivera nove filhos.
A paciente descreveu a avó como uma pessoa “muito difícil, ruim, egoísta” e disse que seu avô era o oposto: “a pessoa mais maravilhosa do mundo, muito bondoso”. Falou que ele sempre fora carinhoso com os filhos e os netos e que todos iam à casa dos avós apenas para vê-lo. Há oito anos, ele faleceu e B.
comentou que, após isso, quase ninguém mais ia lá, só sua mãe, pois era ela quem cuidava da avó.
Disse que, durante algum tempo, sentiu raiva e rancor da avó, mas que já superou esses sentimentos ruins. B. contou que sua avó não acolheu a filha e os netos quando M. se separou, mesmo tendo propriedades para alugar: “a gente foi morar na garagem dela, junto com os ratos”. Falou que sua mãe herdou o jeito do avô e aprendeu com ele a ser generosa.
B. comentou que tinha sorte pelo fato de a mãe estar por perto e que foi difícil aceitar quando ela decidiu se casar novamente. No entanto, contou que ver a mãe feliz e “com uma pessoa legal” a deixou mais tranquila. Saber que a mãe tinha outra pessoa e o nascimento do irmão mais novo permitiram que a paciente amadurecesse.
Em relação ao pai, B. falou que passou muito tempo sem ter contato com ele, mas nos últimos anos ele demonstrou estar arrependido do passado e quis retomar o relacionamento com os filhos. Ela disse que ainda sentia mágoa, mas que estava tentando dar uma nova chance ao pai, “o que nem sempre é fácil”. Chorou durante o atendimento e foi até o banheiro lavar o rosto.
A paciente falou que, quando se sentia triste, nervosa ou com raiva, precisava chorar e preferia ficar sozinha.
Na 22ª. semana de gestação de B., fui informada pelos médicos que ela evoluía clinicamente bem e que seu colo do útero, apesar de fino, se mantinha preservado, permitindo ao bebê se desenvolver. Relataram que a paciente era bastante aderente ao tratamento e seguia corretamente as recomendações da equipe, que esperava pela 24ª. semana da gravidez para iniciar um tratamento com injeções de corticoide, a fim de fortalecer o pulmão do bebê. Com essa idade gestacional, as chances de sobrevida do bebê aumentavam.
Em outro atendimento, encontrei a paciente novamente sozinha. Ela apresentou-se calma e falou que a mãe e o marido haviam levado algumas coisas de casa (notebook, DVD, crochê e livros) para ajudar a passar o tempo.
B. contou que a mãe estava cuidando de sua avó e falou novamente sobre o jeito carinhoso de M.: “ela é tão calma, não guarda mágoa, nem depois de sofrer tudo o que sofreu na vida”.
A paciente disse, ainda, que sua mãe era seu “ponto fraco”, pois não gostava de vê-la triste. Falou sobre uma briga que tiveram, quando B. ficou nervosa por estar no hospital. Disse que M. permaneceu muito calma e que, quando ela foi embora, a paciente telefonou para se desculpar: “a mãe me atendeu super bem e disse que não estava brava, que eu podia ficar tranquila (...) ela nunca brigou com a gente (B. e seus irmãos), sempre conversou muito, aconselhou, mas nunca batia ou ficava nervosa” (sic).
Perguntei se aquilo era coisa de mãe: “acho que é, né? Olha eu aqui, sofrendo um monte por causa do meu filho, mas nem ligo (...) tudo pra ele nascer fortinho, gordinho e saudável (...) tô até presa! Não sei como tem gente que faz coisas ruins, se soubesses como é horrível ficar preso! E olha que eu tô num lugar muito bom e tenho o melhor motivo do mundo” (sic).
Ao completar 25 semanas de gestação, fui informada pelos médicos que B. havia começado a sentir contrações e por esse motivo a equipe iniciara o planejamento para o parto nas horas seguintes. Encontrei a paciente sozinha e um pouco agitada. Ela disse que havia discutido com o marido no dia anterior, pois sua mãe precisou ir resolver assuntos pessoais em casa e ele queria que a sogra de B. viesse para o hospital ficar com ela. No entanto, a paciente disse que preferia ficar sozinha, pois, com a proximidade do parto, estava mais ansiosa e queria pensar, descansar e se “preparar para a próxima etapa”. Ela disse que o parto estava programado para aquele mesmo dia e que sua família viria mais tarde para estar com ela.
B. contou que nos últimos dias passara a pensar mais no filho, nas coisas que ainda não havia comprado para ele, pois antes tinha “medo de que as coisas não dessem certo”. Ela falou que foi difícil segurar a ansiedade e “não sair comprando todas as roupinhas que pudesse”, mas que preferiu esperar e se “concentrar no que era realmente importante”, sua saúde e seu bebê.
Quando voltei para atendê-la no dia seguinte, o parto já havia sido feito e o bebê se encontrava na UTI Neonatal. A paciente contou que se sentia bem e com a sensação de ter “feito tudo o que podia”. Disse que fora submetida a uma cesárea, pois, mesmo com dilatação total, não pôde fazer o parto normal, já que o bebê não se encaixara na posição que deveria. B. falou que sentiu muito medo e que na hora não conseguiu nem chorar, uma vez que estava “muito aflita”.
Ela contou, ainda, que, enquanto permaneceu na sala de Recuperação Pós Anestésica, a enfermeira que a estava acompanhando se disse surpresa por ver que ela não reclamava de dor, como acontecia com a maioria das pacientes. B. disse que, naquela hora, não sentia nada, estava concentrada, relembrando os últimos acontecimentos e “deixando a ficha cair”.
Quando perguntei sobre o bebê, ela comentou que se sentiu muito bem por poder andar até a UTI Neonatal. Contou que o filho era “muito pequeno, diferente do que imaginava (...) mas é lindo”.
A. pesou 500 gramas ao nascer. Dentro da incubadora totalmente vaporizada para manter seu corpo úmido e aquecido, estava entubado, com um cateter umbilical, acesso para soro e medicações no pé, oxímetro de pulso para monitorar batimentos cardíacos e oxigenação.
B. disse que, ao vê-lo, sentiu uma mistura intensa de “felicidade, orgulho, medo, prazer e preocupação”. Falou que viu seu maior sonho realizado, mas ainda tinha receio de que a qualquer momento ele lhe fosse tirado. A paciente contou que não queria tocar no filho na primeira visita e que preferiu ficar pouco tempo na Unidade, pois sentia tontura e “ainda precisava se acostumar com tudo aquilo”.
Ela foi para o quarto e solicitou à mãe e ao marido que comunicassem os parentes e amigos sobre o nascimento de A., mas pediu que as pessoas não fossem visitá-la, pois ela passaria grande parte do tempo na UTI Neonatal e preferia receber as visitas quando já estivesse em casa.
No dia em que B. recebeu alta hospitalar, encontrei-a chorosa e pouco comunicativa. Ela falou que sempre imaginara sair da maternidade com seu
bebê no colo e que sabia que ainda levaria algum tempo até que aquilo acontecesse. A paciente disse se sentir triste e pedi, então, que ela me explicasse aquele: “é uma vontade muito grande de ficar sozinha, sabe? De ficar quietinha, comigo mesma, pensando, sem ter que me preocupar com o que vou falar, se os outros vão entender ou o que vão pensar (..) Depois de um tempo me sinto melhor”.
B. falou também que evitava pensar em coisas ruins, mas que ainda sentia medo pelo filho, “muito pequeno e frágil”. Disse que naquele dia iria cedo para casa, pois precisava descansar e se recuperar da cirurgia, mas que nos próximos dias passaria a maior parte do tempo ao lado de A., aprendendo as necessidades do filho.
Em outro atendimento, encontrei B. já na UTI Neonatal acariciando o filho, dentro da incubadora. Ela falou que estava “surpresa” consigo, pois estava conseguindo “suportar bem a situação”. Ela contou que, quando estava com o bebê, sentia-se muito calma e feliz. No entanto, disse que, se estava em casa e longe de A., sentia-se irritada, ansiosa, preocupada. A paciente falou que, naqueles momentos, costumava ir arrumar as coisas do filho: “comprei algumas coisinhas pra e ele e começamos a montar o quarto, então estou decorando e lavando as roupinhas (...) me ajuda a passar o tempo e parece que assim cuido um pouco dele” (sic).
Passadas duas semanas do nascimento do bebê, B. já se sentia mais à vontade no ambiente da UTI Neonatal e no papel materno. Observei que ela já conseguia tirar suas dúvidas com a equipe de saúde, interagia com o filho, era capaz de perceber quando ele estava mais agitado e em qual posição preferia ficar.
Nos dias que se seguiram, A. apresentou alguns hematomas na pele, decorrentes das intervenções necessárias aos seus cuidados, e B. comentou ter ficado chateada. Disse que o filho vinha apresentando bons resultados e que ficou triste por ver que ele estava tendo dificuldades em relação à regeneração da pele. Durante o atendimento psicológico, ao lado da incubadora, ela se mostrou incomodada e perguntou ao bebê “por que o
remédio não fez efeito?”. Ela encerrou o atendimento, justificando que estava na hora de tirar leite e que precisava descansar um pouco.
Na semana seguinte, quando A. completava um mês de vida, um outro bebê internado na Unidade (também prematuro, de 24 semanas de gestação) foi a óbito e a notícia se espalhou entre as mães que estavam por lá. Encontrei B. agitada. Ela disse estar emocionada e “muito mexida” com aquela situação. Ela decidiu sair da UTI Neonatal para “respirar” e passou a maior parte da manhã sem retornar.
Quando a encontrei novamente, já ao lado do filho, ela contou que ia rezar pela família do bebê que falecera, mas que pensou e percebeu que precisava estar “focada no A.” para não deixar que as histórias que presenciava com as outras mães a afetassem. Disse que era “impossível não se sensibilizar diante da morte de um bebê e do sofrimento da mãe, mas preciso separar o que acontece com elas e o que acontece comigo e meu bebê (...) se eu não fizer isso não consigo ficar aqui, fico louca”.
Em outro atendimento, B. contou que o filho havia tido três apneias4 no dia anterior, uma enquanto ela estava com ele. A paciente disse que o bebê ficara “todo roxo, sem ar” e que ela sentiu muito medo. Falou que aquele tipo de situação a deixara “acabada” e que, quando foi embora, sentia-se “cansada e com dor no corpo” (sic).
Ao chegar a casa, comentou que não tinha vontade de conversar com ninguém, mas entendia a preocupação da família e o desejo por notícias, por isso passava todas as informações para o marido e pedia que ele as repassasse aos familiares. Novamente B. disse ocupar seu tempo e “espairecer”, organizando as coisas do filho.
Nesse mesmo período, o bebê teve uma infecção que os médicos demoraram a diagnosticar, pois não conseguiam descobrir qual bactéria A. pegara. A paciente se mostrou bastante agitada e falou que a quantidade de seu leite
4 As apneias acontecem quando exista a interrupção do fluxo de ar nas vias respiratórias por
um período igual ou superior a 20 segundos, ou por período de menor duração, se acompanhado de diminuição dos batimentos cardíacos, palidez ou cianose. Ocorre em 84% dos bebês prematuros com peso inferior a um quilo (LESSA; MARGOTTO, 2002).
havia diminuído, devido às preocupações com o bebê. Ela contou que se sentia culpada e chateada, pois o leite era uma das “únicas formas de ajudar o A.”. Por isso, resolveu conversar com a equipe do Banco de Leite do hospital, que a aconselhou a beber mais líquido, incluindo “um tipo de chá, o chá da mamãe”. B. disse que nunca gostou de chá, mas que fazia “o que puder para ajudar”. Ela se disse muito cansada com a rotina do hospital e “emocionalmente desgastada por causa das várias notícias ruins”.
A paciente disse estar “menos comunicativa” durante aquela semana e relatou não conseguir ficar na companhia das outras mães na sala que o hospital reservara para elas: “fico feliz de verdade ao saber que os outros bebês estão indo bem e muitos já estão até indo para casa, mas como o A. está em uma fase mais complicada, prefiro ficar sozinha, no meu canto (...) não tenho vontade de ficar falando o tempo todo sobre como ele está, se piorou, se melhorou (...) naquela sala não existe outro assunto, só UTI, apneia, peso, quantos mls de leite cada uma tirou (...) parece uma competição, cansa um pouco”.
Alguns dias depois, encontrei B. aparentemente mais animada. Ela disse que o bebê havia melhorado e que por esse motivo estava “chegando mais tarde nos fins de semana, para descansar”. A paciente aproveitou para comentar que seu irmão mais novo estava com dificuldades na escola, tirava notas baixas e não se relacionava com os amigos. B. falou que sua mãe evitava contar sobre os “problemas da família” para não deixá-la preocupada, e ela se disse bastante incomodada com tal situação: “eles são minha família, eu também quero participar (...) não é porque virei mãe que deixei de ser irmã ou filha”.
Ainda nesse período, o bebê completou um mês de vida e B. falou que se sentia “aliviada”, pois as coisas “agora parecem que estão mesmo acontecendo, mesmo que de uma forma meio torta” (sic).
Passados mais alguns dias, a paciente recebeu a notícia de que o peso de A.