Continuando nossa exposição sobre a contribuição de Nida na busca por uma abordagem científica da tradução, discorreremos sobre algumas noções básicas sobre o que este autor convencionou chamar de equivalência formal e dinâmica.
66 Original: In such a situation a translator is not content to have receptors say, "This is intelligible to us." Rather,
he is looking for some such response as, "This is meaningful for us." In terms of Bible translating, the people might understand a phrase such as "to change one's mind about sin" as meaning "repentance" But if the indigenous way of talking about repentance is "spit on the ground in front of," as in Shilluk, 'spoken in the Sudan, the translator will obviously aim at the more meaningful idiom. On a similar basis, "white as snow" may be rendered as "white as egret feathers", if the people of the receptor language are not acquainted with snow but speak of anything very white by this phrase.
67 PEDIDOS: Os pedidos serão feitos por escrito e ficarão sujeitos à aceitação pela Sociedade, a seu exclusivo
94 A equivalência formal repousa sua atenção na mensagem. Nesse sentido, o TRD se preocupa buscar uma correspondência mais próxima (entenda-se: mais literal) possível entre a LF e a LA, mesmo quando elementos de culturas diferentes os impede na determinação de padrões de exatidão e de correção; ao passo que a equivalência dinâmica tem seu foco na naturalidade da expressão, e tenta relacionar o receptor com modos de comportamento relevantes no contexto de sua própria cultura.
Já sabendo que o processo tradutório surge de um encargo, isso implica que a responsabilidade dessa tarefa deverá ser suportada pelo profissional a quem foi dada tal incumbência tradutória. Desse modo, o TRD não deveria ficar demasiadamente preocupado em buscar exatidões de correspondência entre a língua do receptor e a mensagem do TF. O TRD deveria, sobretudo, estar atento à dinâmica desta relação receptor-mensagem. É o que observaremos mais tarde, quando abordarmos a questão o efeito em Nord (2016). Por conseguinte, o mais importante é observar os efeitos que a mensagem original causa no leitor da LF e transpor tais efeitos para o leitor da LA. “[...] a correspondência no significado deve ter prioridade sobre a correspondência no estilo.” (NIDA, 1964, p. 164) 68
3.13.1 Princípios que regem as equivalências formal e dinâmica
Segundo Nida (1964), a tradução baseada na equivalência formal orienta-se pela LF. Esta língua de partida é o referencial que deverá servir de base para as escolhas tradutórias de forma tal que revele o máximo possível da forma e do conteúdo da mensagem original. Em oposição à tradução orientada pela equivalência formal, as escolhas tradutórias baseadas na equivalência dinâmica transferem seu foco para a LA e para a resposta, ou reação, do receptor. Uma tradução orientada pela equivalência dinâmica deverá refletir o dinamismo e a naturalidade que se encontra em um texto, como se este tivesse sido gerado na própria língua do receptor, a ponto de este poder afirmar: “é assim que nós diríamos isso” 69(NIDA 1964, p. 166).
Para um melhor entendimento das implicações de cada orientação tradutória, e baseados nas exposições de Nida referente ao tema, desenvolvemos abaixo um quadro explicativo sobre as características de cada uma delas:
68 Original: “[…] correspondence in meaning must have priority over correspondence in style.” (tradução nossa) 69 “That is the way we would say it.” (tradução nossa)
95 Quadro 3 - Equivalência formal e dinâmica - síntese das características.
FORMAL
Unidades Gramaticais:
Substantivos por substantivos, verbos por verbos, etc.; [affiliate = afiliada; cliente = cliente]
Manter todas as frases e sentenças intactas;
[All amounts payable by Distributor to Company shall
survive termination… = Todos os montantes devidos pela
Distribuidora à Sociedade subsistirão à rescisão...]
Preservar todos os indicadores formais (sinais de pontuação, quebras de parágrafo).
[“Affiliate” means any company controlled by,
controlling, or under common control with Company. =
“Subsidiária” significa qualquer empresa controlada por, controlando, ou sob controle comum com a Empresa.] Consistência no Uso da Palavra
Consistência rígida: Terminologia; [due and payable = exigível]
Uso de colchetes, parênteses ou itálico.
[This Distribution Agreement (the “Agreement”) = Este
Contrato de Distribuição (o “Contrato”)] Significados do Contexto /Origem
Reprodução +/- literal de expressões idiomáticas; [So Be It = Assim Seja]
Uso de trocadilhos, quiasmos e acrósticos. [POA = Power of Attorney]
DINÂMICA
Equivalência Natural mais Próxima
Da cultura / língua do receptor; [Confidentiality = Sigilo] Do contexto da mensagem;
[reasonable price = preço razoável70]
Do público da língua receptor. [Extension = Prorrogação de Prazo]
Tradução Natural / Gramática
Modificações na ordem das palavras; [reasonable price = preço razoável]
Utilização de verbos no lugar de substantivos; [transferir poderes = empower]
Substituição de substantivos por pronomes.
[The obligations herein = As obrigações neste contrato]
Tradução Natural / Léxico
Termos paralelos
[debit/credit = débito/crédito; buy/sale = compra/venda] Termos culturalmente diferentes e com funções
semelhantes
[paper = papel; documento; trabalho acadêmico] Termos que identificam diferenças culturais
[No common law o termo sentence é utilizado apenas para designar pena aplicada ao réu na área penal; no civil law, este termo pode ser utilizado para designar sentença (decisão tomada por juiz), tanto na área cível como a área criminal (CASTRO, 2013 p. 704) .
Fonte: Quadro-resumo desenvolvido pelo autor da pesquisa com base em Nida (1964).
Com se depreende do quadro acima, tanto a tradução orientada pela equivalência formal quanto a tradução orientada pela equivalência dinâmica guardam uma distância
96 considerável. No entanto, isso não impede que entre elas existam algumas áreas de conflito. Conforme Nida (1964), são em número de três as principais áreas de tensão: (1) equivalentes formais e funcionais; (2) equivalentes opcionais e obrigatórios e (3) a taxa de decodificação.
Novamente utilizaremos um quadro explicativo para melhor resumir a exposição de Nida em relação a essas três áreas de tensão.
Quadro 4 - Equivalência formal e dinâmica – áreas de tensão e seus conflitos.
ÁREAS DE TENSÃO DESCRIÇÃO DOS CONFLITOS
Equivalências formais e funcionais
Não há referencial na cultura do receptor que corresponda ao objeto ou evento no texto de partida.
[A unidade fraseológica no inglês law enforcement não encontra referencial no vernáculo. Por sugestão de Castro (2013, p. 606), devemos traduzi-la como “atividade policial”.
Equivalências opcionais e obrigatórias
Restrições quanto ao limite das expressões correspondentes poderem ser totalmente equivalentes.
[O termo termination pode significar extinção, rescisão ou resolução contratual. Porém, deve-se evitar a tradução literal equivalente “terminação”, por fugir ao contexto da terminologia jurídica especializada.]
Taxa de decodificação
Expansão da mensagem com a inclusão de elementos formais e semânticos em ritmo adequado.
[Reporting = Emissão de Relatórios]
Fonte: Quadro-resumo desenvolvido pelo autor da pesquisa com base em Nida (1964).
No que tange à primeira área de tensão, Nida nos expõe quatro maneiras de lidar com o conflito gerado por esta: a) Utilizar um termo para o equivalente formal presente no TF e descrever a sua função em uma nota de rodapé; b) Utilizar o equivalente funcional no TA, identificando o referente formal à margem do texto; c) Utilizar um termo por empréstimo, descrevendo-o através de uma classificação e d) Utilizar expressões descritivas, empregando apenas palavras da língua do receptor, assim evita-se o uso de um simples empréstimo e lança-se mão de um equivalente descritivo formal.
Quanto à segunda área de tensão, em vista da obrigatoriedade do uso de um determinado recurso na língua do receptor, o TRD não tem alternativa senão empregá-lo. E o fará utilizando-se das características formais da LA. Esta obrigatoriedade, segundo Nida (1964), implica em três graves problemáticas: (1) quando o TRD tem de indicar na LA algum termo inexistente na CA; (2) quando o TRD tem de especificar na LA algo que se apresenta
97 ambíguo, obscuro ou implícito na LF; (3) quando algo que está explícito na LF não pode, ou não deve ser expresso na LA.71
Conclui-se que as reais dificuldades para o TRD surgem quando este tem de utilizar equivalentes obrigatórios, já que, quando pode utilizar recursos opcionais, ele não estará compelido por regras, tendo liberdade de escolher entre alternativas que, em graus variados, refletem a proximidade com a LF. Mesmo assim, não pode o TRD desprezar os critérios que determinam a manipulação dos elementos opcionais na tradução. Esses critérios envolvem o que Nida (1964, p. 174) chamou de princípio da “carga de comunicação”72, porque que estes elementos opcionais são importantes na manutenção da adequada do “fluxo da mensagem”.
A terceira área de tensão diz respeito à taxa de decodificação, através da qual se discute a necessidade de se expandir a mensagem devido a lacunas de equivalência em detrimento da diversidade cultural. Nesse sentido deve-se buscar uma eficiência dos acréscimos ao TA, evitando-se que o receptor se depare com um texto acompanhado de longas as cansativas explicações. A carga de comunicação, que consiste de elementos formais e semânticos, expande a tradução a fim de torná-la relevante para um determinado contexto.