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Anthony Giddens og «fornyinga av sosialdemokratiet»

A entrevista com a representação da APF Lisboa (Anexo 4) realizou-se em grupo, com a participação de Laetitia, Inês, Sara, Sónia e Beatriz; destas, apenas Laetitia não tinha como formação de base a Psicologia, e sim a Literatura e, antes, Bioquímica. Sónia era, e é ainda, a pessoa que gere, no terreno, a equipa.

A APF surge enquanto resultado cumulativo de um grupo variado de pessoas que, desde 1967, procura introduzir na agenda a questão do planeamento familiar; é oficializada em Agosto de 1967 depois de vários contactos da International Planned

Parenthood Federation com o governo português de então. Ainda durante o Estado

Novo, e mediante oposição tanto do Governo como da Igreja Católica, a APF consegue trazer para a agenda e para as práticas médicas e sociais o conceito de planeamento familiar. Porém, de acordo com Sónia, este foco na questão estrita do planeamento familiar “tem-se vindo a desvanecer um bocadinho”, e o trabalho da delegação de Lisboa “tem a ver com grupos com vulnerabilidade” e conceptualmente abarca “cada vez mais a ideia da sexualidade como coisa mais holística, mais abrangente”.

A APF Lisboa intervém, então, particularmente junto de jovens em situações de vulnerabilidade. À data da entrevista, as entrevistadas destacaram o projecto TransPorta, um projecto focado em “melhorar a qualidade de vida de trabalhadoras sexuais, sobretudo trans* [Laetitia]”; o projecto Traços, “que tem que ver então com a parentalidade jovem [Inês]” e cuja definição de jovem se estende até aos 25 anos; e mais recentemente, um projecto na área do combate ao tráfico de seres humanos, o SOS

TSH, em colaboração com as forças policiais. O trabalho principal da organização é junto de jovens em bairros considerados problemáticos na zona de Lisboa, tentando abordar os problemas numa perspectiva de prevenção e de apoio, potenciando e capacitando os jovens para tomarem decisões críticas e informadas dentro das suas circunstâncias, ao invés de adoptar uma postura estritamente prescritiva.

Tiveram também já um papel mais importante do que actualmente na formação de professores de escolas, mediante financiamento externo à Associação em si. Para além disto, e ainda numa perspectiva de capacitação, procuram trabalhar com jovens que sirvam de mediadores junto da sua própria comunidade e que desenvolvam sensibilização junto dos seus pares.

Tal como no caso da rea, também a APF Lisboa tem um site e uma página no Facebook. Segundo Laetitia, tanto um como outro servem regularmente como “primeiro ponto de contacto com a delegação”, sendo que, em alguns casos, “o primeiro contacto foi através de chat de Facebook”. Porém, a página em si é apenas moderadamente empregue enquanto serviço de divulgação de notícias e de novas informações, apresentando os seus desafios específicos: “[…] se calhar é a aprendizagem que temos agora de fazer, que é não só como é que a informação nos chega, mas como é que ‘tamos a passar a informação dos nossos projectos para fora, porque é que eles não são conhecidos [Inês]”. E porque a partilha de informação através do Facebook necessita de vir enquadrada dentro de uma perspectiva pedagógica, uma das dificuldades sentidas está em perceber como introduzir essa pedagogia de uma forma útil, que não afaste os jovens: “[…] quando divulgo, quando faço o link para o artigo do jornal, fazer a ressalva de que determinada expressão, determinada frase, ou o título transmite uma ideia que não é correcta. Fazer o enquadramento daquela notícia [Laetitia]”.

Um perfil diferente deste têm os “estudantes do ensino superior… diria que perto de 50% são de estudantes de outros países, que estão cá a estudar e que contactam a APF muitas vezes por inglês, p’ra resolver questões sobre o acesso a contracepção oral, a serviços de saúde sexual para jovens e de estudantes de Portugal que nos contactam; contactam-nos mais por telefone se forem mais novos [Laetitia]”.

Porém, e no contexto desta organização, o que surge mais vezes destacado é o telemóvel – mais pela importância e variedade de funcionalidades dos SMS. Sónia explica esta questão recorrendo ao perfil sociodemográfico destes jovens: “Estes miúdos muitas vezes não têm acesso fácil a computadores, mas SMS têm”; de acordo com

Sónia, são uma plataforma sub-aproveitada em termos de iniciativas e de financiamento; reconhece também, da parte da própria APF Lisboa, um problema de falta de reflexão ou aplicação prática sobre como conseguir maximizar os seus potenciais.

As intervenções que procuram melhorar a vida dos jovens nem sempre tomam em conta as suas necessidades pessoais, subjectivas; Sónia considera que os “modelos de pobreza” conceptualizados por detrás de várias iniciativas pecam por não entender algumas das escolhas dos jovens. Uma dessas situações teve que ver com a primeira formação junto de pais e mães jovens (alguns com estatuto de sem-abrigo), e no contexto da qual lhes foi atribuída uma pequena bolsa monetária que, em vários casos, foi gasta não em materiais para os bebés mas na compra de telemóveis. Quando tentaram compreender essa escolha, as respostas saíram desse molde que vê a subsistência física como algo prioritário:

Sónia: A resposta foi: “Eu com a fome, lido bem”. No sentido: “já é uma velha amiga, eu sei como é que se lida com a fome, com não ter nada para comer, e adiar o pensamento de não ter nada para comer porque como no dia a seguir”. E eu acho que nisto está implícita uma outra resposta, que é assim: lidar com a fome até sabem, mas não sabem lidar depois com a exclusão social, não é? Como não ter acesso a ter redes, a ter suporte, a ter pessoas com quem comunicar e, e aqui o que me diziam sobre o telemóvel é: “É para me poderem ligar, é para eu ‘tar disponível para me poderem ligar”. E o que é engraçado neste rapaz, que é um rapaz que tem um contexto de facto com muita dificuldade, é que nem sequer tinha pessoas para lhe ligarem, não é? Ele usava exclusivamente o telefone para ouvir músicas, para pôr tipo mp3, para pôr lá bandas e andar com os fones a ouvir as músicas. É perceber que não há como censurar, é vital a necessidade que as pessoas têm de uma inclusão, de se sentirem parte de uma rede, de fazerem parte de qualquer coisa. A fome é de facto secundária no nosso contexto social. Okay, não se come num dia, mas no dia a seguir arranja-se uma distribuição de sopa, e não é prioritário.

Existe uma ligação entre o desejo de comunicar e práticas que revelam uma adaptação que explora ofertas comerciais existentes ou mesmo a criminalidade, e assim institui o lugar dos jovens no ciclo de consumo; comenta Laetitia: “Às vezes são eles que roubam os telemóveis de 200€ e portanto podem aceder ao Facebook… e sabemos que há um telefone novo nas mãos daquela pessoa porque, de repente, o Facebook é inundado de actualizações, pelo menos até o telefone ser bloqueado…”

Acrescenta Inês: “Eu lembro-me quando nós fizemos uma campanha no Super Bock Super Rock, que estavam lá a dar [cartões] Moche e uma jovem do Casal de Cambra, trouxe p’raí seis. Ela estava assegurada durante os próximos tempos…!”. Na impossibilidade de serem consumidores assíduos, as campanhas de angariação servem para obter acesso a cartões com algum saldo, de ‘usar e deitar fora’.

O uso dos telemóveis e das redes sociais através dos smartphones, como refere Laetitia, leva a repensar a ligação dos jovens com a literacia: “miúdos que têm muito baixa escolaridade, com muita dificuldade de se expressarem mesmo verbalmente, e por escrito então não se compara, efectivamente escrevem, e escrevem muito, em tudo o que tem a ver com mensagens e com actualizações de Facebook. E expressam-se imenso [Sónia]”, algo que acaba a ter consequências intrapsíquicas (“[…] o uso dessas redes serve para elevar a auto-estima, para se afirmarem enquanto pessoas que escrevem aforismos interessantes [Laetitia]”) ou para estabelecer dinâmicas de pares e de intimidade (de novo Laetitia: “[…] quando publicam que as pessoas que os criticam podem ir para este ou aquele sítio” e “também um bocadinho para tentar manter os engates […] porque às vezes é difícil o contacto pessoal durante o dia, ou porque o jovem é sem-abrigo, ou porque as pessoas com quem ele contacta estão a trabalhar”).

Os telemóveis actuais têm uma vertente fotográfica que constitui uma construção de memória partilhada e de sentidos construídos em comum com outras pessoas pela partilha dessas memórias (“[…] muitas vezes a única fotografia que eles têm dos seus bebés, fomos nós que a tirámos, e eles guardam isso porque é a única que têm de recordação [Sónia]”). Dentro deste registo, o valor de privacidade surge ressignificado: a privacidade totalmente controlada torna-se, na ausência dos pressupostos de classe média, sinónimo de isolamento, segregação – “havia pessoas que não valorizavam a privacidade enquanto forma de salvaguardar a reputação para o futuro, o imediato era muito mais importante [Laetitia]” – ainda que isto não exista fora de um contexto de falta de literacia digital, onde vários destes jovens nunca tinham reflectido, antes do trabalho de sensibilização feito pela APF, sobre potenciais riscos (e.g.: de empregabilidade futura) associados com a partilha de informação pessoal.

O discurso sobre privacidade geralmente apela ao medo do estranho como risco principal. Contudo, para alguns jovens, a percepção de ameaça vem das autoridades:

Laetitia: […] algumas destas pessoas, no contexto do seu dia-a-dia, são próximas de pessoas que são… suspeitas ou até condenadas por crimes. […] E portanto tentou-se sensibilizar também para a forma como um determinado comentário, ou foto, poderia ser uma coisa entre amigos, reforçar laços, mas poderia ser um pau de dois bicos, poderia ser apresentado em tribunal como uma evidência …

Uma das abordagens que tentaram, por SMS e Facebook, foi enviar ou postar perguntas às quais os jovens podiam responder, de forma a interagir e manter o vínculo com a organização. Segundo Sónia, o nível de interacção nunca foi muito alto, nem os jovens começavam, regra geral, a debater a questão colocada, mas eventualmente, no

Facebook, acabavam outras pessoas por se juntar e entrar na conversa. Passada uma semana sobre o envio da pergunta, era enviada a resposta tecnicamente correcta, e uma nova pergunta. Os jovens também fazem perguntas através de SMS, de diferentes tipos. As representantes da APF Lisboa são capazes de identificar padrões distintos de tópicos e assuntos consoante a plataforma. “Eu acho que as que vêm mais por SMS são de coisas práticas e concretas que têm que resolver… De toma da pílula, de ir ao centro de saúde arranjar preservativos, de pedir ajuda para uma amiga que tem que ir… [Sónia]”. Em algumas situações, justifica-se uma intervenção mais directa por parte da equipa, que também compreende que o uso de SMS pode ter que ver com dificuldades de expressão pessoal mas também com falta de recursos económicos: “O que nós também percebemos é que o contacto privilegiado que eles fazem connosco é também por via de SMS. O que nos dá pistas de que de facto o SMS é uma fonte muito importante de trabalhar [Sónia]”. Beatriz acrescenta: “Se nós percebermos que a pessoa ‘tá aflita, ou que precisa de alguma coisa mais urgente, se calhar o seguimento é mesmo por chamada […].Se nós percebemos que é uma sequência de uma conversa, […] ou algo que se enquadre [numa] combinação, então respondemos por SMS”.

Porém, e na medida em que o programa TransPorta acompanha jovens em contexto de trabalho sexual prostitutivo, as experiências relatadas face a este grupo são

sui generis e, ainda assim, caem dentro do que se entende por usos sexualizados dos

novos media. Boa parte das questões que existem são colocadas presencialmente, ao passo que via Facebook ou SMS surgem “questões sobre acesso a consultas ou como resolver determinada burocracia relacionada com a mudança de sexo e de nome por exemplo, no Registo Civil”. Para os menos jovens, de acordo com Laetitia, o telemóvel funciona também como “instrumento de trabalho fundamental até porque é o que permite em determinados momentos dar resposta rápida a uma solicitação” que, por exemplo, envolva mais do que uma trabalhadora do sexo. Outras trabalhadoras do sexo recorrem às novas tecnologias como forma de expandir a sua oferta de serviços e criar redes de contactos e de clientes (e.g.: “cobrar PayPal, por minutos na webcam”, “portais de anúncios com fotografias”, “fórum de discussão da qualidade dos serviços prestados […] onde estão trabalhadoras e estão clientes”).

As formações são outro momento em que os recursos online que existem são dados a conhecer aos jovens, ainda que com a percepção de que os diferentes graus de literacia implicam, na prática, maior ou menor possibilidade de mobilizarem a

informação que recebem. Em especial, segundo Sónia, os jovens pais adolescentes “têm de facto muito mais dificuldade […] até de perceber como é que se utiliza um computador para muitas coisas”, em comparação com outros jovens que se tornam portadores de novidades tecnológicas para a equipa.

Um último ponto de tensão tem que ver com o papel que a equipa ocupa nas redes sociais, e na complexa navegação que é necessária para separar o âmbito laboral do pessoal e íntimo quando as redes sociais são o campo de actuação mas também o sítio onde as pessoas convivem a título privado. Conseguir seguir alguns dos jovens já permitiu sinalizar situações potencialmente negativas, mas pode afectar a capacidade destas profissionais terem uma separação entre vida profissional e privada:

Inês: Para nós, para o nosso trabalho, muitas vezes também tem servido o Facebook como alertas de algumas pessoas que não ‘tão bem, inclusivamente até com algumas mensagens, de ideação suicida, por exemplo, que nós de repente alertamo-nos ‘O que é que se passa aqui?’, porque no Facebook estes jovens colocam muitas vezes… “Isto assim não dá… ‘tou farta da minha vida… adeus a todos”, coisas assim, pronto… Laetitia: Não diria que há um desequilíbrio, diria que isso é possível fazer de outras formas. Eu, com o meu perfil, não vou fazer “gosto” nas fotografias dos bebés, mas a APF, claro que faz o gosto nas fotografias deles, e faz comentários e, se possível, direcciona para [as] competências adquiridas no caso de ter sido uma pessoa que já esteve connosco a fazer os cursos […] mas de forma a empoderar a pessoa, […] a relembrá-la de que ela está capacitada para fazer o seu papel de mediadora comunitária.

Na medida em que esta equipa trabalha com jovens nas margens, e que não cumprem muitos dos pressupostos normativos do que constitui a adolescência e a passagem para a idade adulta, as experiências aqui relatadas são distantes das que geralmente se encontram descritas na bibliografia mais citada.

Infelizmente, a presente investigação não foi capaz de obviar este problema: apesar de a APF Lisboa ter divulgado o link do questionário usado para a angariação de respondentes a este estudo, nenhum dos acessos ao mesmo se traduziu em respostas completas passíveis de serem incluídas na análise (cf. Capítulo VI). É por esta razão que se considera de especial importância a entrevista de grupo: se a significação é um processo que depende da presença e da ausência, então os resultados da presente investigação precisam de ser lidos à luz da ausência deste tipo de experiências nos jovens entrevistados, e do que isso significa na investigação sobre jovens em Portugal.