Além das duas manifestações principais estudadas nesta pesquisa, existem outras manifestações que utilizam muros como pano de fundo para as suas intervenções artísticas, uma destas são os afrescos que são (de acordo com a concepção clássica) uma técnica de pintura que foi desenvolvida entre os artistas do chamado período florentino18, o Dicionário Aurélio a define da seguinte forma:
Técnica de pintura aplicada em paredes e tetos, que consiste em pintar sobre camada de revestimento recente, fresco, de nata de cal, gesso ou outro material apropriado ainda úmido, de modo que possibilite o embebimento da tinta. (DICIONARIO AURELIO, 1986, p.58)
Este termo afresco vem sendo empregado de forma equivocada em certas pinturas pós-renascentistas que são produzidas em paredes e tetos, com fins decorativos ou artísticos, ou seja, o que passa a ser considerado um afresco não é mais ligado à técnica utilizada, mas qualquer a pintura mural em geral.
17 Fonte folha de São Paulo - http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/921118-sancionada-lei-que-libera- grafite-e-proibe-spray-para-menor-de-18.shtml
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O Mural ou como os franceses chamam mur peint é outro tipo de intervenção colorida que se faz presente dentro da cidade, só que diferentemente ela é apenas uma intervenção e jamais uma transgressão, o mural é uma pintura em muro ou parede e tem por característica tanto ser interno ou externo quanto ser publico ou privado, o seu sentido é notoriamente político, educativo, decorativo, ele está a serviço de quem o contrata, de quem paga por ele, ou seja, ele possui a característica de ser encomendado pretendendo atingir a fins decorativos, ele tem a pretensão de ser monumental de ser uma obra de arte durável e apreciada por todos, diferente do graffiti e da pixação. Desta forma, a sua elaboração é muito mais detalhada, é feito uma espécie de estudo que tem em vista um processo de escolha do material a ser utilizado, de observação do local onde o artista irá analisar o meio ambiente ao redor do local e como este será afetado por alterações climáticas e pelo tempo, (o grande nome do muralismo no Brasil foi Di Cavalcanti que produziu diversos murais), assim o muralismo difere em muito das pichações e do graffiti. (RAMOS, 1994, GITAHY, 1999)
Indiferente, alheios, provocadores, questionadores dos momentos políticos/sociais e dos espaços da cidade, os grafites/pichações são manifestações de uma linguagem diferenciada da dos murais, que são trabalhos encomendados, pagos (na maioria das vezes) apresentando caráter persuasivo em muitas ocasiões. Por outro lado é uma certa qualidade decorativa. (RAMOS, 1994, p.55)
Como já dito - até de forma exaustiva – a pixação e o graffiti possuem a mesma raiz, ambos usam a cidade como suporte do mesmo modo como, basicamente, o material usado é o mesmo (giz, pincel, spray, tinta, etc.), os dois são formas de interferir no espaço urbano, eles subvertem valores, são espontâneos, gratuitos e efêmeros, ou seja, ambos são formas de transgressão. Os afrescos e os murais assim como a pichação e o graffiti são formas de intervenção na cidade, só que diferentemente estes dois últimos, além de intervir transgridem, são manifestações que não se prendem a determinada regra, não necessitam de autorização para se inserirem na paisagem urbana. Assim fica claro que nem toda intervenção é necessariamente uma transgressão, por exemplo, a construção de uma ponte, de um prédio, um outdoor ou um afresco são formas de intervenções urbanas, só que seguem normas, regras, leis, que foram instituídas pelas autoridades, pela sociedade, elas são intervenções autorizadas todos sabemos o seu sentido e o seu autor, já no graffiti e na pixação isto não ocorre não se pretende seguir regras, normas, leis, pelo contrario na essência destas manifestações se
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busca sobrepujar estas normas, leis e regras. Diferente das manifestações autorizadas elas não pretendem serem perpetuadas, ou seja, elas não se fixam, podem ser vistas hoje, mas talvez não amanhã, a efemeridade é uma característica delas.
Porém mesmo possuindo a mesma essência a pixação e o graffiti possuem diferenças, uma é que a pichação parte de um processo mais anárquico, a ênfase está em transgredir, e em alguns casos agredir; marcar presença, chamar atenção para si e consequentemente para o local que está servindo de suporte, estes locais aliás - no caso da pichação – são os mais variados como muros, paredes, postes, placas de transito, monumentos topos de prédios, viadutos, entre outros. Além destes espaços exteriores, a pichação também ocorre no interior de certos espaços como os pátios escolares e banheiros públicos, os principais alvos dos pichadores são os locais mais valorizados ou sacralizados pela sociedade como instituições publicas e privadas, espaços culturais, museus, escolas, igrejas, etc. No ato de pichar a preocupação estética vai estar ligada a letra, ela é feita sem uma forma previamente definida e aleatoriamente, permitindo que qualquer individuo possa atuar utilizando diversos meios e formas, e isto se dá devido ao fato de que os pichadores estão mais preocupados em “aparecer” e nem tanto com a estética das imagens. Tem-se na maioria dos casos as inscrições de nomes ou apelidos individuais, ou grupais, eles tomam posse do espaço para emergirem e nos mostrarem que existem, saindo assim do anonimato.
Já o graffiti não se mostra tão anárquico, como Maria Célia Ramos (1994) nos fala ele é mais próximo de um “protesto branco”, já que não é sua intenção agredir o urbano, e nem seus habitantes, ele busca chamar a atenção, para o descaso da cultura e para que os espaços sejam mais bem aproveitados, assim ele irá interagir com o urbano, mas sem agredi-lo, “restaurando-o”, os grafiteiros tem a preferência de que as intervenções sejam feitas em locais maltratados, como fachadas de casas abandonadas, terrenos baldios, percebe-se que diferente da pichação o seu suporte será outros como prédios em demolição, túneis, ou seja, espaços negligenciados, jamais eles visam teatros, igrejas, escolas recém restauradas. Ele enfatiza mais do que a pichação uma qualidade estética, desenvolve uma linguagem mais elaborada com preocupações artísticas. (RAMOS, 1994, GITAHY, 1999)
Os dois vão atuar no espaço urbano, e eles se valem de suportes muito parecidos (em alguns casos o mesmo) só que enquanto um enfoca mais a letra, o outro se volta
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para a imagem, enquanto um utiliza uma linguagem monocromática, o outro se vale de uma variedade de cores, numa manifestação esta apenas o ato em si sem tantas preocupações estéticas e com a forma ocorrendo de forma improvisada, outro prioriza a qualidade estética como a intervenção ira se relacionar com o meio que à cerca, existe uma espécie de planejamento, de reflexão acerca da obra a ser realizada. Interessante que existe uma espécie de processo evolutivo, como o graffiti surge a partir da pichação existe uma forma híbrida entre as duas manifestações são os chamados grapichos, ou como é mais conhecido entre os praticantes os bombers, que seria a fase intermediaria entre pichação e graffiti, são pichações mais coloridas, ou seja, são tags feitas com uma letra que possui um formato mais elaborado e colorido. Assim conforme afirma Pereira (2007): ... “enquanto o grafite advém das artes plásticas, a pichação é oriunda da escrita.
Dessa forma, a primeira valoriza a imagem e a segunda a palavra, a letra. Da interação entre essas duas intervenções surgiram até formas híbridas, chamadas por alguns de grapicho”. ( p. 228).
Dentro do que foi apresentado até o presente momento sobre graffiti e pichação, a sua historia, a sua definição, nos deteremos no próximo capitulo a observar como ocorre a pratica destas manifestações na cidade de João Pessoa como os atores envolvidos enxergam esta atividade e quais são os aspectos sociológicos que se apresentam nesta atividade na capital paraibana.
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CAPITULO 4 – O GRAFFITI E A PIXAÇÃO EM JOÃO PESSOA