A utilização da “História e Filosofia da Ciência” no Ensino de Ciências pode contribuir para a compreensão dos mecanismos pelos quais a ciência é elaborada, os quais consistem tanto de uma coerência interna dentro da própria “lógica” da ciência, como dos fatores externos que influenciam uma dada pesquisa. A análise da construção científica permite que o aluno compreenda: a constituição de uma comunidade científica, a relação entre ciência e sociedade, os obstáculos epistemológicos superados pelos cientistas. Além disso,
permite a compreensão de que existe um âmbito de questões que a ciência está capacitada a responder, mas mesmo assim, essas respostas não são definitivas e vai depender do paradigma e das necessidades sociais de cada época.
Hodson (1991) discutindo a inserção da Filosofia da Ciência no Currículo de Ciências ressalta que apesar das abordagens divergentes na Filosofia da Ciência, como por exemplo Popper e Kuhn, existe um consenso de pontos que devem ser abordados no Ensino de Ciências. Entre estes pontos destaca que: as observações são dependentes de nossa percepção; as observações são dependentes das teorias; as observações não promovem um acesso automático para um conhecimento fatual seguro; conceitos e teorias são produzidos por atos criativos de abstração e invenção; conhecimento científico tem status temporário; teorias rivais podem dar origem a observações diferentes, mesmo quando confrontadas com um mesmo fenômeno; professores de ciência projetam uma imagem distorcida da ciência. A ênfase no conceito de Teoria é importante no Ensino de Ciências, pois pode gerar confusão no entendimento do que é ciência. Esse termo pode ser usado no cotidiano com o sentido de especulação, mas no contexto científico adquire um sentido próprio. Na ciência, a teoria é um corpo de conhecimento sistematizado e que possui uma coerência interna. “Uma teoria científica não é um acréscimo interpretativo ao corpo da ciência, mas é o esqueleto desse corpo. Em outros termos, a Teoria condiciona tanto a observação dos fenômenos quanto o uso mesmo dos instrumentos de observação” (ABBAGNANO, 2000, p. 952-953). “Além da parte hipotética, uma Teoria Científica contém um aparato que permite sua verificação ou confirmação” (ABBAGNANO, 2000, p. 953).
Brush (1989) relata três aspectos que podem ser considerados na utilização da História da Ciência no Ensino de Ciências: (1) a inserção de questões filosóficas discutidas em seu contexto histórico pode evitar a tendência de julgar a ciência com base em sua aplicação prática; (2) a compreensão de que a pesquisa científica é feita tanto pela descoberta
de “fatos” da natureza, como pela construção criativa de teorias, sendo a função do ensino fazer um balanço entre esses dois pontos de vistas; e (3) o uso de textos históricos que evidenciem a participação das mulheres e das minorias na construção da ciência pode evitar a discriminação racial e de gênero. A questão que se coloca nesse último item é a da necessidade de acesso a fontes históricas que possam evidenciar a contribuição dos que foram “excluídos” da ampla divulgação da produção científica. Segundo Brush (1989), o uso da História da Ciência no ensino pode contribuir para mudar a percepção pública dos cientistas, incentivar a participação em decisões sobre o uso de tecnologias e promover uma apreciação da ciência como parte da cultura.
Bastos (1998) ressalta alguns argumentos que têm sido utilizados para defesa do uso da História e Filosofia da Ciência no Ensino de Ciências:
(a) evidenciar o caráter provisório dos conhecimentos científicos;
(b) preparar indivíduos adaptados a uma realidade em contínua transformação [...]; (c) evidenciar os processos básicos por meio dos quais os conhecimentos são produzidos e reproduzidos;
(d) evidenciar as relações mútuas que vinculam ciência, tecnologia e sociedade; (e) evidenciar as características fundamentais da atividade científica e, assim, promover a alfabetização científica dos indivíduos [...];
(f) preparar indivíduos para uma cidadania crítica e atuante [...];
(g) estimular o interesse dos alunos pelas disciplinas científicas, ao quebrar a monotonia dos programas de ensino estritamente direcionados para aspectos técnicos;
(h) oportunizar o contato dos alunos com indagações, evidências, argumentos, teorias e interpretações que estimulem a mudança conceitual ou a aquisição de concepções mais aceitáveis do ponto de vista científico;
(i) melhorar a aprendizagem de conceitos, hipóteses, teorias, modelos e leis propostos pela ciência [...];
(j) suscitar a admiração pelas realizações da ciência e incentivar o aluno a se tornar um futuro cientista;
(k) caracterizar a ciência como parte integrante da herança cultural das sociedades contemporâneas;
(l) promover a alfabetização cultural dos indivíduos [...] (BASTOS, 1998, p.37).
Apesar dos aspectos positivos destacados acima, Bastos (1998) considera que algumas questões devem ser observadas na inserção do uso da História da Ciência no Ensino de Ciências: a formação do professor, o acesso aos materiais históricos apropriados, a escassez de textos de História da Ciência que contemplem as necessidades da educação
básica, entre outros. Assinala também algumas objeções feitas por alguns autores em relação ao uso da História da Ciência no Ensino de ciências: falta de espaço no currículo para uma adequada apresentação da História da Ciência; os livros didáticos concentram sua atenção nos paradigmas vigentes; o Ensino de Ciências tende a distorcer a História da Ciência; os contextos em que os cientistas passados trabalhavam são de difícil compreensão para alunos de hoje; o uso de relatos históricos é fator de confusão e não de esclarecimento, pois expõe o aluno a idéias, problemas, conceitos, teorias e métodos que já foram descartados e substituídos por outros; o uso de relatos históricos é fator de desmotivação, pois os alunos estão interessados em conhecimentos atualizados. Analisando os aspectos positivos e negativos considerados no uso da História da Ciência no Ensino de Ciências e considerando os trabalhos publicados que investigam esse uso, Bastos (1998, p.56) conclui que “os resultados obtidos em tais investigações sugerem que as experiências pedagógicas envolvendo conteúdos de História da Ciência foram geralmente positivas”.
A inserção da “História e Filosofia da Ciência” depende sobretudo da formação do professor de Ciência e da produção de materiais de apoio apropriados, tanto do ponto de vista pedagógico, quanto do ponto de vista histórico. Nesse contexto, a presente dissertação busca analisar o que os professores de Biologia compreendem da História da Biologia em relação ao tema evolução, o que é fundamental para delinear caminhos para a utilização da História da Biologia na formação destes.