Para entendermos o método adotado neste estudo, é importante reaver sua origem e fonte de conhecimento. Assim, iniciamos com a história da fotografia e sua característica documental.
O primeiro uso dado às imagens é o de ilustrar. A pintura, a fotografia, o cinema e o vídeo começaram como registro e ilustração e, somente aos poucos, construíram caminhos para elaboração de suas sintaxes visuais específicas, ou seja, foram caracterizadas menos pelos seus aspectos informativos e mais pelo seu poder de comoção, mobilizando sensações e sentimentos e motivando ações (LEMME, 2004).
Dentre os meios de registro de imagens, a fotografia destaca-se por ter possibilitado ao homem um conhecimento mais preciso e amplo de várias realidades, um novo conhecimento do mundo em detalhes, o que não lhe era permitido pela linguagem verbal, escrita ou pictórica.
De acordo com Kossoy (2001, p.25) “É a fotografia um intrigante documento visual cujo conteúdo é a um só tempo revelador de informações e detonador de emoções”. Antes do século XX, as imagens sobre pobreza e trabalho humano eram restritas a fotografias feitas em estúdios. Somente em meados deste século, as imagens constituíram-se fontes documentais e objetos de pesquisa no campo científico, pela denominada Revolução Documental.
A fotografia documental traduz um instante repleto de intencionalidades, é um meio de expressão, informação e mesmo de representações. A imagem/documento traz consigo a visão de mundo do autor e pode agregar-se a materiais como jornais, diários e outros documentos tangíveis para a leitura, entendimento e interpretação de um dado momento (KOSSOY, 2001).
Na América do Norte, os fotógrafos Jacob Riis e Lewis Hine revelaram uma nova face da fotografia documental ao exibirem fortes imagens sobre as consequências da ação humana no desordenado crescimento urbano e industrial. Foram os pioneiros a colocar os seus trabalhos explicitamente a serviço da mudança social (PROJECT, 2005). Iniciou-se o uso da fotografia documental para mudança social.
No Brasil, destacamos o fotógrafo Sebastião Salgado, que se dedicou a fazer críticas sobre a vida das pessoas excluídas através da fotografia documental. Segundo a UNICEF (2009), Salgado criou um conjunto de imagens que testemunham a dignidade fundamental de toda a humanidade ao mesmo tempo em que protestam contra a violação dessa dignidade por meio da guerra, pobreza e outras injustiças. Entre 1986 e 1992, ele concentrou-se na fotodocumentação do trabalho manual em todo o mundo, que resultou na publicação do seu primeiro livro, “Trabalhadores”, aclamado mundialmente.
No efervecer da fotodocumentação para crítica social, os pesquisadores Wang e Buris criaram um método denominado Photo Novella, no ano de 1992. Foram os primeiros pesquisadores a articular Fotografia Documental aos pressupostos teóricos de Paulo Freire. O estudo foi realizado na Província de Yunnan, na China, com mulheres rurais em situação de opressão sócio-cultural. Os pesquisadores capacitaram mulheres rurais para registrar e refletir sobre suas vidas e necessidades de saúde, aumentando o conhecimento coletivo sobre saúde da mulher. Ao final, informaram e sensibilizaram gestores políticos e sociedade em geral sobre questões de preocupações e orgulho da comunidade local (WANG, BURRIS; PING, 1996).
Este estudo deu início ao atual método photovoice de pesquisa e mudança social, fundamentado em três bases teóricas: Educação Crítica de Paulo Freire, Teoria Feminista de Pesquisa, e Fotografia Documental (WANG; BURRIS, 2007).
De acordo com Wang e Redwood-Jones (2001) photovoice é uma estratégia participativa de promoção da saúde no qual as pessoas usam câmeras para documentar as suas realidades de saúde e trabalho. À medida que os participantes envolvem–se em um processo grupal de reflexão crítica, eles podem advogar mudanças em suas comunidades, utilizando o seu poder de imagens e histórias para se comunicar com os detentores das decisões políticos.
Photovoice é utilizado em vários cenários para: mobilizar pessoas para documentar pontos positivos e negativos de sua comunidade; identificar problemas de saúde de uma área a partir da própria visão de seus moradores; promover o diálogo sobre questões importantes de saúde da comunidade através de grupo de discussão sobre fotografias; fornecer dados qualitativos para o trabalho de saúde; engajar a comunidade como parceira da saúde; advogar para questões de saúde
com o intuito de influenciar políticas locais de mudança; e educar a comunidade em geral na Promoção da Saúde (PIES; PARTHASARATHY, 2008).
Neste estudo, optamos por traduzir o termo photovoice (idioma inglês) para o idioma português “fotovoz”, com o objetivo de tornar a palavra mais compreensível para as mais variadas classes sociais, econômicas e culturais que participaram e/ou conheceram o estudo.
A técnica “fotovoz” inclui a discussão em grandes e pequenos grupos de pessoas sobre questões relevantes para a comunidade, promovendo o diálogo crítico e co-produzindo conhecimento. De forma sintética, apresentamos abaixo as etapas do percurso metodológico para pesquisadores que optaram por este método (WANG; BURIS, 2007; WANG et al., 1998):
Antes de aplicar o método com grupos de participantes, o pesquisador deve:
1. Contextualizar o problema. 2. Definir metas e objetivos amplos. 3. Selecionar o cenário da pesquisa. 4. Definir a metodologia a ser utilizada. 5. Assegurar o financiamento do Projeto. 6. Treinar/capacitar o(s) facilitador(es). 7. Selecionar e recrutar os participantes.
Após a seleção dos participantes e formação de grandes ou pequenos grupos:
1. Implementar o método “fotovoz” com grupos e analisar os resultados. 2. Avaliar o processo.
3. Divulgar os resultados.
4. Sensibilizar gestores, mídia, pesquisadores, líderes comunitários e afins para mudança social.
5. Avaliar o processo de forma geral.
A relação deste processo com os pressupostos teóricos de Freire apresenta-se na articulação da fotodocumentação com a formação de consciência crítica para mudança social. “Fotovoz” torna-se um meio para a reflexão de uma
comunidade sobre si, revelando, através da imagem, algumas desigualdades políticas e sociais que vivem as pessoas (WANG; BURIS, 2007).
Autores afirmam que fotografias utilizadas no “fotovoz” são similares aos desenhos utilizados por Freire em seus Círculos de Cultura, pois identificam questões significativas para uma comunidade, propiciam a reflexão crítica sobre os fatores determinantes, e identificam possíveis soluções (CARLSON, ENGEBRETSON; CHAMBERLAIN, 2006).
O processo de Educação Crítica envolve três objetivos principais: (a) envolver as pessoas em um processo ativo de escuta e diálogo, (b) criar um ambiente seguro para introspecção e reflexão crítica, e (c) conduzir as pessoas para a ação (FREIRE, 1992, 1996). Observamos que os autores Wang e Buris (2007) incluíram um quarto objetivo final: (d) informar setores mais poderosos da sociedade para facilitar mudanças nas comunidades.