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Anstalter, sanatorier og kursteder

5.1 Klimatoterapi og badekurer fra 1890 til 1910

5.1.2 Anstalter, sanatorier og kursteder

Como veremos a seguir, as crianças que estudam na escola Chuy têm uma experiência singular em relação à escola. Na sala de aula observada, há duas meninas que estudam pela manhã em uma escola convencional e, à tarde, na diferenciada, e dois meninos que estudam pela manhã e à tarde na escola diferenciada. Os demais alunos estudam somente num turno na Escola Diferenciada Chuy. No ano de 2005, a maioria estudava nos dois turnos em escolas diferentes (convencional e indígena). Os motivos já foram explicitados no capítulo imediatamente anterior. A turma na qual realizei mais densamente as observações (2ª série) apresentava características heterogêneas, tanto em relação à experiência dos alunos com a escola (viviam a maior parte do seu tempo nesse espaço), como no que diz respeito aos processos identificatórios, pois existem aqueles que se identificam como índios, e outros que não; quanto à religiosidade, uns se apresentam como católicos e outros como evangélicos. Além disso, são crianças que dispõem de poucos recursos financeiros, todas moram nas proximidades da escola e seus pais predominantemente se identificam como índios Pitaguary, porém, há crianças que convivem em famílias com opções diferentes quanto à identificação; por exemplo, às vezes o pai se identifica como índio, mas a mãe não.

Considerei relevante destacar essa questão da matrícula dupla, pois faz parte do cotidiano e, portanto, implica a produção de subjetividade dessas crianças. É importante fazer uma discussão sobre o que as crianças acham dessa experiência, pois podem comparar as duas realidades, ou seja, considerar alguns processos distintos de escolarização. As falas que vão ser explicitadas trazem crianças que expressam o interesse e as vantagens de estudar em duas escolas, e outras que vão afirmar que essa experiência foi interessante, porém cansativa. Além desses elementos, as falas das crianças também tratam sobre os aspectos lúdicos e pedagógicos dessas escolas.

As crianças que apresentam interesse, que dizem gostar de estudar em duas escolas, os motivos apresentados por elas estavam atrelados à dimensão quantitativa. Algumas disseram que gostavam de estudar em duas escolas porque aprendiam bem mais, dando ênfase à questão do tempo que se dedicavam à escola – o que possibilitaria maior aprendizagem; mas, nesse aspecto quantitativo, deve-se considerar também a

dimensão qualitativa do processo educativo, uma vez que elas relatam que aprendiam e gostavam de aprender:

“É bom estudar em duas escolas, pois a gente aprende mais (referindo-se ao ano letivo de 2005). Eu aprendi a dançar Toré lá (Escola indígena Itaara – na Monguba). Ia para os cantos (eventos públicos) dançar. Gosto (de estudar nos turnos da manhã e tarde), porque é muito ruim ficar em casa sem fazer nada”. (ROBERTO51).

“Eu venho porque eu gosto de aprender”. (MATEUS52).

“Eu gosto de estudar em duas escolas porque eu aprendo mais” (Bárbara e Aline). A experiência da primeira criança, Roberto, é interessante, porque, na 1ª série, ele estudou ao mesmo tempo na escola convencional e na indígena, e na 2ª série ele freqüentou só a segunda, mas estuda nos dois turnos (manhã e tarde), justificando que quer aprender mais. Acredito que essas falas estejam atreladas ao discurso adulto, no que concerne aos processos de escolarização, em que a criança tem que estudar muito, tem que ir para a escola aprender a ler e escrever – o que, geralmente, vem acompanhado de uma frase bem famosa – “para você poder ser alguém na vida”. É a esperança na educação, na intenção de dias melhores. Isso faz parte da vida dessas crianças de várias formas, visto que esse discurso se faz presente em vários espaços de informação, como na própria escola, na família, na mídia, especialmente na televisão. É uma constante racionalização dos saberes por meio da escola. Então, a criança passa a assumir em seus discursos a idéia de que tem que estudar, e que a escola serve para aprender a ler, a escrever, a “ser gente”. Recordo-me de uma criança que disse: “A escola ensina coisa de índio e a ser gente”. (DAMIÃO). Percebo a importância atribuída à instituição escolar nesse grupo; é como se ela fosse a esperança de aquisição de conhecimentos, de formação.

A escola, no entanto, não significa para eles apenas um lugar de aprendizagem dos saberes disciplinares, tal como é expresso pelos adultos, visto que outros aspectos chamam a atenção dessas crianças. A dimensão lúdica da brincadeira, das festas, é algo que faz parte do discurso da criança. Então, esses aspectos são também citados como importantes. No momento em que se falava das duas experiências escolares, o aspecto valorativo era sempre manifestado pelas crianças, o que me permitiu desenvolver

51 Em 2005, ele estudava na escola indígena e na convencional. Em 2006, continuou estudando nos dois

turnos, mas na mesma escola – Chuy. Freqüenta a mesma série pela manhã e tarde.

relações comparativas entre as duas escolas, no que concerne aos aspectos lúdicos e pedagógicos.

“Gostava de brincar, fazer o dever, prova, brincar de bila e de bola”. (ROBERTO – falando do ano anterior em que estudava na Escola indígena Itaara).

“Gosto de fazer dever, aprender a ler e brincar de bola. Eu gosto. É bom. A gente aprende a ler, a desenhar, a dançar Toré”. (MATEUS).

“Eu gosto dessa escola porque aprendi a ler, a escrever e tem festinhas de aniversário, das crianças e de Natal. A gente ganha presente. Na outra escola (convencional) não tinha e a tia era chata”. (TASSILA).

“Aqui é bom. É legal porque quando é o aniversário da gente os professores fazem festinha. Eu queria ir para outra escola, mas a minha mãe me colocou aqui porque na outra escola eu não aprendia nada. Eu gostei de estudar aqui porque eu aprendi a escrever”. (RAFAELA).

“O conteúdo é o mesmo. A diferença é que lá não tem Toré, nem aula de artesanato, não tem que aprender a tocar maraca, mas lá não tem festinha de aniversário, e a tia deixa a gente ficar de castigo se não fizer o dever de casa, e aqui não, se a gente não fizer o dever em casa, a gente faz na sala”. (BÁRBARA E ALINE – no ano de 2006 estudavam na escola indígena e na convencional).

“Essa escola é boa. Eu gosto dela”. (LEANDRO).

É bastante representativa essa questão das festinhas e dos presentes que eles ganham em datas comemorativas, pois falam com muita alegria dessas ocasiões, o que acredito estar relacionado às poucas oportunidades que essas crianças têm de viver isso em suas casas, uma vez que as famílias dispõem de poucos recursos financeiros. Então, poder ganhar presentes e festinhas na escola parece significar muito para estes meninos e meninas. A professora dessa turma sempre faz as festinhas de aniversário de seus alunos e diz que fica muito feliz com a alegria das crianças. Esta é uma ação própria dela, pois nem todos os professores fazem festinhas de aniversário. A mesma professora ensina também à noite numa turma de Educação de Jovens e Adultos e age da mesma maneira nas datas comemorativas e aniversários.

É importante perceber que os elementos característicos de um ensino diferenciado, veiculados na escola Chuy, foram citados pelos alunos no momento de

compararem o ensino das duas escolas, no sentido do que as diferenciavam; o que nos diz que esse ensino faz parte do cotidiano deles de um modo significativo; portanto, faz parte de sua produção de subjetividades.

As crianças que até 2006 ainda estudavam em duas escolas disseram que, se tivessem de escolher uma das duas, escolheriam estudar na Chuy. Creio que isso tem relação com algumas ações distintas que a “escola diferenciada” desenvolvia, no sentido de não agir da mesma maneira que a escola convencional (como a festinha particular de cada aniversariante, as aulas de Arte e Cultura). Além disso, demonstraram satisfação com as aprendizagens adquiridas, especialmente em relação ao processo de alfabetização, uma vez que alguns alunos enfatizaram a oportunidade que tiveram de aprender a ler e escrever nesta escola. Nessa fase escolar da criança, o grande êxito, esperado pelos pais, professores e pelas próprias crianças, é aprender a ler e escrever. Então, há vários fatores interligados que contribuem para que as crianças se interessem por essa escola.

Ainda sobre esse assunto, um dado que me chamou a atenção foi o fato de que a maior parte das crianças não reclamava por estudar em dois turnos; só falavam das vantagens. Até que, nesse mesmo contexto, duas crianças afirmaram sentirem-se cansadas com essa rotina:

“Eu pedi minha mãe pra estudar em duas escolas porque antes eu queria estudar em duas escolas, porque eu achava legal; os meus colegas estudavam e eu queria também. Eu achava legal, mas ficava cansada” (ISABEL).

“É muito cansativo ir de manhã e à tarde para a escola. Eu ficava com dor de cabeça” (TASSILA).

Percebe-se que as crianças expressam a sua relação com a escola apresentando vários sentidos, pois não existe um só motivo para o seu interesse. Esse espaço é significado pela criança de múltiplas formas.

De acordo com o que foi abordado, como essas crianças lidam com os discursos sobre a temática da identidade Pitaguary? Como vivem “o jogo” da afirmação e negação dessa identidade? Perceber esse jogo desde a da escola, local onde são ensinados os saberes concernentes a essa identidade, é importante para que se possa fazer outras relações, visto que a criança vive uma multiplicidade de experiências. O que caracteriza o seu cotidiano é a heterogeneidade das práticas de socialização e a interação com

diversos discursos enunciados nos vários espaços de vivência. E, como ensina Deleuze, ao refletir sobre a subjetividade e o devir-criança, “o trajeto se confunde não só com a subjetividade dos que percorrem um meio mas com a subjetividade do próprio meio, uma vez que este se reflete naqueles que o percorrem”. (1997, p.73).

Considerando o interesse nos discursos das crianças sobre a escola e a questão indígena, uma vez que esse assunto é dinamizado na sala de aula e bastante explorado pelos adultos, quando estes se referem à escola e às crianças, qual o sentido dos discursos sobre uma identidade Pitaguary para essas crianças? Como lidam elas com essa realidade?

Na intenção de facilitar o trabalho diante do material coletado, optei por organizar as informações por temáticas significativas do que estou querendo apresentar e compreender.