Depois de participar dia 21/03 das preparações da Marcha das Margaridas no Maranhão, Carmem está nesta quinta-feira (22/03) participando de reunião com as demais centrais, em Brasília, para definir como serão as mobilizações para manutenção do veto do presidente Lula à emenda 3. Depois, a tarefa será dar corpo às ações já definidas pela Executiva Nacional da CUT. (Fonte: Agência CUT)
Em Igarapé-Miri por ocasião do Seminário do MODERT, Carmem Helena concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Miriense
JM – Como é essa história da Presidente da CUT nacional?
Carmem – É uma história de trabalhadoras e trabalhadores. Quero dizer que esses dias foram muito fortes para mim, porque eu voltei ao tempo e lembro da época, 88, 89, quando eu me engajei no movimento. Em 89 na febre de querer eleger Lula naquela época, quando nós levamos muita cacetada do Collor de Melo, e a gente vai construindo pontes, construindo processos de transformação. Eu acho que enquanto liderança política que sou hoje, essa construção é coletiva, eu acredito em processos coletivos, eu apenas sou porta-voz de todo esse sentimento e fortalecimento da organização dos trabalhadores e das trabalhadoras, com o desejo de querer mudar o mundo, o mundo de injustiças, de desigualdades contra as mulheres, o mundo de um modelo de desenvolvimento que privilegia alguns e deixa outros de fora, então essa é a grande causa nossa, e nessa causa eu me vesti dele e bebi dela todos esses anos da minha vida e hoje o fato de ser presidente da CUT tem um significado político muito grande pra minha vida pessoal, não posso deixar de falar sobre isso, mas o significado político do caminho que eu escolhi da defesa das mulheres e da luta por democracia, da luta por oportunidade iguais entre homens e mulheres, tanto é que a CUT nunca foi presidida por uma mulher em nenhum dia da história dessa Central, que é a maior Central da América Latina, é a quinta Central maior do mundo, a maior Central do Brasil, nunca passou um dia dirigida por uma mulher e na sua história a CUT também só foi dirigida por homens do Sudeste do Brasil. É a primeira vez que a Amazônia ocupa um lugar importantes, mas para mim isso é a forma real de todo o povo que bebe açaí.
JM – Fale sobre as mulheres trabalhadoras de Igarapé-Miri e da região?
Camem – eu hoje me sinto muito feliz porque além de ser vice-presidente da maior Central Sindical do Brasil, eu sou a coordenadora da Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Esse é o meu lugar, agora as mulheres trabalhadoras rurais do Brasil a [da] década de 90 conseguiram botar o pé na estrada e transformar muita coisa da relação social, de ter políticas públicas. Nós tivemos na última década, agora no início de 2000, grandes conquistas, mas essas conquistas não foram dadas pra nós, foi graças a nossa capacidade de organização social, estadual e nacional. Minha experiência de vida dialoga com isso, desde que eu fui presidente do meu sindicato em Igarapé-Miri, em 92, presidente em exercício, depois que assumi a luta a nível do Estado do Pará, e hoje coordeno uma Confederação Nacional, onde esse tema é prioridade na nossa vida, e eu acho que os trabalhadores rurais do Brasil deram um salto de qualidade na sua organização e consequentemente quando a gente tem uma organização forte nós temos conquistas importantes, como por exemplo, Pronaf, como por exemplo articulação conjunta, obrigatoriedade das terras serem em nome de homens e mulheres, porém isso só não basta, nós estamos organizando para os dias 21 e 22 de agosto, a maior mobilização da história do Brasil que as trabalhadoras rurais vão fazer, quer será a terceira edição da Marcha das Margaridas, em Brasília.
JM – Como você vê a desigualdade no Brasil?
Camem – A desigualdade no nosso país, infelizmente ainda é uma realidade. As mulheres trabalham em cargos iguais e ganham menos, isso são dados estatísticos, não sou eu que estou inventando.
JM – Fale da violência no Brasil.
Camem – A violência no Brasil contra as mulheres é algo verdadeiro, infelizmente, por mais que nós tenhamos avançado com leis importantes como a lei Maria da Penha, por exemplo, no entanto os dados estatísticos são graves, enquanto que mulheres ainda apanham todos os dias, enquanto que a violência é uma coisa muito presente.
JM – Qual será o próximo patamar desejado?
Camem – eu sou um ser humano que nunca almejei chegar a lugar nenhum de forma proposital. Estar na CUT, estar na CONTAG, representar os trabalhadores do Brasil, tem sido talvez uma característica de ser uma mulher que sempre enfrentou os problemas de forma com muita coragem, eu sou mãe de quatro filhos, e esse lugar nunca foi meu, e não é meu, é de representação política nesse momento não é eterno, mas eu sinto que a gente tem muita coisa pra fazer ainda, meu lugar ainda é mobilizando o povo pelo menos até cumprir o meu mandato na CONTAG, onde ainda estou chegando ao meio do mandato, na CUT também estou com um ano como vice-presidente, então eu acho que tenho uma missão política de continuar organizando o povo pra arrancar as conquistas inclusive seja no governo que for. O governo passa e a organização dos trabalhadores tem que continuar e das trabalhadores também.
JM – Fale sobre os seus sonhos.
Camem – eu estou querendo muito estudar. Fiquei muito feliz de passar na universidade, fiquei 17 anos sem estudar na escola formal, mas eu quero estudar, eu quero ser uma cientista política, eu queria muito fazer direito, mas acabei naquele momento por não ter mais vaga pra fazer direito, eu quero estudar ciências políticas e depois eu quero ser advogada, não sei se vou conseguir esse sonho porque nós também somos pressionados pelo tempo, o lugar de ser mãe, o lugar de ser dirigente sindical, o lugar de ser lutadora, não ter hora pra nada, de estar a serviço da luta do povo, é um lugar muito difícil, mas são os meus sonhos. Na vida política alguns até me provocam, no meu município, na minha região, eu acho que é uma coisa que o povo irá decidir no futuro.
Camem – Eu sou igarapemiriense de corpo e alma, amo essa cidade. Eu sinto saudade do açaí como eu sinto saudades dos meus filhos, eu amo essa cidade. Eu nasci em Moju, mas me criei fazendo relações com Igarapé-Miri, morando em Moju, a gente remava pelo furo aqui (aponta lá para o Canal), passando ali pelo igarapé açu, duas horas de tempo da nossa roça pra cá, porém todas as nossas relações eram com Igarapé-Miri, e depois que viemos pra cá, pra Igarapé-Miri, eu me sinto igarapemiriense.
JM – O que seria pra você um título oficial de cidadão miriense?
Camem – Talvez seja o reconhecimento de tudo o que temos feito em Igarapé. A articulação que nós temos forte aqui, a escola familiar rural que nós temos aqui que era a realização de um sonho nosso do sindicato, e só foi possível quando eu estava na CUT, articulando com nossos irmãos da Itália, e tem muitos desafios pela frente para manter a escola e tenho um compromisso com isso, a luta que temos feito por crédito e a representação nacional é decisiva para que as coisas cheguem no município, a luta que nós fazemos, porque no mundo nós não somos uma ilha, tudo funciona de forma bastante articulada do local ao nacional, e acho que nossa articulação tem sido muito grandiosa e eu tenho certeza que os meus irmãos do município e da região reconhecem isso, e eu não estou falando só da Casa Familiar Rural de Igarapé-Miri, estou falando também da Casa Familiar Rural de Baião e de Mocajuba, que foi numa ação de solidariedade com nossos companheiros da Central Sindical da Itália, estou falando de todas essas lutas que são conjuntas de toda região, a luta por estrada, eu me sinto muito com o pé aqui, eu faço questão de não tirar o pé daqui, e eu tenho o compromisso de vir aqui uma vez por mês no Estado e vir na região, e faço contato cotidiano com as lideranças daqui.
JM – Roberto Pina governará Igarapé-Miri?
Anexo 12 – Conselho de Alimentação Escolar denuncia administração municipal, JM, 2ª fev. 2006, p. 9.
Anexo 13 – Câmara Municipal de Igarapé-Miri: encerramento do 1º período, JM, 05/07/2006, p. 9.