Nesse capítulo Espinosa indica que não conhecemos as coisas sempre da mesma maneira. Mais que isso, fornece exemplos para mos- trar que não há uma única, mas várias maneiras de conhecer. Pode ser um hábito pensarmos que sempre se conhece da mesma forma, e que as pessoas conhecem mais ou menos, melhor ou pior, mas sempre do mes- mo jeito.
Observem-se, entretanto, os exemplos que Espinosa fornece no tex- to. Podemos dizer que uma pessoa qualquer resolve um problema como o da terceira proporcional (a/b = c/X, qual o valor de X?) toda vez que ela é capaz de apontar o valor correto de X. Assim, se nosso exemplo fosse 4/2 = 6/X, qual o valor de X? Resolveria o problema todo aquele que respon- desse X = 3. Diríamos então que esse alguém conhece a solução.
Entretanto, é perfeitamente possível dar a resposta correta de várias formas bem diferentes. Digamos que alguém, tendo lido a nota 6 da nossa tradução acreditasse nisso e, ao ser perguntado pelo valor de X respon- desse: “3”. Esse alguém saberia a resposta por ouvir dizer (por acreditar no que eu disse). De fato, conhecemos muitas coisas apenas por ouvir dizer, o que não precisa constituir-se em algum problema. Por exemplo, sabemos a data de nosso nascimento (uma vez que não poderíamos nos
lembrar disso) por ouvir dizer. A rigor, tudo aquilo que lemos (quando acreditamos apenas por estar escrito) conhecemos por ouvir dizer, assim como podemos conhecer por ouvir dizer qual é o temperamento ou o
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197gosto de pessoas que ainda não conhecemos, ou podemos conhecer por ouvir dizer como são certos lugares que não visitamos de fato e assim por diante. O importante do conhecimento por ouvir dizer consiste em que, nele, conhecemos por testemunho indireto, alguém ou algo que não somos nós ou não está sob nossa responsabilidade nos indicou algo em que acreditamos. Conhecemos por ouvir dizer lendas ou coisas que fo- ram de verdade, não é porque alguém ouviu dizer a solução da terceira proporcional era 3 que sua resposta foi errada.
A dificuldade toda está em que alguém que conhece assim não é responsável por seu conhecimento e não sabe assegurar necessariamente que sabe a verdade, ainda que muita gente diga que é assim e não dife- rente.
A mesma coisa acontece com a experiência vaga. Alguém pode saber que a água do mar é salgada por ouvir dizer (sem jamais ter visto o mar) ou por ter experimentado o gosto da água do mar algumas vezes. Todavia, nem por isso será capaz de provar que a água do mar sempre é salgada (embora isso possa ser verdade). A experiência vaga nunca é suficiente para provar que as coisas que experimentamos são assim sempre, quando fazemos isso, na verdade realizamos aquilo que se cha- ma de experimento. O experimento funciona de uma forma tal que ele mostra a necessidade do que está sendo conhecido, portanto, é bem raro podemos fazer verdadeiros experimentos, embora possamos ter muitas experiências.
Agora, essas duas maneiras de conhecer uma coisa não garantem que eu estou conhecendo a verdade, embora eu possa mesmo conhecer a verdade por meio delas. Nesses termos não posso justificar para outro alguém porque julgo as coisas da forma que as julgo, portanto, não posso exigir de ninguém que aceite o que eu estou dizendo com mais segu- rança do aquela que eu mesmo posso ter. Esses tipos de julgamentos os fazemos dizendo “eu acho que ...” e chamamos todos eles de opiniões. A opinião nesse sentido é uma maneira de conhecer.
Depois Espinosa apresenta a convicção verdadeira. Ela já vem do- tada de uma justificativa. Dizemos: “a resposta para o exemplo da tercei-
espinosA: ConsiderAçõessobreotrAtAdobreve
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A n t o l o g iA d e t e x t o s F il o s ó F ic o sSe cr eta ria de Es ta do d a Ed uc aç ão do P ar an á 198
ra proporcional é 3 porque X = 6*2/4”, fazendo um cálculo. As operações de um cálculo não podem variar, por força disso seu resultado também não varia. O cálculo e a razão ligam as coisas de uma forma tal que elas não podem mais variar. Isso permite a quem conhece por convicção ver- dadeira mostrar para alguém que não conhece assim que não poderia ser diferente. Nesse caso não temos mais uma opinião e conhecemos a mesma
coisa, mas agora de uma forma diferente.
Todavia, o que é típico da filosofia de Espinosa e bem mais sur- preendente do que vimos até aqui, é que existe ainda um terceiro saber (o conhecimento intelectual) que é visão imediata da coisa como ela é. Não precisamos supor que isso acontece ou deve acontecer sempre. Por exem- plo, seria difícil mostrar como seríamos capazes de conhecer intelectual- mente a data de nosso nascimento (teríamos que conhecer intelectualmen- te, ponto a ponto, todos os eventos que culminaram no nosso nascimento naquele dia e não em outro qualquer). Não é esse o ponto de Espinosa no texto: basta que tenhamos algum conhecimento intelectual para sabermos o que ele significa. Digamos que alguém propõe um problema matemá- tico muito simples como por exemplo “2/1 = 4/X, qual o valor de X?” e alguém sem fazer nenhuma conta saiba que X = 2 – entenda-se bem: não
porque sabe fazer contas fáceis rapidamente, mas porque reconhece de imediato na relação 2/1 a ideia de que “o de cima é o dobro do de baixo”, ou melhor, porque vê a proporção concretamente em seu intelecto.
O capítulo cumpre sua tarefa se pudermos justificar, a partir de nossas considerações que se as coisas forem assim então conhecer por opinião é algo diferente de conhecer por convicção verdadeira, que por sua vez é diferente de saber. Além disso, que é possível pessoas dife- rentes saberem a mesma coisa de maneiras diferentes, ou que a mesma pessoa, em momentos distintos de sua vida pode saber a mesma coisa de formas diferentes, segundo ultrapasse a opinião e possa alcançar alguma convicção verdadeira ou ainda o saber.