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ANNEN DEL: «Om driftene og viljen til makt»

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A Análise do Discurso (doravante, AD) é uma área de estudo nascida na França no fim da década de 1960 e que vem sofrendo alterações ao longo de sua história. A referência que trazemos são os estudos de Pêcheux (1938-1983), nos quais a AD se caracteriza em três épocas distintas: a primeira, caracterizada na intenção de um estudo automático do discurso; a segunda época, que mantém a AD em uma relação estreita com o conceito de formação

discursiva, a qual determina a formação ideológica do que pode ser dito a partir de um lugar social ocupado pelo sujeito. Na terceira época, em Pêcheux (2012), o discurso do outro marca a presença virtual na materialidade descritível da sequência, a insistência do outro como lei do espaço social e da memória histórica, logo como o próprio princípio do real sócio-histórico. Para a AD, o sujeito resultado da relação entre linguagem e história não é a única fonte de sentido, nem tampouco elemento no qual se origina o discurso; ele se constitui primordialmente a partir de sua relação com o outro. O discurso do outro ecoa e retorna sempre, atestando a exterioridade primordial da constituição do sujeito, interferindo nos dizeres efetivos do sujeito e produzindo neste uma ilusão de que o sentido já existe como tal, neutralizando o que é produzido na relação do histórico e do simbólico.

O conceito de memória discursiva, que se constitui pela estabilização de um sentido, está imbricado no conceito de interdiscurso e intradiscurso. Para Pêcheux (2012), o interdiscurso passou a ser compreendido como memória discursiva, isto é, o já dito que torna impossível todo o dizer e se filia a um saber que não se aprende, não se ensina, no entanto, existe produzindo efeitos. Nessa concepção, a constituição dos sentidos se estabelece a partir da instância simbólica, a qual denominamos intradiscurso.

Orlandi (2001) ressalta que o intradiscurso nos permite pensar na relação que o sujeito mantém consigo mesmo (dos sentidos que o constituem) e com as formulações passadas e futuras: o interdiscurso (eixo vertical) como o já dito (memória) e o intradiscurso (eixo horizontal) como o que está sendo dito (atualidade).

Para o analista do discurso, as marcas de subjetividade são inscritas como traços dos registros do inconsciente; no entanto, o sujeito alienado não percebe tais marcas em seu dizer, não se percebe constituído pelo outro, por essa rede de significantes que o constituiu. Propondo uma discussão da constituição histórica dessas evidências, teorizando sobre a imbricação entre inconsciente e ideologia na materialidade da língua, Pêcheux (2012) constitui o terreno da teoria do discurso. Nesse sentido, o sujeito determinado socialmente é o sujeito do inconsciente, efeito de um significante para outro significante.

Pêcheux (2012) defende a tese de que todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sociais e históricas de identificação, visto que ele constitui, ao mesmo tempo, um efeito dessas filiações e um trabalho de deslocamento em seu espaço. Nessa direção, o discurso envolve a interação entre interlocutor e locutor, o contexto social de sua produção, a influência manipuladora, ideológica e idealizada, que orientam diferentes

comportamentos e ações (processos de desenvolvimento também), e critica uma leitura idealista, que pressupõe uma existência a priori do sujeito.

Em Teixeira (2005), o sujeito da AD é constituído pelo esquecimento daquilo que o determina, ou seja, ele não se dá conta de que a sua constituição está vinculada a um processo do significante no funcionamento da linguagem, na interpelação ideológica e na identificação imaginária a determinados sentidos. O falar do sujeito é o falar de efeito de linguagem; sujeito enquanto um ser de linguagem que foi falado antes de falar, que traz marcas do discurso do outro, o que implica considerar que o sujeito não é origem do dizer nem controla tudo o que diz. O outro, enquanto tesouro de significantes, como representação de uma cena anterior, exterior e permeada pelo simbólico, é uma categoria que aponta para diferentes elementos de linguagem que marcam a enunciação do sujeito do inconsciente no espaço deixado vazio entre dois significantes. As manifestações do inconsciente marcam, então, a divisão subjetiva e o fato de que não é possível falar do sujeito como uma unidade.

O acontecimento discursivo funciona, assim, como princípio que organiza e movimenta a relação do contexto, da atualidade, de espaço da memória e do retorno de um dizer na cadeia histórica dos significantes. O acontecimento é responsável por um dizer que produz sentidos para o sujeito (PÊCHEUX, 2012). Nessa perspectiva, o discurso é um efeito de sentido entre locutores situados em uma dada formação social, que determina lugares representados nos processos discursivos pelo filtro das formações imaginárias. As formações imaginárias designam o lugar que os locutores se atribuem mutuamente.

Para Pêcheux (2012), as trocas linguísticas decorrem dos papéis representados socialmente, em que a imagem de si, do outro e os pressupostos decorrentes dependem da situação social. A pessoa que fala constrói o seu dizer nesse entremeio da estrutura, permeada pela dimensão do equívoco que a atravessa e do acontecimento que constitui o discurso como uma grade de leitura ou memória antecipadora que sobredetermina o dizer. No acontecimento, entrecruzam-se atualidade (o dito aqui e agora) e a memória (o já dito antes e em outro lugar).

Ainda de acordo com Pêcheux (2012), os sentidos se constituem a partir do imaginário, que aponta para uma estabilização de sentidos de modo a formar um saber social e historicamente constituído e (com)partilhado em dado momento histórico, em determinada cultura (como as leis). Os efeitos de sentido são produzidos discursivamente pelos sujeitos, de modo a deixar deflagrar aspectos atinentes à história do sujeito, estando implicada, nesse movimento, a constituição da memória discursiva. Todo discurso possui, assim, uma orientação histórica e, orientado historicamente, se constitui a partir do jogo

unidade/dispersão dos sentidos e do sujeito. Os sentidos (des)estabilizados, ora se inscrevem discursivamente como memória, ora como atualidade.

Para Teixeira (2005), a questão do acontecimento coloca em xeque o corte categórico entre passado/presente de um dado recorte histórico e classifica o viés do passado como determinante, e o presente como determinado. Na atividade de leitura e reconstituição do acontecimento discursivo pela via da memória, os implícitos são mobilizados e reestabelecidos pelo sujeito, estando implicada aqui a dimensão de uma subjetividade em uma perspectiva psicanalítica. O acontecimento discursivo provoca o deslocamento e a desregularização dos implícitos associados ao sistema de regulação interna.

Orlandi (2001) aponta que os mecanismos de funcionamento de discurso são relações de forças, de sentido, e que o mecanismo de antecipação não diz respeito aos sujeitos físicos, mas, sim, às suas supostas imagens, que resultam de projeções discursivas. São projeções que permitem passar de situações empíricas para posições dos sujeitos no discurso. Na antecipação − característica constitutiva de qualquer discurso −, o locutor, partindo de sua capacidade de imaginar, pode prever o que irá dizer e se antecipar ao interlocutor. O sujeito parece afetado pela ilusão de que ele pode prever o efeito do que diz, com isso, antecipa-se e tenta regular o que diz, de modo a apostar na suposta previsibilidade dos efeitos que podem incidir nos interlocutores.

Nessa perspectiva, o discurso é ancorado pela via do imaginário, de modo que o sujeito, na ilusão de atribuir sentido, parte de algum lugar. O sentido da palavra parece, com isso, sofrer implicações pela posição do sujeito, pois, ao assumir determinada posição discursiva, é esperado que o sujeito corresponda às implicações que essa posição lhe demanda socialmente. O sujeito toma a palavra, via processo de subjetivação de determinada posição discursiva, para encabeçar alguma (im)possibilidade de (re)invenção do novo, singular.

O processo de recriação só é possível, então, quando se deflagra algum tipo de investimento subjetivo por parte daquele que toma a palavra. O investimento subjetivo tem relação com o fato de o sujeito suportar a posição de se articular com os semelhantes e, diante disso, produzir algo ao mesmo tempo singular e coletivo. Para Riolf (2002), a única via para que essa (re)invenção de algo novo se estabeleça na cultura está ligada à condição de laço social. A psicanálise entende o laço social como uma dimensão da verdade que está vinculada à singularidade do sujeito: uma unidade particular e constitutiva do sujeito, que recebe textualidade a partir do momento em que o sujeito fala e/ou é falado.

Considerando que o modo como o surdo opera nos discursos está intimamente ligado com o ponto em que as pessoas surdas estão localizadas, com as formas de resposta que lhes são alcançadas e com a imagem que desenha de si mesmo, podemos indicar, na análise, que o imaginário gera sentidos; tais sentidos vêm por imagens que se tem da experiência vivenciada em instituições escolares, marcadas pelo discurso da inclusão e da educação bilíngue, que acabam por idealizar e homogeneizar a concepção/ideia do aluno surdo. Contudo, existe um real que atravessa essa experiência, produzindo os mais diversos efeitos de sentido.

Apresentado o recorte teórico que subsidia a pesquisa, descreve-se, no próximo capítulo, o percurso metodológico que a determinou.

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