Os avanços tecnológicos permitem o surgimento de novas formas de atividades linguístico-semióticas, como exemplo podemos citar a comunicação via recados do Orkut181, os ‘blogs’182 ou mesmo a comunicação via correio eletrônico (e-mail). Se nos distanciarmos um pouco na perspectiva temporal, considerando minimamente o fato de estarmos no século XXI, podemos citar como um novo gênero o telejornal, pois tem menos de 100 anos.
É possível diferenciar gêneros por meio das tecnologias específicas que utilizam (Fairclough, 2003). As CEs podem ser identificadas como um gênero discursivo por essa razão. Diferentemente das charges ‘tradicionais’ de imagem única (considerando o texto
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Termo que estou utilizando para designar o suporte material e ao mesmo tempo a instituição no qual determinado texto / gênero é veiculado.
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Estudos mais detalhados sobre charge eletrônica e sobre o site www.charges.com.br podem ser encontrados em Bessa (2007a), Helga V. A. de Souza (2007) e Amarildo P. Magalhães (2006).
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Sugiro ao/à leitor/a que veja, nesse momento, o texto por meio do CD, em anexo, ou dos quadros em que as imagens estão organizadas em sequência (Anexo T: Charge eletrônica: “Cotidiano – Enquanto isso na delegacia...”).
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Site de relacionamentos (www.orkut.com) que hospeda dados pessoais, mensagens particulares, fotos e principalmente recados (scraps) que podem ser enviados e visualizados por qualquer pessoa que visite as áreas individuais (o usuário tem a opção de apagar os recados recebidos ou bloquear acessos).
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Diários pessoais publicados na Internet. Alguns têm sido usado com fins de publicidade ou de jornalismo, por exemplo.
como um todo) e estática (impressa ou veiculada em vídeo), a CE cumpre um papel comunicativo que mescla som, movimento e diferentes imagens apresentadas em sequência. O caráter crítico-social, humorístico e que trata geralmente de temas políticos permanece.
Rabaça e Barbosa (1998, p. 594) apresentam a seguinte definição para este gênero (também identificado por eles como ‘videocharge’): “um cartum para televisão, com efeitos de animação, geralmente produzido por meio de computador gráfico, ou através de técnicas tradicionais de desenho animado, animated captions etc.” Em razão da animação gráfica, há o uso corrente da definição ‘charge animada’ ou ainda ‘charge virtual’. Inicialmente a CE era veiculada na TV, todavia ganhou maior visibilidade na Internet.
Inicio a apresentação de dados mais detalhados das CEs por meio de uma síntese de características abstratas e de estrutura textual registradas no Quadro 13:
QUADRO 13: CE – características e estrutura
Os meios de comunicação (TV, Internet) são responsáveis pela veiculação das CE, que, em um ambiente virtual, tratam de temas do cotidiano com humor e crítica (a qual pode questionar ou reforçar naturalizações, por exemplo). De um modo geral, sua estrutura pode incluir caricaturas, imagens (desenhos, filmes ou mesmo a imagem verbal), sons, vozes (em geral caricaturadas ou que seguem estereótipos), sempre com animação gráfica e algumas vezes contêm músicas – sendo assim, uma de suas características marcantes é a multimodalidade183. Outra especificidade do gênero pode ser observada no Quadro 14:
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A multimodalidade refere-se à presença de mais de uma modalidade semiótica em textos (modalidade verbal e visual, por exemplo). Kress e van Leeuwen (1996, 2001) apresentam trabalhos relevantes sobre esse tema.
Charge eletrônica características abstratas mídia humor crítica cotidiano virtualidade estrutura textual caricaturas imagens sons voz música animação
QUADRO 14: CE – escala, estabilização, homogeneização (Bessa, 2007a, p. 85)
Apesar de ser acessível, via Internet, em qualquer lugar do mundo, a audiência é essencialmente nacional, considerando o tema e as próprias características do gênero, como a crítica contextualizada (mesmo que trate sobre a guerra no Iraque, é geralmente relacionada a perspectivas que temos no país).
As inovações surgem com alguma frequência (a exemplo da inserção de pequenos filmes / vídeos), porém, o formato principal, o tempo de execução, as características e estruturas (conforme Quadro 13) permitem a compreensão de que o grau de estabilização é médio (em uma escala que conteria também um nível alto e um baixo), assim como a homogeneidade. Diferenças existem entre as que são exibidas em programas de TV e em sites, mas sem alterações fundamentais.
Podemos observar ainda em relação à CE a cadeia de gêneros (Quadro 15) com a qual se relaciona:
QUADRO 15: CE – cadeia de gêneros (Bessa, 2007a, p. 87)
Para poder fazer crítica de alguma questão recente e que tenha ganhado visibilidade (fundamental para atrair audiência para as CEs e facilitar a compreensão / interpretação), as notícias que estiveram presentes nos principais veículos de comunicação (jornal impresso, e/ou televisivo, e/ou da Internet; revistas) são ótimas fontes. Da mesma forma, servem as reportagens, as crônicas, cartas de leitoras e leitores e uma infinidade de gêneros – muitas vezes um blog consegue pôr um assunto na ‘crista da onda’ da mídia. Em relação ao site www.charges.com.br, internautas ainda têm a possibilidade de sugerir temas ou expor opinião sobre CEs já exibidas por meio do envio de mensagens. Entre tantos outros gêneros possíveis para reverberação de uma CE, ou ‘extensão de sua cadeia’ (de gêneros), pode-se citar também os ‘comentários’.
Escala nacional
Grau de estabilização médio Homogeneização média cadeia de gêneros notícia reportagem crônica cartas mensagens comentários
Além dos gêneros distintos que se correlacionam, deve-se destacar a mescla de gêneros discursivos que acontece nas próprias charges – um hibridismo que tem se mostrado muito frequente na mídia (Fairclough, 2003). Na CE em análise, por exemplo, não é só uma CE, mas também uma ‘queixa’ (no sentido de reclamação a uma autoridade sobre fato que mereça providência – no caso, prestou-se uma ‘queixa na polícia’).
Encerrando esta subseção sobre o gênero CE, destaco as atividades e relações sociais correlacionadas. A crítica é uma atividade marcante, assim como tem grande relevância o papel de entretenimento. Porém, deve-se lembrar que a CE acaba por ‘dar informação’ a leitores e leitoras184. Ao desenvolver essas atividades, também age na ‘busca de audiência’ e com o objetivo de potencializar a ‘comercialização’185. Quanto a relações sociais, a organização e determinados indivíduos ligam-se por meio do acesso ao site.