Na cena a negra que está ao centro tem a sua cara toda pintada com polvilho por um negro, enquanto é observada por um rapaz que enche as mãos de laranjinhas, que estão no tabuleiro da mulher sentada, e, ao fundo, dentro do armazém há outro destacado bem no momento que está lançando uma bolinha. Pelo que sugere Debret, apesar de serem bastantes turbulentos, os negros seriam “sempre respeitosos para com os brancos”. 459
Em Itu, como na maioria das localidades brasileiras, o entrudo esteve presente não só nas ruas, mas também nas páginas da imprensa local, aliás, entre as diferentes fontes de
458FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p.93
459DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. V. 1, São Paulo: Círculo do Livro, S/d, p.
informações, relativas à sociedade ituana oitocentista, essa é a única fonte em que há evidências sobre o carnaval e o entrudo. O memorialista Francisco Nardy, que tanto escreveu sobre Itu, não faz qualquer menção ao assunto e os processos criminais pesquisados tampouco.
O carnaval de 1874, na visão do “folhetinista” do Ytuano, foi de “uma friesa glacial”, e isso tem suas explicações no abandono que a cidade estaria naquele momento, como se podia notar pela invasão de cobras em suas ruas e principalmente pela carestia dos preços dos alimentos. O “estomogo fraco se torna incapaz de produsir boas ideas, pela immediata relação que há entre elle e a cabeça”, e considerou ele, “é por isso que durante as três tardes do carnaval, e as três noutes de baile o expectador curioso não póde encontrar mais que duas ideas unicas de algum espírito: - o passageiro da estrada de ferro, e a crítica ao – Tamanduá”. Mas como ponderou, “antes um péssimo carnaval que o melhor entrudo”. 460
Pela versão do folhetinista, que tinha um posicionamento contrário à prática do entrudo, naquele ano, a brincadeira não teria feito parte do repertório dos foliões ituanos, o que, pela notícia de outro jornal, três anos depois, não esteja muito distante da realidade, já que se fala em um retorno da brincadeira:
O entrudo – Acabarão-se os dias de loucura. A pacifica cidade de Itú volta ao seo antigo estado de socego.
O antigo brinquedo das laranginhas aparece, como disem os franceses – on revient
toujours, a sés premier amours, e com muita força; correndo o divertimento muito
animado, sem que houvesse a lamentar-se desastre algum, apesar de que parecia estarem suspensas as garantias constitucionaes estatuídas na nossa lei fundamental.461
O retorno das laranjinhas às ruas de Itus se dá justamente no carnaval seguinte à decretação dos Códigos de Posturas de 1873, cujo inciso 9°, do art. 61, já citado anteriormente, normatiza a prática do entrudo. A brincadeira deveria estar proibida nos dias de carnaval, mas não se encontrou referências que pontuem os elementos pertinentes a esta proibição, contudo, é bem provável que tenha sido no contexto pós independência, quando o entrudo passou a ser classificado como bagunça e associado à ausência de civilização.462
460O Ytuano, Ano II, N.4 - 22/02/1874, p.02
461Imprensa Ytuana, Ano II, N.52 – 18/02/1877, p.02
462FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005; LEAL, Caroline
Pelo entusiasmo que se comentou o que ocorreu em fevereiro de 1880, os entrudo estaria novamente ocupando um lugar de destaque no carnaval ituano:
Entrudo – Foi-se o entrudo e com elle os dias de prazer e loucura:
No primeiro dia o brinquedo esteve desanimado, porem nos dois ultimos brincarão a valer e com enthusiasmo, apezar da chuva que cahia.463
As cenas dos carnavais que aparecem nas páginas dos periódicos ituanos, diferentes da que foi pintada por Debret, não contam com a participação de escravos e negros livres. Qual seria, de fato, a participação dos escravos no carnaval? Nas Posturas não há qualquer objeção a escravos brincarem o entrudo, caso eles fossem proibidos de participarem, essa informação constaria num dos incisos. Pode-se então supor que tanto escravos quanto libertos e livres receberiam a multa de 20$000464, não tendo sido necessário distinguir-se o infrator por sua categoria jurídica e social.
Provavelmente o contexto carnavalesco de Itu teve muito outros personagens, que não mereceram a atenção dos jornais ituanos, em cujo grupo estariam os escravos, que deveriam fazer suas folias, assim como faziam, por exemplo, nas de São Sebastião no Pátio da Igreja de São Luiz e nas de Natal e Ano Bom, mas separadas dos homens e mulheres livres de melhor situação econômica e social.
Os escravos que viveram em Itu provavelmente devem ter vivenciado outras opções de lazer em seus momentos de desobriga, além daquelas destacadas no presente capítulo, mas que, por força do destino, acabaram não sendo registradas em nenhuma fonte de informação. Mas de qualquer maneira, o que se pôde observar já é o bastante para salientar, da perspectiva da autonomia lúdica, uma questão central no processo histórico: a ideia de que os escravos forjavam espaços e desempenhavam papéis de agentes históricos bem diferentes daqueles que, tanto as forças sociais da época, como alguns trabalhos historiográficos465 havia
lhes reservado.
jun de 2008; LIMA, Cláudia. O entrudo e o carnaval brasileiro. http://www.claudialima.com.br/pdf/0%20ENTRUDO%20E%00%20CARNAVAL%20BRASILEIRO. pdf (capturado em 21/01/2013, às 14h30).
463Imprensa Ytuana, Ano V, N.205 – 14/02/1880, p.03
464Códigos de Posturas Municipais de Itu, 1873, p.272.
465Como por exemplo: BASTIDE, Roger e FERNANDES, Florestan. Brancos e Negros em São Paulo. 3ª.
Edição, São Paulo: Nacional, 1971; CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962; COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. 4ª.