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No subgênero da cantiga de amigo, neste caso, pastorela, observa-se a mulher assumindo a função ativa no trabalho, ou seja, pastoreando as ovelhas e ao mesmo instante estabelecendo uma conversação com outro sujeito poético. É um diálogo envolvendo geralmente uma pastora com um cavaleiro ou com a própria mãe, demonstrando, às vezes, infelicidade por não ser correspondida na vida amorosa. Eis um exemplo de uma cantiga de amigo de autoria de Fernão Rodrigues de Calheiros:

Madre, passou per aqui um cavaleiro e leixou-me namorad‘e co[m] marteiro, ai madre, os seus amores hei;

se me los hei, ca mi os busquei, outros me lhe dei;

ai madre, os seus amores hei. Madre, passou per aqui um filho d'algo

89 e leixou-m'assi penada, com'eu ando,

ai, madre, os seus amores hei; se me los hei,

ca mi os busquei, outros me lhe dei;

ai, madre, os seus amores hei. Madre, passou per aqui que[m] nom passasse e leixou-m' assi penada, mais leixasse: ai madre, os seus amores hei;

se me los hei, ca mi os busquei, outros me lhe dei;

ai, madre, os seus amores hei.

Essa cantiga de amigo uma paralelística de Fernan Rodriguiz de Calheyros, constitui-se como um dos gêneros de poesia trovadoresca de tema pastoril. Os traços característicos que apresentam relação direta com a lírica medieval abrangem um eu lírico feminino em primeira pessoa, de cuja representação da coita amorosa entre os amantes, aspecto semelhante à cantiga de amor. Inicialmente, percebe-se que é uma donzela apaixonada realizando confidências amorosas à mãe, comentando a respeito da passagem de um cavaleiro, isto é, de determinado pastor ao ambiente campestre. Vale destacar que na tradição lírica do galego-português, a figura do cavaleiro pode ser comparada a alguém que pertencente à ordem militar de cavalaria, comporta-se com nobreza e generosidade com o próximo, sendo digno de respeito e consideração.

A estrutura dessa cantiga de amigo do trovador Fernan Rodriguiz de Calheyros é composta por três estrofes poéticas, cada qual possuindo o equivalente a sete versos, refrão repetido ao longo da composição, com cobras (coplas) singulares, já que as mesmas apresentam rimas diferentes entre si, formando-se, portanto, uma cantiga de refrão e não de maestria. A utilização dos procedimentos paralelísticos e repetitivos é um dos elementos marcantes desse tipo de produção do medievo, uma vez que reforça o ritmo e processo musical.

Nessa cantiga de amigo, é anáfora que sucede o inicio e o final de todas as estrofes, representada através dos versos ―madre passou per aqui‖ e de seu refrão. Esse recurso linguístico ocorre no refrão paralelístico quando se repetem as mesmas palavras sempre na mesma posição dos versos, revelando uma confissão amorosa contínua e repetitiva a interlocutora da jovem, neste caso, a mãe.

90 Aliás, a própria estrutura desalinhada dos versos dessa cantiga de amigo está interligada ao canto, fazendo-se necessário a complementariedade do uso de instrumentos musicais e do movimento da dança. É o uso do estribilho, tal recurso medieval, que facilita a musicalidade, a partir da repetição dos versos ou palavras ao final de cada estrofe, reiterando o refrão e a memorização, por exemplo: ―ai madre, os seus amores hei; se me los hei, ca mi os busquei, outros me lhe dei; ai, madre, os seus amores hei‖.

Percebe-se que essa cantiga de amigo dispõe-se, geralmente, de três estrofes que se encadeiam por meio das conjunções (e, se, ca), não favorecendo à quebra ou rompimento da sequência lógica de sua significação, o que possibilita a continuidade do pensamento ou a ação do eu lírico feminino. Observa-se ainda no inicio das três estrofes, a presença de mais dois elementos medievais, tais como o dobre e o mordobre, envolvendo a variação e substituição sinonímica dos vocábulos, processo designado a partir da repetição de uma palavra ou mais dentro da mesma estrofe, mas que consegue manter o mesmo paralelismo semântico do início ao fim da composição poética.

Nessa cantiga de amigo trovadoresca, a sua temática é envolvida por um drama amoroso entre uma dama e um cavaleiro, chegando-se a confundir com uma produção conhecida por ―elegia‖, exprimindo tristeza e sentimentos melancólicos do eu lírico feminino. Logo no seu inicio, ocorre a confissão de uma donzela à madre (mãe) sobre a passagem de um cavaleiro, o advérbio de tempo (aqui), indica certa proximidade ou um momento presente apesar de não ser especificado claramente, mas pelo tipo de cantiga, pode-se pensar comumente no campo ou ambiente campestre.

É a figura da mãe que a jovem recorre constantemente para confidenciar seu sofrimento amoroso. A presença dos verbos de ação ―passou‖ e ―leixou‖, isto é, deixou, expressam essa transição ou passagem de um cavaleiro que conseguiu deixar a jovem enlouquecida de amores e ao mesmo instante padecendo por sua desatenção ou indiferença. Conforme apresenta o próprio refrão repetido no decorrer do poema, (―ai, madre, os seus amores hei;/se me los hei,/ ca mi os busquei,/ outros me lhe dei;/ai, madre, os seus amores hei‖), perpassando o sentimento de tristeza e melancolia por um provável pertencimento ou posse do ser amado. Inclusive, é o próprio termo medieval que ilustra esse aspecto, ―hei (ey): tenho, possuo‖, que rimando com outras palavras da mesma estrofe, ―busquei‖ e ―dei‖, estabelece essa duplicidade de sentidos no tocante a uma perda do passado e a passagem de um cavaleiro.

91 É somente na conclusão da terceira estrofe, (Madre, passou per aqui que[m] nom passasse/e leixou-m' assi penada, mais leixasse), que é possível deduzir essa duplicidade de sentidos para o substantivo cavaleiro, primeiramente, para uma provável inexistência do sujeito masculino, como sendo uma alucinação ou delírio de encontrar finalmente um namorado para abrandar a sua solidão, por outro lado, para o mais indicado que é a ausência dele ao ambiente frequentado habitualmente, conforme aponta as estrofes inicias. Nesse sentido, tem-se a imagem de uma jovem imaginando ou, principalmente, observando um determinado cavaleiro (pastor) durante três momentos distintos enquanto pastoreia suas ovelhas. Afinal, é o verbo ―passar‖ o principal responsável pelo movimento tanto do cavaleiro quanto do sentimento melancólico desse ser feminino.

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