Em maio o dr. Peyron assina a ficha de curado do pintor, “os médicos declaram que o estado de Van Gogh melhora. Abrem a ele a porta do asilo. Ele escapa”80 [narrador, tradução nossa]. Resnais apresenta duas realidades para narrar essa fase, o ambiente interno do asilo (sua recepção), e um outro externo caracterizado pelo arvoredo.
Como elemento intermediário temos uma porta aberta, é como um portal entre dois universos, entre a cura proporcionada pelo homem como uma suposta segurança, e o estado selvagem de estar na natureza, de ser o mundo em sua essência mais bruta, mais sensível. Hipoteticamente, Van Gogh em uma posição frontal a essa ‘entrada e saída’ observa as opções entre ficar ou partir. E, por fim, segue. Retomaremos essa leitura subjetiva no próximo item sobre psicologização.
160 Após a saída de Saint-Rémy, segue para Paris numa tentativa de morar com o irmão e com a cunhada. Porém, não perdurou muito sua ‘hospedagem’, Van Gogh se sentia um intruso. Nas correspondências dessa época tudo é muito obscuro, supostamente ocorreu algum tipo de desentendimento. O que sabemos é que três dias depois da sua chegada a casa do irmão, em 20 de maio, Van Gogh decide partir para Auvers-sur-Oise.
A trinta quilômetros da movimentada Paris, o pintor buscava novamente restabelecer o equilíbrio. “Em Auvers, finalmente podia ver o céu noturno sem espiar por entre as grades da janela. Mas as estrelas ainda falavam de solidão e seres amados distantes” (NAIFEH; SMITH: 2012, 959). É nesse momento que recebe tratamento do Dr. Gachet, médico conhecido pelos métodos terapêuticos inusitados. Possuiu muitos pacientes ‘famosos’, pintores, escritores, entre outros. Van Gogh recebia tratamentos indo à residência do médico, “posso ir à casa dele sempre que quiser. [ele] é muito parecido com você e comigo” (Van Gogh apud NAIFEH; SMITH: 2012, 961). Como mencionado pelo artista ‘ele era meio amalucado’: o Dr. Gauchet possuía uma personalidade excêntrica.
Como vigor ‘aparente’ enfrentava as mudanças oferecidas por Auvers, mas com a mesma força que se entregava às novidades, também se desprendia delas, mudava de direções como o mistral. Van Gogh foi um homem de emoções vulcânicas, de personalidade tempestuosa, seu estado psíquico oscilava entre a euforia e a melancolia. Essa qualidade emocional ambígua foi agravada devido à intensidade com que ele se entregava aos seus fazeres artísticos e leituras, passando dias dormindo pouco ou quase nada, ‘alimentando-se’ de álcool e cachimbo. Essa excitação é perceptível quando lemos algumas de suas cartas, onde descreveu suas privações materiais em função do trabalho compulsório de pintar.
Figura 223: fotograma, Recepção do hospital de Saint-Paul (1889).
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Começo de agosto, 1888.
Estando bem, é preciso conseguir viver com um pedaço de pão, trabalhando o dia inteiro, e ainda ter forças para fumar e beber um trago, o que é necessário nestas condições. E sentir ainda assim, claramente no alto, as estrelas e o infinito. A vida torna-se então, apesar de tudo, quase encantada. Ah! Os que não acreditam no sol daqui são bem ímpios (VAN GOGH: 2007, 251).
Em Auvers-sur-Oise, sua última morada, produziu suas derradeiras pinturas, envolto por uma aparente calma, no entanto, por dentro sua alma tremia, suas memórias reviviam seus fantasmas, e esses rompiam seus silêncios. “Depois de seis anos de trabalho intenso, Van Gogh se rebela. Todo seu ser grita. Ainda, é necessário escolher.”81 [narrador, tradução nossa]. Sozinho em meio a campos de trigais previa um tempo nebuloso. Mas para quem sempre pertenceu a um estado febril de sensações, a pacificidade não é um fim, mas pausa para fortalecer e seguir adiante, a plenitude só é alcançada por estar e ser o caminho. No entanto, “não se brinca impunemente com o fogo. Não é por caso que os girassóis se chamam sóis. No topo de sua arte, Van Gogh, vencedor, pára, tomado por vertigens”82 [narrador, tradução nossa]. Possivelmente, nunca o céu e as estrelas se apresentaram diante dele com tanta velocidade, em um redemoinho incessante, de lembranças, de lugares, sensações.
A imagem do lenhador (fig. 225) que tem sobre a sua cabeça um céu estrelado que se movimenta em um turbilhão de pequenas pinceladas (fig.226) é apresentado por Resnais
81 A peine six années de travail acharné. Van Gogh se rebelle. Tout son être crie. Pourtant, il faut choisir. 82 On ne joue pas impunément avec le feu. Et ce n'est pas pour rien que les tournesols s'appellent des soleils.
Arrivé au sommet de son art, Van Gogh vainqueur, s'arrête, saisi de vertiges. Figura 225: fotograma, Caminho com
cipreste (1890).
162 como o momento em que o pintor tenta contra a própria vida. “No dia 27 de julho, 1890, muito jovem para conhecer sua glória, mas acima dela, no meio de um campo, de frente ao seu cavalete, Van Gogh dá um tiro em seu coração”83 [narrador, tradução nossa].Seria a última vez em que se embrenharia pelos trigais, pelos caminhos com corvos, que veria semblantes escurecidos pelo carvão, pela terra, pelas luzes da cidade. Possivelmente, a maciez do trigo a algazarra dos corvos foi mais confortável que a cama quente e silenciosa de um hospital. Partiu do mundo pelos braços daquela que sempre idolatrou – a natureza.
Digno acompanhamento para a morte daquele que, em vida, fez girar tantos sóis ébrios sobre montões de cereais rebeldes e que, desesperadamente, com um balaço no ventre, não pode deixar de inundar com sangue e vinho uma paisagem, empapando a terra com uma última emulsão, radiante e tenebrosa ao mesmo tempo, que cheira a vinho azedo e a vinagre picante (ARTAUD: 2003, 20).
Nesse trecho do documentário o diretor utiliza variadas telas com a mesma temática, são todas do gênero paisagem, duas delas, com chuva, e em seguida, a famosa Trigal com corvos (1890), supostamente o local onde o pintor atirou contra o peito. Lentamente um fade out enegrece o Trigal com céu tempestuoso (1890), como se as pálpebras do artista cerrassem vagarosamente, levando como lembranças o céu violáceo e um sol ‘fantasmagórico’ que dourava o trigal.
Se há um sentido dominante no documentário que foi construído a partir da vida e obra desse pintor, é o estado constante de inquietude, não só emocional e psíquica, mas igualmente geográfica. Foi uma existência em busca de sentidos, procurando consolidar uma crença em algo, que era muito clara em seus olhos, mas invisível àqueles que estavam próximos a ele. E que se concretizou em suas pinturas. Vincent Van Gogh se colocou em busca de um ‘eu’, e isso é claro em suas palavras escritas e pintadas. “E não se suicidou em um ataque de loucura, pela angústia de não chegar a encontrá-lo; ao contrário, acabava de encontrá-lo, e de descobrir o que era e quem era ele mesmo” (ARTAUD: 2003, 15).
83 Le 27 juillet, 1890, trop jeune pour connaître sa gloire, mais sur d'elle, au milieu d'un champ, devant son
163 Quando os demais perceberam a liberdade com que esse homem pisou na terra, que nas privações e rejeições de conforto materiais estava o sentido da vida, e que atingira por meio de suas criações um alto grau de consciência sobre a existência humana, o rótulo de louco foi a leitura mais rasa e rápida para ele. Quando Artaud diz ‘a sociedade o suicidou’, possivelmente, é o julgamento que lhe aplicaram, e o veredito dado o tomou como culpado.