Fortunato e Garcia, médicos, amigos, sócios, ousados, apaixonados pela mesma mulher e o mais especial: ambos, ao que parece, portando um determinado tipo de patologia psicológica. Em se tratando dos personagens principais do conto, quais os motivos que levariam o escritor Machado de Assis a configurar arquétipos que apresentam comportamentos doentios, de maneira tão proeminente na obra? Qual a razão de os mistérios da “Causa Secreta” estarem exatamente nesse fato? No decorrer desse trabalho, já foi dito que o autor conjuga, por meio de suas obras, o contexto social em que vivia, indo ao encontro do movimento literário realista. Nesse caso, o foco de análise se direciona para a possibilidade de que Machado de Assis tivesse a intenção de denunciar enfermidades existentes no meio social presenciado por ele diariamente. Para isso, volta-se a atenção para as características em comum que contém os dois personagens, garimpando indícios e possibilidades que, congruentes com obras historiográficas sobre o assunto, possibilitem a identificação das intenções produzidas nessa história e eclipsadas pelo escritor. Ainda sim uma análise semiótica do texto pode nos fornecer mais firmeza, no intuito de revelar um pouco mais das “causas secretas históricas”:
A semiótica tem como principal objeto de estudo o texto, que deve ser descrito como uma unidade de sentido que se organiza tanto do ponto de vista interno, como do externo. A análise interna estuda o texto como “objeto de significação”, já a análise externa estuda o texto a partir de sua “relação com o contexto sócio histórico”, observando a relação entre destinador e destinatário envolvidos num meio social em que circulam valores que podem ser apreendidos no texto (MOSCARDINI, s/d, p. 01).
Machado de Assis se utiliza dos olhos de Garcia para relatar a maior parte do conto. O personagem é apresentado como um estudante de medicina, motivo pelo qual fez ver Fortunato (que já era médico) pela primeira vez em um hospital da cidade do Rio de Janeiro. Principalmente no início da obra, momentos antes de conhecer Fortunato de maneira formal, algumas características são igualmente consideráveis para que se chegue à conclusão de que, além de Fortunato, Garcia também continha algum desvio secreto na sua psicologia. Primeiramente, os dois personagens vão a uma peça teatral de cunho trágico, em um local onde somente os mais intrépidos é que frequentavam (ASSIS, s/d). Nota-se que o gosto pelo sofrimento não se restringe somente ao médico, mas também se manifesta no estudante, já que este compareceu, como de costume, para apreciar o ato.
Da mesma maneira, o fato de o estudante ficar constantemente analisando uma pessoa que ainda nem conhecia, ao ponto de persegui-la pelas ruas da cidade, causa um pouco de
estranheza. Logo no primeiro contato que tiveram de maneira mais pessoal, quando Fortunato chega para ajudar Gouveia, o olhar atento de Garcia chama atenção. Espantado com a forma persecutória que o médico via seu paciente, o estudante acaba sentindo certa repulsa com a cena, mas, sem hesitar, continua olhando com singular curiosidade. O interesse do universitário aumenta quando recebe a notícia de que o doutor humilha, sem motivo aparente, o homem que tinha salvado a vida, quando esse foi agradecê-lo. O assombro de Garcia foi tanto que desejou ir à Catumbi, onde morava o médico, para vê-lo novamente (ASSIS, s/d).
A curiosidade inflamada do garoto é descrita pelo autor:
Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo (ASSIS, s/d, p. 04).
Com a proximidade e a consequente amizade iniciada com o casal Fortunato, aos poucos, Garcia expande sua análise, ficando cada vez mais intrigado com a singularidade do casal, na díspar vida conjugal a qual levavam. Contudo, a hipótese criada para o tipo de distúrbio existente no estudante, será debatida na conclusão final. O que importa neste momento é dimensionar o papel que ele representa no enredo, deixando esse mistério patológico para uma consideração final de análise desse personagem.
Nesse sentido, grande parte dos enigmas contidos no enredo é desvendada para o leitor através das observações atentas de Garcia. Dessa forma, não é nenhum absurdo propor que esse personagem configura, nas formas de se portar, a representação de um psicólogo, tendo a fixação de analisar compulsivamente o que lhe rodeia. Gradativamente, o poder cognitivo do moço interpreta as ações do casal, analisa, julga até desvendar os mistérios da razão que os movimenta.
Voltando ao período preferencialmente proposto para o estudo desse trabalho, com as datações do início da história propriamente dita e o ano de publicação do conto (1865 e 1885), torna-se importante dar uma dimensão de como estava constituída a Psicologia como ciência no momento em que Machado de Assis dá corpo a sua obra. De maneira que, a partir disso, torna-se viável compreender as perspectivas que os leitores do seu tempo poderiam ter em relação à questão clínica e médica, estabelecendo possibilidades de interpretação tanto para este trabalho, como para o público que consumia essas histórias folhetinescas à época do escritor. Além disso, é possível configurar hipóteses mais sólidas das ideias que rodeavam Machado de Assis e que poderiam influenciar sua forma de escrever.
As mudanças culturais que transcorreram no século XIX, principalmente depois da vinda da corte portuguesa para o Brasil, também repercutiram no pensamento psicológico. As ideias compreendidas por essa área, ainda estavam atreladas a outras áreas do conhecimento, como a Medicina e a Educação. Mesmo com limitadas intenções de produção de conhecimento, tendo o seu intuito primordial voltado para a formação profissional, as instituições superiores de ensino deram um grande impulso nesse momento. A graduação desses profissionais estava sob forte domínio das ideias liberais e positivistas, intimamente ligadas com as proposições da Psicologia desse período (ANTUNES, s/d).
Correspondentes às teorias psicológicas e direcionando o foco para as práticas médicas, o que existia no meio social machadiano era um substancial interesse em relação à psicologia experimental, no qual se denotava um sentido metafísico em seus pressupostos. Essas tinham como base o “eu”, a “alma”, o “espírito”, configurando a subjetividade ou o comportamento humano nos discursos, não só da Psicologia, mas inclusive de áreas distintas, como a filosofia e a teologia, que também influenciavam de maneira expressiva nas proposições psicológicas. Nesse sentido, boa parte das conclusões de curso, produzidas nas faculdades recém-criadas de medicina do Rio de Janeiro e, com menor incidência, da Bahia, mantinha uma estreita relação com essa conjetura, com temáticas atinentes à neurologia, neuriatria, psiquiatria, etc (PEREIRA, NETO, 2003).
Muitos desses estudos precipitaram a criação, em 1881, da “Clínica das Moléstias Mentais”, disciplina formal e ineditamente autônoma relacionada com a psicologia e que trazia temáticas das mais diversas:
Os assuntos são muito variados, dentre os quais: paixões ou emoções, diagnóstico e tratamento das alucinações mentais, epilepsia, histeria, ninfomania, hipocondria, psicofisiologia, instrução e educação física e moral, higiene escolar, sexualidade e temas de caráter psicossocial. (ANTUNES, s/d, p. 17).
O que se pode afirmar com esse breve resumo histórico, é que o ambiente da psicologia estava em pleno debate e mergulhado em transformações, rumo a um processo de autonomia, constituição e institucionalização da profissão. Nesse sentido, uma hipótese que pode ser considerada, ao escrever sobre o comportamento de Garcia, é a de que o autor esteja intencionalmente fazendo uma alegoria com esse personagem, configurando, assim, uma crítica às proposições médicas relacionadas com a psique.
A justificativa assenta-se na repulsa que Machado de Assis tinha em relação às teorias e os métodos das doutrinas que influenciavam a prática do alienista. Segundo Marciano Lopes e Silva (s/d), as características atribuídas ao recém-formado médico Garcia remetem a um psicólogo, assim como um narrador realista, já que sua dedicação à análise
moral e a dissecação íntima do comportamento humano configuram a falta de crença nas pesquisas das ciências naturais e de um narrador típico desse movimento literário. Machado de Assis se contrapunha de forma incisiva a essa doutrina. Suas formas de sensualidade, fisiologia e excessivo erotismo, segundo o autor, prejudicavam a análise do caráter moral dos personagens na sua relação com o contexto histórico narrado, quando não a excluía.
Dessa forma, pode-se dizer que, no conto, com suas dimensões instintivas e inconscientes, há uma condenação em relação às formas literárias até então existentes, além de possuir uma forte crítica aos fundamentos de Augusto Comte, onde sua doutrina colocava a objetividade e a neutralidade do discurso como uma de suas tônicas (LOPES E SILVA, s/d). Devido às análises feitas pelo doutor Garcia, revelam-se os instintos, o inconsciente do casal Fortunato, dando exemplos de determinados impulsos que, mesmo não tendo uma conotação patológica, são intrinsecamente ligados ao comportamento humano. Nesse sentido, traça um paralelo do meio privado, onde essas características ficam nuas, e o meio social qual convivem, onde predomina a razão e as normas corretas de se portar frente às outras pessoas.
Há, ainda, outro ponto concernente ao Garcia que pode ser representativo para uma elucidação histórica do século XIX. O momento em que Fortunato lhe propõe a sociedade para abrir uma casa de saúde torna-se simbólico, na medida em que a oferta é aceita, mesmo que de início tenha existido alguma reticência. (...) Na verdade, era uma boa estreia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos (ASSIS, s/d, p. 05). Nesse sentido, desvendar o que era considerada “boa estreia” nos oitocentos brasileiro, oportuniza compreender o ainda mais o caráter tanto de Fortunato, como, em especial, Garcia.
Em 1860, período em que é narrado o conto, existia uma quantidade ainda pequena, mas crescente de médicos formados no Brasil. Esse fato, mais uma vez ligado à transferência da corte portuguesa para cá, relacionava-se com um projeto de civilização, onde o ambiente tivesse que se adequar ao novo requinte imperial. Pouco antes da metade do século XIX, as recém-criadas faculdades de medicina, juntamente com a Academia Imperial de Medicina, começaram incorporar e reproduzir um discurso norteador de comportamentos sociais, em nome da saúde pública. Contudo, nessa primeira metade dos oitocentos, o incipiente número de médicos presentes no Brasil, as dificuldades encontradas até a década de 1870 para a instituição da medicina, com a descrença principalmente popular na sua capacidade, assim como as disputas pelo poder ocorridas nesse espaço de tempo, representaram dificuldades para por em prática suas propostas (SOARES, 2001).
Nessa sociedade oitocentista brasileira a doença e a cura tinham significados específicos, ainda muito voltados para a religiosidade cristã. Dessa forma, lutar contra as enfermidades em alguns casos poderia ser considerado um ato pecaminoso, já que as moléstias poderiam ter relação com os pecados cometidos, ou por manifestações demoníacas. Nota-se que essas questões ligadas à saúde estão mais ligadas ao sobrenatural, ao metafísico, do que propriamente ao científico, aos remédios. A condução dos tratamentos era, de forma mais corriqueira, tratados pelos próprios familiares e não raro com o acompanhamento de padres. Além disso, o crédito oferecido à medicina entre as elites não era substancialmente melhor. De maneira muito comum as classes mais altas da sociedade recorriam a mezinheiros e/ou curandeiros na procura da cura ou, então, para retirar possíveis feitiços, acreditando, também, no sobre-humano (SOARES, 2001).
Nota-se que a medicina oitocentista brasileira não surgiu de maneira muito conceituada, tendo que provar que o seu cunho científico era mais eficiente que as tradicionais práticas arraigadas já há tempos na sociedade. Dessa forma, não é difícil concluir que a sociedade com Fortunato para abrir uma casa de saúde realmente não se dava de todo mal. Pelo contrário, juntando-se poderia compartilhar de sua posição social, angariar o título de capitalista e obter um status que, como estudante ou recém-formado na profissão, provavelmente não possuía. Dessa forma, o envolvimento de Garcia com Fortunato pode ser movido por interesses econômicos e sociais, escondidos sob os signos da amizade.
Outra circunstância que chama atenção está no amor que esse nutria por Maria Luísa. A partir da observação rotineira de seus modos e dotes que, como já foi mencionado, era típico de uma mulher burguesa, o enquadramento de Garcia a uma classe mais alta ficaria completo. “(...) Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove” (ASSIS, s/d, p. 04). Ter “ambos os feitiços”, nesse caso, poderia representar possuir uma mulher que, além de ser bonita, continha hábitos adequados para sua ambição social.
Nesse sentido, a definição de amor que Garcia sentia pela esposa de Fortunato fica desfigurada. O que pode estar eclipsado aqui também pode ter uma conotação patológica na medida em que o personagem, mesmo impossibilitado de casar-se com Maria Luísa, continua observando-a e convivendo com a ideia matrimonial, em prol, talvez, não de um pressuposto romântico, mas de sua própria ganância social. Por fim, na última cena ambientada entre Garcia e a sua musa esse personagem continua por analisar o cadáver da mulher, beijando-a no final. O que há de incomum nesse caso é o fato de que estando Maria Luísa viva ou morta
ele a observa sempre de forma atenta, nutrindo, a partir disso, um constantemente sofrimento, através de seus olhos.
Voltando aos primeiros parágrafos, onde já se levantava a dúvida de que Garcia também poderia possuir algum desvio psicológico (através da escolha do teatro, pela obsessão em analisar uma pessoa que era ainda desconhecida e pelo fato de, mesmo sentido repugnância em ver Fortunato tratar de Gouveia, continua a observa-lo), torna-se, agora, possível estabelecer uma relação com os fatos aqui analisados. Em consonância com a sua sempre atenta observação, estão, na maioria dos casos, o sofrimento e a dor. Curiosamente, mesmo que a visão desse tipo de sentimento também lhe afete, seus olhos não mudam de direção.
Compartilhando a ideia de Marciano Lopes e Silva (s/d), a conclusão a que se chega, em relação às formas de se portar do personagem Garcia, é a de que se trata de um sadomasoquista, sempre em busca de sensações de sofrimento para lhe preencher a alma. Nesse sentido, ainda conforme Marciano Lopes e Silva (s/d).
Garcia é um duplo de Fortunato, pois reproduz seu comportamento sádico, o mesmo acontecendo com o narrador do conto, que observa a todos com a mesma frieza e impassibilidade que caracterizam o olhar de ambos. Fortunato disseca animais e delicia-se observando o sofrimento dos enfermos, assim como observa friamente o sofrimento de Maria Luiza. Ambos são dissecados e observados por Garcia, que também é observado e dissecado pelo narrador. Nesse jogo de reflexos mise en
abîme, Machado de Assis estende a relação ao infinito, de modo a abranger também
a figura do leitor, último observador da cadeia de relações no processo de leitura (p. 09).
Esse paradoxo que se estabelecia entre as normas propagadas pelo cientificismo oitocentista e o que Machado de Assis acreditava ser a representação da verdadeira ciência (com a representação do inconsciente e dos impulsos humanos e que, possivelmente, estava presente no quotidiano de muitas pessoas do século XIX) configurava parte da visão que o autor tinha em relação ao seu meio.