• No results found

Um dos principais atributos encontrados em uma distância artisticamente metafísica, tal como exposta anteriormente, está em seu modo de idealizar a vida. A atitude de idealizar

implica, neste momento, um distanciamento e um afastamento da realidade, e, inclusive, um movimento contrário àquele que estava contido em se “tornar bons vizinhos das coisas mais

próximas” (AS, §16), ou seja, um movimento de aproximação.

Uma distância realizada no âmbito da arte, mas que não continuasse a idealizar a vida, poderia implicar em uma redução do caráter metafísico da distância naquela esfera. Ao longo do segundo período das obras de Nietzsche (1876-1882), é possível perceber uma certa mudança deste tipo de distância, mudança esta que, longe de ser linear, apenas atesta a multiplicidade de perspectivas que o referido autor possui sobre o tema da arte.

Em Humano, demasiado humano I, por exemplo, embora a característica de idealização esteja relacionada à arte e a uma distância neste âmbito, pode-se perceber uma tênue diferença, quando Nietzsche esboça um outro modo de aliviar a vida. Como falado acima, Nietzsche criticará um tipo de alívio de vida que ocorra através de idealizações, o que acontece em HH I, §279. A tênue diferença desta perspectiva acontece ao se tratar do modo como “os poetas” tornam “a vida mais leve”: “Na medida em que também querem aliviar a vida dos homens, os poetas desviam o olhar do árduo presente ou, com uma luz que fazem irradiar do passado, proporcionam novas cores ao presente” (HH I, §148). A saída dos poetas, conforme o aforismo, não é mais aliviar a vida através de uma idealização. O que ocorre agora é um “desvio do olhar”, em que são oferecidas “novas cores” ao “árduo presente”: a idealização, neste caso, ocorreria se fosse pretendido construir um novo presente. Este novo movimento de desvio artístico – “desvio do olhar”, realizado pelos poetas, que oferecem “novas cores” ao presente – já aponta para algo além de uma simples distância metafísica, ou além de uma distância artisticamente metafísica. A distância advinda da arte, agora, parece querer despir-se do seu caráter metafísico, buscando, neste momento, outros artifícios para tornar a vida mais leve, para tornar o presente menos “árduo”. Entretanto, mesmo este alívio artístico da vida realizado pelos poetas, que não ocorre por idealizações, ainda não é visto sem críticas por Nietzsche: “Certamente há coisas desfavoráveis a dizer sobre os seus meios de aliviar a vida” (HH I, §148). O que parece ocorrer a partir de Humano, demasiado humano I é uma tentativa de se observar não apenas “coisas desfavoráveis” nos “meios de aliviar a vida” empreendidos pelos artistas, o que significará, também, não observar a distância no âmbito da arte somente como uma distância artisticamente metafísica.

Em Aurora, no aforismo 216, a distância no plano artístico é analisada novamente sem ser verificada uma forte relação com o âmbito metafísico. Apresentam-se, neste aforismo, certas consequências psicológicas e sentimentais que a distância no plano artístico implica no

indivíduo. A situação exemplificada por Nietzsche, para expor aquelas consequências, consiste na percepção de que as pessoas “desconfiadas, más e biliosas” são justamente aquelas que desenvolvem, em certa etapa de suas vidas, a “plena ventura do amor” e a “confiança absoluta” que há no amor (A, §216). A justaposição entre maldade e desconfiança que há na caracterização daquele tipo de pessoas sugere uma certa relação, na medida em que aqueles que não conseguem confiar nos outros – e portanto não conseguem amar – são os mesmos que agem de forma má para com eles: em geral, portanto, aquelas pessoas sentem ódio, desconfiança e desgosto pelos outros. Contudo, em determinado instante, aquela desconfiança é suprimida por uma “confiança absoluta”, por um amor. No momento em que se percebem desenvolvendo este sentimento de “exceção de sua alma”, tais pessoas são silenciadas e até oprimidas, durante seu silêncio, pela “confiança absoluta” no amor: elas ficam paralisadas diante de tamanho sentimento, de tamanha felicidade (A, §216). Parece que toda esta emoção provoca um peso nunca antes sentido em suas almas, que necessitariam de um meio para tornar as suas vidas mais leves, para aliviar as suas vidas, para diminuir o peso do seu amor. E o meio para tal feito será, tal como anteriormente, artístico; mais precisamente: através da música.

[...] pois através da música, como por uma névoa colorida, veem e ouvem seu amor como se ele ficasse mais distante [ferner], mais tocante, menos pesado; música, para elas, é o único meio de observar seu estado extraordinário, e só então, com uma espécie de distanciamento [Entfremdung] e alívio, participar da visão dele. Todo amante pensa, ante a música: “fala de mim, fala em meu lugar, sabe tudo!”. – (A, §216)

O sentimento do amor, enquanto um “estado extraordinário” para aquele tipo de pessoas (“desconfiadas, más e biliosas”), torna-se “menos pesado” quando o indivíduo é afetado pela música e pela distância que ela provoca sobre aquele “estado” sentimental (A, §216). Este distanciamento [Entfremdung101] é um alheamento, ou seja, um ver a si mesmo como outro, a partir do outro ou na perspectiva do outro. O indivíduo só conseguirá “participar da visão” daquele seu sentimento, ou seja, romperá aquele silêncio provocado por este mesmo amor, quando tiver condições de observá-lo, o que acontece nesta “espécie de distanciamento e alívio” provocados pela música (A, §216). Ou seja, a ideia inicial de que “a confiança absoluta emudece a pessoa”, ou seja, de que o amor silencia, em um primeiro momento, aqueles que são desconfiados, é substituída pela sensação de que há uma voz que produz sons agradáveis – “pois através da música [...] veem e ouvem seu amor” –; o pesado silêncio é trocado por uma melodia que traz leveza (A, §216). A distância musical, se for possível chamar desta forma, produz um

101 Este termo advém de entfremden, que significa “alienar, alhear”. Sendo assim, Entfremdung também poderia ser traduzido por “alienação” ou “alheamento”.

alívio da vida naquele indivíduo que não consegue suportar – e silencia – um sentimento ou um estado que nunca antes sentiu em sua vida.

Esta distância atrelada ao universo da música reaparece em Aurora, quando Nietzsche escreve “[...] quando amei e senti mais a música, vivia longe [ferne] dela” (A, §485). Não se está falando mais aqui de um alívio da vida, mas de um tornar bela a própria música, de amá- la e senti-la de forma mais profunda. Isto pode ocorrer não apenas na música, o que se verifica a partir da continuação daquele mesmo aforismo: “Parece que necessito de perspectivas distantes [die fernen Perspectiven] para pensar bem das coisas” (A, §485). Ter uma “perspectiva distante”, ou viver longe de algo, neste contexto, podem resultar em uma reinterpretação do mundo e da realidade que lhes tornarão (o mundo e a realidade) mais belos e, neste sentido, mais artísticos.