Para pensarmos uma análise de documentos, remetemo-nos inicialmente no primeiro capítulo aos debates de Foucault (2009a) sobre a arqueologia do saber em seu livro homônimo. Nele é discutido sobre a relevância da análise dos discursos, bem como sobre suas condições de formação sem desligá-lo das suas práticas não discursivas, as quais se constituem pelo poder em seus aspectos econômicos, políticos e sociais. Realizar então a análise desses discursos presentes nos documentos implica também em analisar seus enunciados, discursivos ou não, cujas descrições constroem esta arqueologia referida por Foucault.
Os enunciados mostram-se partes elementares na composição do discurso, as quais marcam uma função enunciativa, e não são equivalentes a frases ou expressões, pois não constituem unidades linguísticas. A partir disso, constituímos então no tecido documental séries, relações, conjuntos, relacionados a um campo de objetos (FOUCAULT, 2009a), discutido no início do capítulo 1.
Esses objetos podem fazer-se como documentos, assim como os que temos descrito nesta pesquisa , que evidenciam as atuações da agência do UNICEF sob modos de práticas (VEYNE, 2003), consideradas algo à parte de um motor oculto ou um subsolo da historicidade. Estas práticas, portanto, também constroem os objetos e encontram-se nas modificações históricas, a partir das quais descrevem as práticas de maneira pormenorizada e com ―contornos pontiagudos‖ sobre as ações que descreve. Para Foucault, as coisas consistem
em objetivações de determinadas práticas (VEYNE, 2003), sob as forma de pistas de um método que analisa as suas condições de emergência é a sua proposição.
Tais práticas envolvem a produção do discurso (FOUCAULT, 2005a) como uma materialidade forjada na ordem das leis, nas práticas imanentes do mesmo, discursos estes vinculados aos exercícios diversos de poder, a lugares institucionais móveis vinculados a posições de sujeito que se deslocam também. A partir das práticas, discursivas ou não, podem ser discutidos os seus respectivos conjuntos de discursos, os quais se configuram por contingências históricas e se encontram em deslocamento, circunstâncias essas sustentadas por um diversificado sistema de instituições que as impõem e reconduzem, além de legitimarem ―verdades‖.
A genealogia propõe-se a problematizar esses regimes de verdade, suas práticas emergentes, considerando os saberes e poderes relacionados à subjetivação – processo de como os seres humanos tornam-se sujeitos (FOUCAULT, 1995), alvo principal de Foucault nos seus anos de estudos e pesquisa, apesar de muitos acharem se tratar da temática do poder, também considerada relevante pelo autor. Afinal, o poder opera um conjunto de possibilidades e joga com a relação entre os indivíduos e grupos.
O termo poder já nos remete a um conjunto de relações que induzem umas às outras e tornam-se ―parceiras‖. Assim, o poder existe em ato, portanto, até seu fim, é preciso manter o sujeito de ação (FOUCAULT, 1995); caso contrário, se há o impedimento do sujeito, caracterizará violência. O poder então se faz produtivo, pois, aliado ao saber, efetua ações sobre ações que agenciam corpos e materializam potências, afetos, exercícios.
Ele se exerce em rede (FOUCAULT, 2008b) sobre estes corpos, tanto o corpo dos sujeitos quanto o corpo social. Os acontecimentos inscrevem-se nesse corpo. A partir de encontros, as forças, potências e afetos materializam o corpo e suas marcações históricas. A genealogia, neste sentido, mostra uma tensão do corpo com a história na forma desse corpo marcado e arruinado por essa historicidade.
Foucault (2008b) considera o poder como um feixe aberto de relações, coordenado minimamente e de modo estratégico. Neste sentido, o autor indica a realização de uma analítica do poder, com o objetivo de notar como as estratégias do poder cruzam-se e se articulam quando em condições de exercício, seja em microrrelações de poder desiguais ou em dinâmicas estáveis. A esse autor interessa a circulação dos efeitos e jogos configurados pelo poder, ou seja, sua positividade, seus produtos, saberes, prazeres, discursos, instituições, subjetivação; os sistemas de poder promotores de regimes de verdades.
Logo, realizar uma genealogia corresponde a analisar as relações de poder, saber e subjetivação, juntamente as suas práticas discursivas ou não, além dos seus acontecimentos, rupturas, enunciados, objetos, estratégias, contradições. É
[...] preciso se livrar do sujeito constituinte, livrar-se do próprio sujeito, isto é, chegar a uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica. É isto que eu chamaria de genealogia, isto é, uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios do objeto, etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com relação ao campo dos acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história. (FOUCAULT, 2008b, p. 7)
Genealogia, não em consonância com o sentido do termo como um estudo uma origem histórica, contudo, trata-se do estudo de uma emergência não linear, sem uma finalidade ou um antecedente único (LEMOS & CARDOSO JÚNIOR, 2009), pois o objetivo dela é romper a conexão causal e linear entre os acontecimentos na qual a história é contada como uma progressão de fatos ao longo do tempo, além de romper com o sujeito constituinte fundado por uma essência.
Desta maneira, a genealogia mira nos espaços para análises das rupturas, frestas, deslizes, ranhuras, a fim de destituir um modo hegemônico de fazer história (FOUCAULT, 2008b), com heróis e grandes acontecimentos, para a produção de uma história menor, analisadora dos acontecimentos de modo microfísico e também analisadora da situação presente com a qual lidamos.
Foucault realiza, por meio de uma microanálise, os agenciamentos produtores de processos de subjetivação, unificações, totalizações das linhas que desenham os mapas das cartografias da microanálise. Ele busca o que chamou de atualidade, esse referido presente, que está por diversas vezes em formação, emergente, e sem uma pretensão de eternidade (DELEUZE, 2007). Contudo, não há procura por uma origem das coisas, e sim como ocorrem suas formações, de modo a alcançá-las no meio do caminho desta construção e, por isso, considerá-las rachadas, sem uma totalidade originária.
A partir disso, nesta presente pesquisa, propusemo-nos então a realizar análise genealógica das práticas do UNICEF e, por esta maneira, analisaremos no próximo item os principais tipos de poder envolvidos nas produções de influências desta agência direcionadas a corpos de crianças das nações de diversas partes do mundo.