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6. ANERKJENNELSE SOM ET VIKTIG PERSPEKTIV

6.1 Anerkjennelse gjennom respektfull holdning

A escola tem se constituído como uma necessidade fortemente evidenciada pelos A’uwê de Marãiwatsédé. Quando uma das lideranças, José Arimatéia, foi questionada sobre a presença da escola na comunidade, disse que seria impossível viver sem ela, uma vez que é fundamental para o povo Xavante por três motivos: “[...] estudar para prevalecer a

119 cultura, estudar para a autodeterminação e estudar para lutar pelos direitos na relação com o mundo dos brancos. Cada dia as coisas mudam dentro e fora da aldeia e a escola pode ensinar sobre estas mudanças”. (José Arimatéia Tserewamriwẽ, entrevista realizada em 10 de agosto de 2012).

Nessa perspectiva, reafirma Rosa (2008), “Os Auwê manifestam preocupação em conviver no mundo waradzu e na apropriação de elementos que possam auxiliar esse trânsito entre culturas diferentes”. (ROSA, 2008, p.92). Para Luciano (2011) a escola funciona como mecanismo de aproximação e interação com o mundo extra (aldeia global) e, portanto, deixa de ser vista como instrumento preferencial de fortalecimento ou resgate de culturas e identidades tradicionais, como alguns pressupõem, como escola diferenciada.

Assim, a família e a sociedade A’uwẽ têm sido primordiais para a transmissão da cultura e da identidade, utilizando-se, para isso, de seus próprios instrumentos de transmissão dos conhecimentos e dos valores.

Segundo Paridzané e Giacaria (2012), o primeiro contato com o universo escolar dos A’uwê Marãiwatsédé se deu na aldeia São Marcos:

Quando o grupo de Marãiwatsédé chegou em São Marcos, passado a epidemia de sarampo os que tinham idade foram para a escola, eles aprendiam, pois muitos de nós professores salesianos já sabíamos a língua xavante e também tínhamos monitores xavante e fico feliz que muitos dos monitores se formaram e hoje são os professores da escola de São Marcos.” O cacique Damião estudou na escola. Estudava a língua portuguesa, não tinha entrada ainda a 1ª cartilha bilíngue foi feita em 1977. Pois na ideia da FUNAI tinha que aprender português para morar na cidade. A máxima naquele tempo (ditadura) era integrar, tirar todos do campo e colocar na cidade era que o governo tenha o controle. (Pe Giaccaria, entrevista realizada em 25 de setembro de 2012).

Paridzané conta que, paralelo a sua estadia no Hö, frequentava a escola em São Marcos:

Eu estava estudando na aldeia São Marcos, estudei por 10 anos, até 6ª série, mas minha cabeça está aprendendo cada vez mais, aprendendo caminho, conhecendo os caminhos para lutar a favor das comunidades indígenas. Quando terminou a furação de orelhas, festa nossa quando era moço, foi em 1974. (Damião Paridzané, entrevista realizada em 5 de junho de 2012).

Sobre a presença dos Wapté na escola, os professores descrevem em relatório do I encontro da comunidade escolar de Marãiwatsédé:

Na verdade a educação do povo xavante e mais difícil para o não índio e para as mulheres xavante. Assim a educação do povo xavante que vem dos nossos ancestrais e até hoje existe para o wapté. Quando a educação do não índio começa antes deles entrarem para a escola o padrinho vai aconselhar

120 bastante para respeitar seu professor e as meninas e funcionarias da escola. Por que o pai do wapté vai querer que o filho estude; por isso, o padrinho o libera para a escola e o professor cuida dele.

Quando chega na sala de aula o professor vai dividir o wapté e sentar no meio de frente para o professor, no meio senta os jovens com orelha furada e no fundo as meninas.

Então o professor vai falar com seus alunos, que como eles estão misturados tem que respeitar os outros não mexer nas coisas do wapté e a escola é a segunda educação para o povo xavante. Ele vai falar também para o wapté, se ele tiver alguma dificuldade, chamar o professor com respeito e não ter medo de perguntar as coisas ao professor, pois ele precisa aprender para defender seu território, documentário e não perder a cultura.

Por isso, professor tem que falar para seus alunos wapté não ficar com a boca fechada para tirar suas duvida e não ter vergonha de seus colegas. A escola vai ajudar na vida deles por isso tem que estudar sem ser tímido e a escola também vai dar a ele o conhecimento. (Relatório dos professores – I encontro da comunidade escolar – 2011)

Assim, o comportamento que a comunidade espera dos wapté independe do espaço em que ele se encontra, mesmo que a escola seja considerada como um espaço que tem sua origem no mundo do Waradzu.

Na Aldeia Água Branca, TI de Pimentel Barbosa, onde os A’uwẽ Marãiwatsédé permaneceram por, aproximadamente, 20 anos, a escola era municipal, denominada como EMEB Água Branca. Contava, em 2003, com, aproximadamente, 200 alunos, sendo que Carolina ‘Rẽwaptu é a mais antiga professora; trabalhou desde essa época e foi professora contrata pelo município de Canarana por, 15 anos. Junto com ela, também foram professores na Aldeia Água Branca, Leonardo, José Arimatéia, Lázaro, Davi, todos estão em Marãiwatsédé, porém José Arimatéia e Davi exercem outras funções na comunidade.

Em 2004, quando se instalou a Aldeia Marãiwatsede, os pais ficaram preocupados com a falta de atendimento escolar dos filhos, uma vez que não tinham como estudar. Isso fez com que se reunissem para discutir a necessidade de terem uma escola. Em 2005, segundo ‘Rẽwaptu (2012), foi criada, na aldeia Marãiwatsédé, uma escola municipal construída pela comunidade, a fim de que os filhos pudessem estudar.

Posteriormente, por decisão da comunidade, a escola passou para a esfera estadual, cuja autorização se deu no dia 17 de março de 2006, por meio do Decreto Publicado no Diário Oficial do Estado sob o número 7228. Um dos motivos da mudança de esfera dizia respeito à necessidade de ter maior autonomia por parte da gestão e, também, para atender, além da educação fundamental, também o Ensino Médio. Com isso, a educação infantil ficou sob a responsabilidade do município.

121 Foto 53 - EEI Marãiwatsédé

Data: 22 de fevereiro de 2011 Autora: Ana Paula Lopes

A escola municipal, segundo o coordenador Vanderlei Temirite (2012) teve, em 2012, aproximadamente 150 alunos matriculados. Porém, segundo ele, o atendimento ainda é bastante precário, visto que carece “[...] de prédio escolar, de material didático e de formação dos professores”. (Vanderlei Temirite, entrevista realizada em 28 de maio de 2012)

Segundo dados levantados junto à Assessoria Pedagógica/SEDUC/MT de Bom Jesus do Araguaia, a Escola Estadual Marãiwatsédé, em 2012, tem 330 alunos matriculados e conta com um quadro formado por 16 professores. Destes, 6 não possuem formação em docência, 1 desempenha a função de coordenador pedagógico e 1 exerce a função de direção.

Em relação aos alunos, os estudos de ‘Rẽwaptu dizem que:

Quando o aluno chega à escola, ele é muito tímido não fala. Faz só os trabalhos que precisa, participa com os outros alunos, menos com o professor se ele for parente, mas tem respeito pelo professor na escola. Essa maneira de agir do aluno está relacionada com a cultura Xavante que tem que ser respeitada. Assim os alunos aprendem a valorizar o meio em que vivem e a escola trabalha com os conhecimentos culturais tradicionais e os universais. (‘RẼWAPTU, 2010, p. 41)

122 Para ‘Rẽwaptu (2012), o grande desafio da educação ainda está em conciliar os conhecimentos tradicionais às mudanças e aos novos conhecimentos necessários à vida, advindos do contato com o não índio.

A educação escolar nas aldeias é muito importante para nós povos indígenas, mas é diferente da educação tradicional que se pratica hoje em dia. Às mudanças são uma preocupação do povo com a cultura no futuro, que mais para a frente às novas gerações possam continuar no mundo globalizado sem deixar para trás os seus costumes tradicionais, essa é uma reflexão feita pelos mais velhos da aldeia Maráiwatséde, pensando como a escola irá trabalhar com essa diferença das relações de parentesco. (‘RẼWAPTU, 2010, p. 41)

Para isso, ela conta com o apoio da comunidade, em especial, dos anciãos.

Foto 54- Francisco Tsipé conversando com os estudantes Fonte: acervo da professora Carolina Rewaptu

Este capítulo privilegiou um olhar mais abrangente a respeito da educação e da constituição do “ser” Auwẽ Uptabi que acontece em diferentes tempos e espaços. No próximo capítulo, tentaremos discutir o início de um caminho ainda que bastante complexo para tentar constituir uma proposta de educação escolar que atenda ao ideal A’uwê Marãiwatsédé, que consiste em manter a tradição cultural do povo Xavante e que contemple também o acesso aos conhecimentos da cultura geral. Para isso, contaremos com o auxílio de um quadro de professores que atuam na escola estadual e de uma parte significativa da comunidade.

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3 PERSPECTIVA PARA ELABORAÇÃO DE UMA PROPOSTA CURRICULAR

PARA MARÃIWATSÉDÉ

Este capítulo tem como objetivo desencadear uma discussão sobre o processo de elaboração do currículo junto à comunidade de MARÃIWATSÉDÉ. A experiência foi vivenciada, durante o período de fevereiro de 2011 a setembro de 2012. Os debates foram motivados pela perspectiva de construir um currículo que atendesse às necessidades – tanto locais quando global – da comunidade, a partir da articulação dos saberes da cultura A’uwẽ Marãiwatsédé e os da cultura escolar, vislumbrando constituir um novo saber.

Para contextualizar, iniciamos com um breve percurso acerca da história da educação indígena, no Brasil, e das políticas públicas que foram sendo conquistadas, mais especificamente, a partir da abertura política. Em seguida, apresentamos um pouco da legislação que trata da educação dos povos indígenas em meio às proposições para se construir uma proposta curricular que atenda às especificidades e anseios dos diferentes povos que fazem parte do território mato-grossense. Nesse sentido, tratamos dos elementos instrumentalizados para elaborar uma proposta curricular, a partir da política empreendida pelo governo estadual – ciclo de formação humana - colocando-a em diálogo com as fases de vida A’uwẽ Marãiwatsédé. Para isso, faz-se necessário conhecer os fundamentos desses ciclos, o que eles significam e como estão sendo trabalhados, a fim de desencadear uma proposição articulada com os diferentes saberes – do cotidiano e aqueles sistematizados – de forma que um não aconteça em detrimento do outro.

Daí a importância da escola, como instituição educativa, considerar os saberes socialmente construídos na prática grupal com os quais os educando chegam a ela, e estabelecer relações com os conhecimentos historicamente construídos e re-elaborados ao longo da história. (RIBEIRO M., 2005, p.47)

Para finalizar, realizamos uma discussão a respeito do complexo temático, por meio de um estudo socioantropológico que visa levantar as questões da comunidade de Marãiwatsédé e a definição do fenômeno/problema proveniente de tal realidade.