• No results found

Andre undersøkelser som forteller oss noe om klima i Norge på 1900-tallet

4.4 Norge på 1900-tallet

4.4.5 Andre undersøkelser som forteller oss noe om klima i Norge på 1900-tallet

A Historia Compostellana não se refere diretamente à batalha de 24 junho de 1128, que aconteceu perto de Guimarães, mas alude à expulsão de Fernão Peres de Trava de “Portugal” por Afonso Henriques, sendo esta a primeira informação que se encontra na crónica sobre o infante. O redator menciona a sua linhagem, como é habitual na cronística medieval – é filho do conde D. Henrique e de D. Teresa –, e o facto de ter obtido o território portucalense, tirando-o pela força a Fernão Peres. Ao mesmo tempo, é dito que o conde galego vivia em adultério com D. Teresa até ao momento em que foi expulso desse território, onde “atuava como príncipe”190

.

É significativo que se mencione este acontecimento para fazer a apresentação de Afonso Henriques, já que o assunto principal do capítulo é claramente o conflito que este teve com o rei Afonso VII. Parece funcionar como uma contextualização introdutória do que se vai narrar a seguir, informando acerca da origem do infante e de como tinha chegado ao poder, mas não é simplesmente uma informação acessória. Na verdade, estamos perante um testemunho de grande valor histórico acerca de um dos principais episódios da História de Portugal da primeira metade do século XII. Em primeiro lugar, porque demonstra o significado que esta contenda teve para o meio compostelano, ou seja, podemos observá-la de um ponto de vista que é galego, e, em segundo lugar, porque se trata de um registo mais ou menos contemporâneo do

189 A bibliografia sobre Afonso Henriques é já extensa. Além dos trabalhos que vão sendo citados no

decurso desta análise, consoante os temas abordados, remetemos agora para a biografia mais completa do primeiro rei português, da autoria de José Mattoso: MATTOSO, José – D. Afonso Henriques, 2006.

190 “Portugalensis infans, Enrici comitis filius, nomine A., acquisita Portugalensi patria, et Fernando

Petride, Petri comitis filio, qui, relicta sua legitima uxore, cum matre ipsius infantis regina Tarasia tunc temporis adulterabatur et toti illi terre principabatur, ui ablata, magnam dissensionem et magnam guerram cum rege A., Raimundi comitis et domine regine U. filio, habuit” (HC, III, 24).

65

acontecimento. De facto, o cónego Pedro Marcio, escrevendo este episódio algures entre 1145 e 1149, já se encontraria na Igreja de Compostela quando aconteceu a batalha, ou integrou a instituição não muito depois, existindo a forte possibilidade de ter acompanhado o desenrolar dos acontecimentos desde a sua sede compostelana, ou pelo menos o seu desfecho e o exílio de Fernão Peres e de D. Teresa na Galiza191.

Atentando novamente na passagem, o cronista reduziu esta batalha a uma luta pelo poder entre dois chefes, atribuindo um protagonismo a Afonso Henriques, ao contrário do que fazem outras narrativas, cuja imagem do primeiro rei português é algo desprestigiante192. Além disso, sabemos que D. Teresa esteve do lado contrário ao do filho no confronto, mas o seu papel é ignorado, o que contrasta com o protagonismo militar da condessa que se constatou noutras ocasiões. Para o cronista, o que sobressaiu desse acontecimento foi a oposição entre o conde de Trava e o infante, o afastamento do primeiro do condado e a superioridade militar do segundo.

A historiografia contemporânea já não entende a batalha de S. Mamede desta forma, e tem-na interpretado como uma ação coletiva, que começou a formar-se muito tempo antes do conflito bélico, e cuja iniciativa partiu de um conjunto de barões portucalenses e não do infante isoladamente, que deixou, com o tempo, de ser mitificado como um herói da batalha193. No entanto, para se compreender a representação que o redator fez

191 López Alsina admite que Pedro Marcio tenha ingressado na Igreja de Santiago de Compostela

como cónego em 1127, mas estende o intervalo de possibilidades até 1130 (LÓPEZ ALSINA, Fernando –

La Ciudad de Santiago de Compostela…, p. 95-96).

192 José Mattoso estudou o significado social atribuído à batalha por algumas narrativas medievais,

que se empenham em apresentar um papel preponderante da aristocracia portucalense nesse acontecimento, a quem o primeiro rei português devia o seu poder. Sobre este tema, veja-se MATTOSO, José – D. Afonso Henriques, p. 47-48 e MATTOSO, José – “A primeira tarde portuguesa”, p. 12-13.

193 Muito menos o acontecimento é visto na atualidade como uma manifestação do sentimento

nacional dos portugueses ou como uma oposição radical entre portugueses e galegos, até porque havia membros dos dois grupos em ambos os lados da contenda. Certas fontes deram origem a interpretações de carácter nacionalista em tempos mais recuados, hoje praticamente abandonadas. A batalha é antes caracterizada como o corte que definitivamente representou em relação à ideia de reconstituição do antigo reino da Galiza. Com efeito, o que tem sido realçado é a consciência de grupo com interesses próprios que já se estava a formar neste período, que representou de facto um movimento autonomista, cujo objetivo foi o de lutar contra uma intervenção política de alguém que era exterior ao condado. Neste sentido, Maria João Branco refere-se à batalha como “o primeiro passo verdadeiramente relevante para a cisão de Portugal do reino de Leão” (veja-se a sua interpretação do acontecimento em SILVA, Maria João Violante Branco Marques da – “Portugal no reino de León…”, p. 596-605). Consulte-se o importante contributo de José Mattoso para a compreensão da identidade dos portucalenses e dos galegos, dentro do grupo aristocrático (MATTOSO, José – “A nobreza medieval galaico-portuguesa…”, p. 171-196). Deve consultar-se o mesmo autor sobre a evolução da aristocracia portucalense desde o início do século XI, de modo que se compreenda melhor o movimento coletivo levado a cabo contra a ingerência de Fernão Peres na política do território (MATTOSO, José – “A primeira tarde portuguesa”, p. 11-35). Leiam-se também os comentários sobre esta batalha de António Resende de Oliveira (OLIVEIRA, António Resende de – “Do Reino da Galiza ao Reino de Portugal…”, p. 28-30) e de A. de Almeida Fernandes (FERNANDES, A. de Almeida – “Guimarães, 24 de junho de 1128”, p. 5-145). Este último artigo é bastante minucioso no que respeita aos antecedentes da batalha, desde o início da relação de D. Teresa

66

do evento, é necessário refletir sobre o significado que teve, principalmente, para o arcebispo compostelano, e o modo como este encararia o novo governante de “Portugal”.

Com efeito, esse momento seria um marco cronológico importante não só para os Travas, cujos projetos de uma Galiza reunificada ficavam, assim, gorados, mas também para Diego Gelmírez, que desde Compostela observaria com inquietação a mudança de forças que se operava a sul do Minho. A autoridade de um dos seus inimigos e mais poderosos galegos, que se fizera sentir fortemente nesse espaço na década de 20, no governo de D. Teresa, terminara com a chegada de Afonso Henriques à chefia do condado. Sem significar uma oposição aos galegos no âmbito geral, S. Mamede assinala o fim da ingerência dos Travas nas altas instâncias do poder do condado portucalense e o regresso das famílias mais destacas deste território à corte e aos cargos que tinham ocupado no tempo de D. Henrique, pelo que, a partir de agora, os interesses dessa aristocracia estavam bem representados junto do infante194.

Esta mudança fazia-se sentir identicamente a nível eclesiástico, anunciando um retorno à política eclesiástica promovida por seu pai, nomeadamente no apoio concedido à Sé de Braga. Para elucidar esta questão, basta referir-se a proximidade entre Afonso Henriques e os arcebispos bracarenses Paio Mendes (grande opositor de Gelmírez, como veremos) e João Peculiar.

Afonso Henriques representaria, sob vários aspetos, um regresso aos tempos do seu pai, significando para Gelmírez que as suas próprias relações com “Portugal” não poderiam continuar a ser as mesmas que tinham sido durante o governo da condessa D. Teresa, que se mostrara permeável à influência galega. O que terá sido realmente importante para ele foi a mudança que se deu no poder do condado portucalense, o que justifica, em grande parte, que tenha sido registado na crónica um confronto entre o galego que foi afastado e o portucalense que subiu ao poder.

com os Travas até ao período que sucedeu a S. Mamede, apesar de conter ainda algumas ideias herdadas da historiografia do Romantismo acerca da natureza daquela relação.

194

Apesar disso, as relações entre Fernão Peres e Afonso Henriques não foram eternamente pautadas pela rivalidade. Em 1130, o galego aparece como confirmante de documentos do infante e, no princípio de 1131, vem a Coimbra fazer uma doação para sufragar a alma de D. Teresa, que falecera no ano anterior (MATTOSO, José – D. Afonso Henriques, p. 68). Além disso, Fernão Peres ganhou um lugar preponderante junto de Afonso VII depois desta batalha. Aliás, durante todo o século XII, várias linhagens entraram em Portugal, sobretudo vindas da Galiza, muitas das quais estavam associadas aos Travas. Este assunto foi estudado por José Mattoso e José Augusto de Sottomayor Pizarro. Leia-se, respetivamente, MATTOSO, José – “A nobreza medieval galaico-portuguesa. A identidade e a diferença”, p. 171-196 e PIZARRO, José Augusto de Sottomayor – “De e para Portugal. A circulação de nobres na Hispânia medieval (séculos XII a XV)”, especialmente p. 915-916.

67

A interpretação que José Mattoso e Torquato de Sousa Soares fazem da intervenção de Fernão Peres em “Portugal”, a partir de 1121, vai um pouco mais longe, uma vez que os dois autores associam a ação política e militar do conde galego neste território com a intromissão do arcebispo nos assuntos portucalenses, apesar da inimizade que existiu entre os dois em vários momentos195. Deste modo, a ingerência política dos Travas e a de Diego Gelmírez no condado portucalense seriam duas faces da mesma moeda, o que significa que a batalha de S. Mamede teria sido igualmente uma ação contra o poder do prelado, embora indiretamente. Em qualquer caso, o regresso do conde de Trava à Galiza constituiria um obstáculo ao poder que o arcebispo exercia nesta região, e também por isso não é possível que tivesse ficado indiferente ao acontecimento.

Por outro lado, mesmo que tudo indique que a permanência de Fernão Peres em “Portugal” agradaria a Gelmírez, a passagem não deixa de transmitir uma representação negativa do conde de Trava. Já anteriormente o mestre Geraldo associara Fernão Peres a D. Teresa num capítulo e referira o conde galego como “cônsul em Portugal” noutro196. Nesta passagem, Pedro Marcio não hesita em escrever que era ele quem realmente dominava no condado. Contudo, dá a entender que não o fazia de forma legítima, pois aqui “atuava como príncipe”, ou seja, não tinha o poder de príncipe de jure, mas na realidade exercia a sua autoridade desse modo. Além disso, na perspetiva da crónica, a relação que mantinha com D. Teresa era ilícita (“adulterabatur”), o que lhe retirava imediatamente legitimidade para governar “Portugal”, pois era a condessa quem realmente detinha o direito de o chefiar, e só através de um casamento legítimo o galego poderia exercer esse governo sem contestação. Aliás, nada é dito sobre o poder de D. Teresa nesta passagem, portanto, na ótica de quem escreve, apesar de ser referida várias

195

Para José Mattoso, o que incomodaria a aristocracia portucalense seria o facto de Fernão Peres, além do seu próprio poder, estar associado ao “imperialismo” do arcebispo compostelano (MATTOSO, José – “A primeira tarde portuguesa”, p. 22-23. Veja-se também MATTOSO, José – “1096-1325”, p. 50). Para Torquato de Sousa Soares, a vinda do galego para o condado portucalense poderia ter sido o resultado de um entendimento entre o seu pai, o conde Pedro Froilaz, Afonso Raimundes e o próprio Diego Gelmírez (SOARES, Torquato de Sousa – “O governo de Portugal pela Infanta-Rainha D. Teresa…”, p. 114-115, nota 72).

196 O primeiro diz respeito ao já referido pacto entre Gelmírez e outros príncipes da Galiza para poder

recuperar os castelos retidos por Urraca, em 1121, onde D. Teresa e Fernão Peres surgem lado a lado na enumeração dos colaboradores do arcebispo (HC, II, 42). No segundo caso, o castelo de Faro, um dos castelos retidos por Urraca, passou depois a ser retido por Bermudo Peres. Gelmírez recuperou-o e entregou-o a Fernão Peres, irmão do primeiro, que o delegou no cunhado, Munio, quando foi para “Portugal”: “Deinde archiepiscopus, consilio habito cum canonicis dederat idem castellum Fredenando eiusdem Veremudi fratri (…) Denique idem Fredenandus cum adiret Portugalliam, commendauit idem castellum comiti M. leuiro suo, accepta fide ab eo quod, postquam preciperet reddi, illud absque aliqua contradictione archiepiscopo uel eius canonicis redderet. Post hec temporis interuallum processerat, et ad recuperandum castellum archiepiscopus propensius anhelans tam per litteras quam per nuntios predictum Fredenandum iam consulem in Portugallia sollicitauit de castelli redditione.” (HC, II, 51).

68

vezes no texto como rainha de Portugal, o poder pertencia na prática a Fernão Peres no momento que antecede este confronto, pelo que foi necessário retirar-lho pela força das armas pelo seu legítimo detentor.

Com efeito, a crónica designa Afonso Henriques da forma como o próprio se intitulava no início do seu governo (“Portugalensis infans”), e não como “conde”, como era seu pai, o conde D. Henrique. Será sempre designado deste modo ao longo do texto. Como se sabe, “infante” refere-se à sua procedência régia – era neto de Afonso VI, tal como D. Teresa se intitulava rainha por ser sua filha – e, por isso, ao seu direito de herdar parte do reino do avô197. Neste contexto, deve assinalar-se que “Portugal” é mencionado como reino no segundo capítulo referente a Afonso Henriques – o único momento em que tal acontece na narrativa198. Assim, a crónica reconhece a sua origem régia, atribuindo-lhe a herança do condado portucalense e, mesmo sem o classificar como “rei”, admite uma evolução na autonomia do espaço que governava. Se relembrarmos que estes capítulos foram escritos entre 1145 e 1149, a aplicação do termo “reino” afigura-se-nos compreensível, visto que o imperador Afonso VII já tinha reconhecido Portugal como tal em 1143, pelo “tratado de Zamora”, ação que se inscreve na conceção de império leonês que o monarca liderava e que a crónica compostelana difunde em episódios posteriores a 1135, data da sua coroação como imperador. De facto, no primeiro capítulo relativo ao infante portucalense, Afonso VII é ainda rex e no segundo é já designado imperator, pelo que se adequa a mudança no modo como “Portugal” é classificado199

.

197

José Mattoso é de opinião que o facto de lhe chamar somente infante está relacionado com a “antipatia” que a crónica tem por Afonso Henriques, o que contrasta um pouco com a visão que aqui se apresenta (MATTOSO, José – “A realeza de Afonso Henriques”, p. 217). Não negando essa animosidade da obra em relação ao infante, a cronologia em que os episódios sobre ele se inserem talvez não motivasse a sua designação como rei, muito menos esta passagem em particular, que se refere a 1128, mesmo sabendo que são redigidos entre 1145 e 1149, quando já utilizava o título de rei. Já é significativo que não o designe como conde, e se outros governantes peninsulares são nomeados como rei, nada obsta a que Afonso Henriques também o fosse se estivesse mais presente no texto, sobretudo se Afonso VII é chamado de imperator a partir dos episódios que sucedem a 1135. Sobre o título atribuído a Afonso Henriques por outras fontes, portuguesas e peninsulares, veja-se o trabalho citado nesta nota.

198 “regno Portugalensi” (HC, III, 51).

199

Uma ideia partilhada por vários investigadores é a de que os vários reis que Afonso VII tinha como vassalos lhe conferiam poder enquanto imperator na Península Ibérica. Sobre o poder régio e a pluralidade de reinos na Hispânia durante a Idade Média, leia-se MARAVALL, José Antonio – “El concepto de reino y los «Reinos de España» en la Edad Media”, p. 81-144, bem como os estudos indicados na nota seguinte. Consulte-se ainda FERREIRA, Maria do Rosário – “O reino de Portugal na

Chronica Adephonsi Imperatoris”, 2013, disponível online, para uma leitura sobre a imagem benevolente

do reino de Portugal criada por meios próximos de Afonso VII, e SÁNCHEZ SÁNCHEZ, Xosé Manuel – “La proyección política de Alfonso VII: un análisis comparativo de la Chronica Adefonsi Imperatoris y la Historia Compostellana”, p. 143-155, para se compreender as diferentes representações do poder político de Afonso VII projetadas pela Chronica Adephonsi Imperatoris e pela Historia Compostellana. Leia-se

69

Além disso, é empregue o termo “patria”, cujo sentido político e cultural remete para a região de origem do infante200. Portanto, Afonso Henriques retirou pela força ao galego o poder da terra onde ele próprio nascera e que herdava do seu avô (“acquisita Portugalensi patria”), o que vem reforçar a ideia de ilegitimidade de Fernão Peres de Trava neste território.

Embora fosse o herdeiro da chefia do condado, teve de o conquistar pela força, pelo que o excerto pode interpretar-se como sendo um testemunho não só dos inícios da sua atuação independente, mas também da sua força militar e carácter “obstinado”, que se verifica nos momentos seguintes de tensão com o primo. Definido este perfil, enquadra- se melhor na crónica a sua “insubordinação” e o facto de não se contentar com o seu senhorio, avançando pelo sul da Galiza, apesar de isso contribuir para a sua caracterização negativa.