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ANDRE RELEVANTE UNDERSØKELSER, HERUNDER MASTEROPPGAVER

OG FAGLIGE FØRINGER

4.14 ANDRE RELEVANTE UNDERSØKELSER, HERUNDER MASTEROPPGAVER

Com os olhos fixos na praia amarela, cujo semicírculo se apequenava à medida que o barco descia o rio que margeava a aldeia, o enteado deixa os índios com a sensação semelhante à do despertar de um sonho, quando não é possível recobrar de imediato os sentidos. Busca referências naquela paisagem, tentando estabelecer uma correspondência com o lugar onde ele e os marinheiros chegaram, mas não encontra qualquer sinal de familiaridade. Ponderando, confusamente, sobre sua situação, ele se entrega horas a navegar

144 SAER, 2002, p. 155. 145 SAER, 2002, p. 151. 146 SAER, 2002, p. 162.

pensando não no norteamento do barco, mas nos embates culturais vividos. Exausto pela mobilidade de ambas as travessias, quer sejam a do rio ou a do pensamento, busca a margem, ficando entregue ao sono.

No amanhecer, ele é surpreendido por vozes que sinalizaram a presença de dois soldados, portando armas de fogo, apontadas contra ele. Pelas expressões faciais de ambos, o protagonista se percebeu em contraponto com aqueles homens que estavam vestidos, calçados, com barbas aparadas e com capacete, enquanto ele, apenas, demonstrava, no corpo, as marcas da intempérie, barba e cabelos crescidos. No impacto daquele encontro, o enteado supõe que sua aparência fora interpretada como anormal. Diante da impossibilidade de explicar sua situação, visto não conseguir articular frases na sua língua materna, a não ser alguns vocábulos que se condensavam na língua dos índios, ele foi detido e conduzido por eles.

Submetido ao interrogatório do oficial e, posteriormente, ao de outros marinheiros, o interesse destes homens não se reportava, apenas, ao paradeiro de um estranho. Da sua parte, tanto a aparência quanto a condição de aculturado falavam-lhes de um convívio prolongado com nativos, motivo que suscitou especulações.

O enteado, valendo-se mais da linguagem gestual, foi obrigado a prestar informações sobre a tribo, a localização da aldeia e se os índios, com os quais conviveu, eram canibais. Dada a gravidade da situação para os espanhóis, ele não tinha como negar, pois seu estado o denunciava: “[...] à medida que falava, via crescer o assombro em suas expressões até que, depois de um momento percebi que estava falando com eles no idioma dos índios.147

Mantido sob as suspeitas dos marinheiros, dos funcionários e de um pároco, o protagonista se viu em meio a uma atmosfera de tensão decorrente do impacto da diferença. À desconexão com seu meio cultural, demonstrada por meio do distanciamento da memória da terra e do esquecimento da língua, se somaram outros elementos como a falta de nome próprio e endereço anterior que comprovasse seu estabelecimento num determinado lugar. A suspeita manifestada nas palavras e gestos dos espanhóis sinaliza uma zona fronteiriça, para a qual confluem as divergências, oriundas das duas culturas, a do branco e a do índio. O protagonista era mais indígena que europeu.

Nessa direção, infere-se que sua dificuldade não irrompia somente da articulação de palavras ininteligíveis, mas de condições anteriores a sua estada com os índios. Para os espanhóis, ele continuava sendo o estranho pela falta de definição, representando um

“hibridismo, uma diferença ‘interior’, um sujeito que habita a borda de uma realidade ‘intervalar’”.148

Impossibilitado de relatar sua história, o enteado se vê num desvão. Sua voz é retratada como um dos veículos pelos quais ele próprio se denuncia como um ser em deslocamento, ou sua constituição num “entre-lugar”.149 Interpretado pelos marinheiros como mais tendente à cultura indígena do que à ocidental e em função do seu vínculo com índios “canibais”, aqueles passam a vê-lo como portador de práticas macabras. Assim, submetem-no aos cuidados do pároco do acampamento, que teve pressa em ocidentalizá-lo, lhe apresentando uma roupa e cortando seu cabelo e a barba.

Os soldados, ao tomarem a direção da aldeia, efetivaram o que ele mais temia com a subida da embarcação. Em algumas horas constatou que “contrariamente a nossa nave, não pararam durante a noite, muitos cadáveres tinham-nos ultrapassado e flutuavam além da proa”.150 Tratava-se de um massacre. E o que poderiam os índios com as suas flechas contra

as armas de fogo? Tudo que os índios tinham a seu favor era a rapidez, a pontaria e o conhecimento da região, mas os disparos dos arcabuzes, além de amedrontá-los, tinham outro alcance.

Na região do Prata, o enteado deparou com a morte em dois momentos singulares da sua viagem. que marcaram de forma nítida sua presença na região. O primeiro se deu quando da travessia do seu meio cultural para a aldeia e o segundo, quando da saída dela para o acampamento espanhol. Em ambos ocorreram massacres de companheiros, relativos às duas culturas. Estas mortes, em tempos diversos, levaram algo de si. Do último, o sofrido pelos índios, ele sai com a grande dúvida referente à questão se toda a tribo fora dizimada ou se restaram sobreviventes; e a certeza de que naquele eclipse lunar, no qual ele, apenas, viu um fenômeno, os índios identificaram a sua destruição. Para o enteado, esse lugar se inscreve em sua história como uma instância de conflitos culturais que o marcaram para sempre.

Do acampamento, onde permaneceu por quatro dias, ele parte na condição de marginalizado, carregando o estigma de que tinha parte com o demônio em decorrência da convivência com os índios. Conduzido pelo pároco para um convento na Espanha, o protagonista é entregue aos padres para ser inserido nas práticas religiosas como a única direção possível para se salvar.

148 BHABHA, 1998, p. 35. 149 SANTIAGO, 1978, p. 11-28. 150 SAER, 2002, p. 114.

CONVENTO

No convento, a recepção do protagonista não diferiu em muito da do acampamento. Inteirados de que ele convivera com os índios, os padres, de maneira idêntica à do pároco do acampamento, tomaram com ele algumas providências: “Nos primeiros dias, antes que o padre se encarregasse de mim, puseram-me nas mãos de um exorcista para que, com fórmulas latinas, me livrasse de meus demônios”.151 Esse tratamento reflete bem o olhar do europeu para os povos não-europeus. Desde Colombo, a representação destes se pautou em cristalizações negativas, levando os espanhóis e portugueses, principalmente, a se convencerem de que a sua missão era a de erradicar os vícios dos indígenas e suas práticas intoleráveis.

A insistência em enquadrá-lo nos paradigmas ocidentais, e inseri-lo rapidamente no meio, agravou o seu estado de tensão, gerando-lhe uma espécie de travamento, perante o que dele esperavam: “Passava horas inteiras em pé junto a uma janela, sem ver nem o vidro nem o exterior”.152 O que se observa desse comportamento é que o enteado se mostra introvertido e essa atitude vai funcionar como autodefesa, sinalizando para a fragilidade, medo e desconfiança da personagem.

Apesar de estar em outro lugar, no convento, um suposto espaço de acolhida, ele não estava salvo da desconfiança dos supostos civilizados, o que fez aumentar seu sentimento de marginalidade. Mesmo os religiosos demonstravam por ele certo desprezo, exceto o padre Quesada, e reproduziam o gesto do pároco, que o conduziu até aquele local “como uma brasa na palma da mão”.153

A idéia que o protagonista narrador passa com a expressão: “sem ver nem o vidro nem o exterior [...]”, constante do fragmento mencionado, é a de que as lembranças amargas aguçaram-se em função da sua fragilidade. Até ali, quantos fatores contribuíram para deixá-lo numa espécie de desvão: as mortes, o sonho malogrado; o distanciamento prolongado da interação dinâmica com outras pessoas etc. A meu ver, a manifestação desse comportamento responde por modulações de um estado de “exílio interior” que o projetou como um estrangeiro na própria terra, tal como a personagem Mersault, de Albert Camus.154

151 SAER, 2002, p. 126. 152 SAER, 2002, p. 117. 153 SAER, 2002, p. 116. 154 CAMUS, 1971.

Nessa particularidade, o protagonista deixa naqueles a impressão causada pelo estrangeiro em frente ao outro, a qual dá conta de uma dimensão que incomoda e revela a inexistência dos mesmos costumes. Seria dizer que o rosto daquele demarca a ausência de sintonia, de algo familiarizado, reprisando o estar do lado de fora.155 E não foi outra a caracterização do enteado, nestas duas zonas transitórias, quer seja no acampamento ou no convento, locais onde se intensificou outro conflito cultural.

O padre Quesada, que passou a se incumbir do enteado, não sentiu por ele o medo e o distanciamento demonstrados pelo pároco do acampamento nem pelos sacerdotes e cortesãos vinculados ao convento. Sua postura, desde o primeiro contato com o enteado, foi a de afabilidade e interesse pela sua pessoa. Contudo, o padre procurou enquadrá-lo nos padrões europeus para arrancá-lo da perseguição e marginalização, às quais o relegaram. Primeiramente, lhe ensinou a ler e a escrever com o sentido voltado para as lições evangélicas. Depois, o inseriu na aprendizagem do latim, do grego e do hebreu, ao mesmo tempo em que ia-lhe incutindo o gosto pela leitura de clássicos.

Portador de certa erudição, oriunda de esferas que se abriam aos religiosos europeus, o padre Quesada, embora tivesse conhecimento de Filosofia, Teologia e de Física, demonstrava interesse por assuntos pertinentes ao cotidiano. Pelo nível de perguntas que ele endereçava ao enteado, relativamente aos índios, ele deixava transparecer o quanto estava confuso em relação à idiossincrasia e o modo de vida dos indígenas. Esse interesse resultou na escrita do seu Relato de abandonado, um opúsculo, no qual o padre narra seus diálogos com o protagonista sobre sua convivência entre os índios.

Passados, ali, sete anos, em decorrência da morte do padre, o enteado deixa o convento e se entrega a um percurso errante que, por vezes, o subjugou à mendicância. Encontrava-se numa condição de não ter um ponto fixo para retornar, nem relacionamentos contínuos no seu cotidiano, quando as circunstâncias lhe promovem um encontro casual com uma trupe de comediantes. Convidado pelo dono, que atendia pela alcunha de “velho”, a ingressar na companhia, o enteado repensa a sua situação e aceita o convite. Juntos, cumpriam um roteiro de apresentações de povoado em povoado, quando a sua própria história sinaliza novos rumos para a trupe.

O velho, ao atentar para a sua convivência entre os índios e para a curiosidade do seu público, identificou no fato o seu trunfo. Propõe ao enteado escrever uma comédia, tendo em

vista sua condição de letrado, cujo assunto seria sua própria experiência, que seria ajustada de conformidade com o gosto do público.

O nascimento desses textos (o Relato de abandonado, do padre Quesada e a comédia, apresentada pela trupe, ambas representações surgidas da experiência do protagonista entre os índios) é matéria para o próximo capítulo.