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ANDRE REGULERINGSTILTAK

In document OG MØTE (sider 33-49)

Como dito há pouco, o surgimento do discurso sobre a cozinha brasileira se deu concomitante ao processo do país como nação. Era necessário criar os símbolos de tradição que se identificassem à ideia de pertencimento a qual o pais precisa perpetuar

àquele momento. O estabelecimento desse indicativo de identidade se deu em variados campos culturais: na literatura, nas artes em geral, na religião, na língua e na comida. Tudo isso ajudaria a forjar o mito da unidade, como nos mostra Dória (2009): no momento em que “uma nação se constitui, vários símbolos se articulam materializando o seu conceito” (DÓRIA, 2009, p. 10).

Como sabido, a construção do projeto nação foi uma prática realizada ostensivamente pelo movimento modernista no campo das artes e, no que tange aos aspectos relativos à comida, essa tradição compartilhada, sob forma de identidade comum a todos, surgiu por meio do discurso da contribuição cultural das três raças amalgamadas: índios, negros e brancos. Para Lobato, a culinária brasileira sempre esteve em oposição aos hábitos afrancesados da elite de sua época:

Oh não! Comer o que se quer é regionalismo sórdido. Come-se o que é de bom tom comer. Manducar leitão assado, picadinho, feijoada, pamonha e milho verde, moqueca e outros petiscos da terra é uma vergonha tão grande como pintar paisagens locais, romancear tragédias do meio, poetar sentimentos do povo. Até o uso dessa língua que herdamos está em via de tornar-se ignomioso. Na altíssima roda já a repudiaram para uma idílica mancebia com o francês argelino. Que dirá o estrangeiro se nos pilhar a comer (que horror, meu Deus!) tutu com torresmo, esta vergonhosa pilança regional, ou coisas semelhantes? (LOBATO, 1919, p. 135).

Para Dória (2009), a procura pelo popular e pelos costumes da terra foi uma prática em busca das raízes nacionais e da valorização da cultura brasileira miscigenada. A obra de Lobato representa um exemplo desse tipo de posicionamento cultural e político, haja vista que a obra Geografia de Dona Benta (1935) foi pensada e escrita com esse teor. O livro é todo caracterizado em defesa da cultura brasileira em suas especificidades regionais, no que tange à alimentação. Embora uma parte da narrativa também se detenha aos aspectos de cultura em outros países, é fato que o autor quis priorizar, em cada região brasileira, aquilo que caracteriza os sabores do nacional, pois destacou os principais alimentos consumidos em cada uma delas.

Dos Pampas gaúchos ele lista a carne seca, o chá mate, o chimarrão e, além disso, descreve os modos de preparo e de consumo de tais alimentos. Da região paulista o autor destaca o café, o combate à broca, a colheita, a secagem até o processo de ensacamento, pesagem e despache do grão pelas estradas de ferro (LOBATO, 2013, p. 51). Além do café, o escritor também insere o arroz: “São Paulo é companheiro do Rio Grande do Sul na produção de arroz. Mas se sabe produzi-lo, não sabe comê-lo.- Por que? Ora essa!...- Porque come o arroz polido, isto é, despido daquela peliculazinha vermelha que o recobre.

Nessa película é que estão as vitaminas” (LOBATO, 2013, p. 52). Há o relato sobre o que se come em Minas: “cria bois e vacas e porcos e cavalos; faz manteiga, queijo e prepara carnes, sobretudo de porco (LOBATO, 2013, p. 58). No passeio pela Bahia, o destaque do escritor vai para o coco, a laranja-baiana e as mangas de Itaparica. O passeio pela Bahia também recorda a comida regional e seus ingredientes que também serão de uso de Tia Nastácia para seus preparos, como exemplo o azeite de dendê. O percurso pelos alimentos das regiões do país finda na região Norte, da qual Lobato destaca os peixes amazonenses de alimentação local e os temperos derivados da pesca de animais marinhos, como a manteiga de tartaruga, além dos doces feitos com frutas nortistas. Por fim, o autor escreve sobre os peixes e as tartarugas e seus preparos:

Há também o peixe-boi, que os índios caçam com chuços. A carne do pirarucu é salgada e seca ao sol, formando uma espécie de bacalhau usadíssimo na alimentação local (...)

- E há ainda, em enormes quantidades, tartarugas que botam ovos na areia por ocasião da vazante, isto é, quando a estação chuvosa chega ao fim e os rios, muito cheios, começam a minguar. Desses ovos, que os amazonenses recolhem os balaios, faz a manteiga de tartaruga, uma gordura empregada pelas cozinheiras amazonenses, como Tia Nastácia lá no sítio emprega a banha de porco (LOBATO, 2013, p. 73-74).

Cumpre relacionar o currículo cultural alimentar deixado em Geografia de Dona

Benta (1935) à memória coletiva, e à identidade. Para Le Goff (1990), as referências

herdadas e guardadas na memória são uma atualização de impressões ou de informações passadas. O medievalista declara que a memória coletiva pode ser revisitada para a reconstituição de um imaginário e é o elemento essencial do que se costuma chamar identidade, cuja busca é uma recorrência nas sociedades atuais.

Em outra obra escolhida para este estudo, Memórias da Emília (1936), ocorre um trabalho de retomada do passado por meio da memória, inclusive porque essa obra é uma reminiscência da vida da protagonista. Além do retorno ao que foi vivido por Emília em outros livros, neste, também estão contidas impressões identitárias e nacionalistas com relação ao alimento. A seguir, um fragmento no qual ela rememora o banquete do casamento de Branca de Neve, contrapondo a cozinha do palácio codadadiano à de tia Nastácia, com seus “pratos-gostosura” e fincados em receitas do ambiente rural:

Esses grandes mestres sabiam fazer os pratos mais raros e caros – faisões com recheio de língua de rouxinol, javalis assados inteiros com molho de néctar furtado ao Olimpo dos gregos; omeletas de ovos da Fênix e outras aves famosíssimas. Tia Nastácia, entretanto, ria-se deles.

- Ché, tudo isso é muito bom para quem gosta de comer com os olhos. Para quem come com a boca, e mastiga bem, não há comida como a minha – mocotó

à baiana, bem apimentado; vatapá com azeite de dendê; quibebe, costeleta de anguzinho de fubá; picadinho, virado de feijão com torresmo... Vocês façam esses “pratos-bonitezas” que eu faço os meus “pratos-gostosura”. No dia da festa vamos ver quem vence... (LOBATO, 1936, p. 107).

Na obra O Minotauro (1939), por sua vez, o papel da memória individual também tem um peso relevante ao imaginário da personagem Tia Nastácia, já que enquanto ela esteve presa pelo monstro, apelou à reminiscência como forma de buscar acalento, pois sabia que o seu cozinhar tinha força de pertencimento aos paladares dos demais personagens:

Tive a ideia de fazer uns bolinhos, só pra matar as saudades. Me lembrei de todos lá do sítio e disse comigo: “Vou fazer pela última vez o que eles gostavam tanto”. Não pra comer, porque numa ocasião dessas o estômago da gente até some. Fiz os bolinhos só por fazer; só pra me lembrar da minha gente lá do sítio... (LOBATO, 2011, p. 149-150).

Toda essa relação entre o que é revivido por intermédio da memória coletiva ou da individual encontra-se mergulhada nos intuitos nacionalistas do escritor Monteiro Lobato, na medida em que retoma de forma original os regionalismos do país. Por meio desse imaginário que revisitou a essência do país em variados cenários, inclusive o alimentar, o escritor teceu linhas sobre a mentalidade do campo, responsável, segundo ele, pela construção do Brasil nação.

O trabalho analítico com a memória coletiva entra nos domínios do imaginário e este organiza os sentidos do presente que se referencia no passado, apoiando-se em fatos, documentos históricos, mas, sobretudo, na palavra e nas representações culturais. Em relação ao autor Lobato, a propriação do imaginário pelo autor, oriundo da memória da coletividade, ocorreu por intermédio da imaginação ficcional, da dimensão afetiva pela busca da brasilidade e elaborando uma identidade cultural como igualmente fizeram os demais homens de seu tempo.

5.3 Acepções do gosto: o sabor pode ser curricular? Práticas educativas alimentares

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