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Obtivemos autorização formal das autoridades eclesiásticas responsáveis pela instituição e realizamos uma série de visitas de observação no seminário teológico católico, que recebe candidatos ao sacerdócio de várias dioceses que se associaram para sua criação. Os candidatos ao seminário teológico provêm em sua maioria do seminário filosófico que pesquisamos no mestrado. Dessa forma, estamos próximos de um acompanhamento longitudinal do seminarista em formação no seminário. Tomamos como objeto de estudo o estabelecimento como um todo, que foi observado em seu funcionamento. Buscamos descrever as práticas formativas eclesiásticas, produzindo uma análise política dos modos de funcionamento dos operadores institucionais atuantes no seminário. Enfocamos também os elementos místicos que permeiam o processo formativo em sua possível dimensão instituinte. Procuramos compreender as relações de formação entre padres formadores e seminaristas como um operador privilegiado de constituição do seminário enquanto agência de produção de subjetividade.

Para realizar essa pesquisa, utilizamos a técnica da observação participante, qualitativa, rigorosa, sistemática e vivencial. Participação não implicou um delineamento conjunto, pois não havia demanda de análise por parte da instituição seminário, embora houvesse bastante sofrimento ali. A técnica da observação participante foi utilizada e reorientada para manter-se adequada e sensível às características da situação. Entendemos a pesquisa como prática investigativa e participação enquanto valorização e uso das

perspectivas vivenciadas pelos sujeitos na vida e ambientes cotidianos. A observação participante foi não-estruturada, isto é, nela os fenômenos a serem observados não eram predeterminados, eles foram observados e relatados da forma como aconteceram, visando descrever e compreender o que estava ocorrendo na situação dada.

Segundo Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (1998) essa técnica possui algumas vantagens: ela independe do nível de conhecimento e da capacidade verbal dos sujeitos; permite “checar”, na prática, a sinceridade de certas respostas ou comportamentos que poderiam ser dados apenas para “causar boa impressão”; permite identificar comportamentos não-intencionais ou inconscientes e explorar temas nos quais os sujeitos não se sentem à vontade para discutir; e torna possível o registro dos fenômenos o mais próximo possível do seu contexto temporal e espacial. O pesquisador torna-se praticamente mais um membro do grupo sob observação. O grupo, familiarizado com sua presença, continuará desempenhando suas atividades normalmente. Com o passar do tempo, diminuirão as possíveis inibições e provavelmente não haverá tentativas de influenciá-lo com procedimentos que fujam ao seu comportamento normal. O observador deve conseguir um bom nível de integração grupal pelo fato de que os membros, acostumados com sua presença, se esquecerão ou ignorarão que há um estranho entre eles.

Não tínhamos hipóteses prévias a serem testadas diretamente, apenas hipóteses provisórias que seriam aperfeiçoadas ou não pela própria observação, com base na pesquisa realizada anteriormente no seminário filosófico (BENELLI, 2006a, 2006d). Trabalhamos com dados qualitativos, obtidos por meio de estudo longitudinal, englobando todo o contexto institucional e também subjetivo dos sujeitos. Tivemos supervisões periódicas com o professor orientador. A técnica da observação participante envolveu três fases: (1) aproximação da instituição e estabelecimento de vínculos com seus membros; (2) realização da observação no contexto dos sujeitos para a coleta de dados; e (3) registro posterior dos

fenômenos, comportamentos, ações, diálogos e acontecimentos observados. Passaremos a descrever cada um deles.

(1) Etapa de inserção no grupo: procuramos estabelecer uma relação tal com os membros da instituição que facilitasse nossa aceitação progressiva. Entretanto, buscamos ser aceitos como realmente éramos: alguém que vinha de fora, com o objetivo de realizar uma pesquisa acadêmica que também fosse útil para a instituição. Desse modo, visamos manter uma posição científica diante da realidade e das ações dos sujeitos. Entendemos que essa é a técnica mais adequada para a realização desta pesquisa. A observação é o exame minucioso de um fenômeno no seu todo ou em alguma de suas partes, buscando a captação precisa do objeto examinado. Ela é um instrumento básico da pesquisa científica (RICHARDSON, 1985), tornando-se uma técnica científica quando serve a um objetivo explícito de pesquisa e é sistematicamente planejada, registrada e interpretada. O pesquisador-observador não é apenas um espectador do fato que está sendo estudado; ele se coloca no nível dos outros elementos humanos que compõem a situação estudada. Para isso, é fundamental estabelecer vínculos com os sujeitos da pesquisa e manter com eles um relacionamento agradável e de confiança. Assim o observador participante tem mais condições de presenciar e compreender os hábitos, atitudes, comportamentos e relações interpessoais da vida dos sujeitos, que de outro modo não seriam apreendidos por ele.

(2) A coleta de dados foi o trabalho que nos permitiu a aquisição de uma visão mais ampla da vida da instituição, com sua organização interna, e das relações entre os sujeitos que a compõem. Permitiu também a captação da percepção que seus membros têm da própria situação. Esta etapa permite uma interação entre teoria e observação, constituída por dois momentos diferentes: a construção de hipóteses-tentativas baseadas na observação e no estudo e a verificação dessas hipóteses através da prática da observação e do diálogo na

situação de pesquisa. Passamos a descrever os procedimentos que utilizamos para a realização das observações e coleta de dados.

Nos dias combinados fomos para a instituição onde vivem os sujeitos, observamos a vida cotidiana do seminário teológico e participamos dela uma vez por semana. Freqüentamos as aulas, as celebrações litúrgicas, as refeições, os momentos de lazer, etc. Buscamos desenvolver o contato inicial que já tínhamos travado com os indivíduos presentes no ambiente da instituição que tinham vindo do seminário filosófico e também nos familiarizamos com os demais habitantes do seminário teológico. Houve liberdade para perguntas permitindo-nos a flexibilidade necessária em cada situação concreta. Não buscamos nenhuma intervenção direta nos momentos de observação, mas somos conscientes de que a presença do observador no ambiente institucional já implica um certo grau de interferência que modifica o objeto de estudo e por isso mesmo torna-se parte da situação de observação. O campo particular da observação foi constituído por um enquadramento que buscou transformar em constantes algumas variáveis: nossa atitude técnica como observador, os objetivos da visita de observação, lugar e tempo definidos. Entendemos que o campo da observação é dinâmico: está sujeito à permanente mudança e a observação deverá abarcar em cada momento a continuidade e os sentidos dessas mudanças. Levamos em consideração durante as visitas de observação: a relação interpessoal de interação e comunicação entre os participantes, seminaristas e formadores, e o próprio observador, com suas manifestações psicológicas. Não realizamos anotações durante a observação, para evitar inibições que tornariam a situação mais artificial.

(3) Registro das visitas de observação participante: foi sendo elaborado posteriormente ao seu término, descrevendo o que ocorreu durante a visita, obedecendo à seqüência temporal em que os fatos se deram. Como já afirmamos, entendemos que fazer anotações durante a visita de observação pode ser um fator potencialmente perturbador,

inclusive no sentido de desviar a atenção dos sujeitos observados. No início das visitas de observação, fomos apresentados publicamente aos habitantes da instituição e eles foram informados de que estávamos ali para produzir uma pesquisa de doutorado sobre o seminário teológico. O vínculo que estabelecemos com os seminaristas internados no estabelecimento no qual realizamos as observações foi evoluindo gradualmente e se estabilizou em relações de aceitação, confiança e naturalidade. Isso nos possibilitou presenciar os hábitos, atitudes, comportamentos e relações interpessoais dos sujeitos, participar de rotinas diárias e diálogos muito interessantes.

Realizamos visitas semanais de observação participante a partir do segundo semestre de 2003 até o primeiro semestre de 2006, totalizando 03 anos de acompanhamento da vida institucional do seminário teológico. Os dados de campo obtidos foram sistematizados em categorias analíticas, tal como se pode verificar no relatório que apresentamos no capítulo seguinte. A técnica da observação participante revelou-se um instrumento adequado para a realização desta pesquisa. Aprendemos a enfrentar o desafio de nos posicionarmos como pesquisador no contexto institucional específico de um seminário católico. Tratava-se de nos relacionarmos com pessoas diferentes, desempenhando um papel de pesquisador, abrindo-nos à novidade da experiência.