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Algumas dificuldades encontradas pelo dramaturgista no exercício de sua profissão são apontadas pelas fontes consultadas.

Para Beil e Jensen (1986, p.20) trata-se de trabalho volumoso e cansativo:

Estabelecer o repertório por um mês é muito cansativo e é uma tarefa que dura vários dias. Quando se apresentará qual peça? A resposta a essas perguntas é um trabalho que não se pode deixar para uma terceira pessoa, para um administrador. Pode-se cuidar da montagem de um espetáculo, e, no entanto, mata-lo devido a uma programação ruim. Quando um teatro dispõe de um vasto repertório, o olhar dramatúrgico é muito importante para a sua elaboração. Assim, nós investimos muito tempo no trabalho que cabe à direção do teatro, e claro, o trabalho de leitura de peças fica prejudicado. Um dramaturgista deveria ler três peças por dia para estar a par de tudo o que existe. Isso, nós não conseguimos de modo algum fazer. Nós nos contentamos em efetuar nossa escolha e até chegamos a estar atrasados.

Outra dificuldade apontada é que os dramaturgistas precisam de muitas horas, segundo o site wpi.edu/Academics/Depts/HUA/TT, para a análise de texto, “para encontrar os significados escondidos no texto, e eles precisam estar dispostos a perder tempo para isso”.

Um aspecto negativo para quem exerce a atividade sem dúvida deve ser o fato que o dramaturgista é

Alguém cuja existência deve ser periodicamente rejustificada, de estatuto um pouco misterioso, cuja presença constante junto ao encenador, na frente dos atores — misturado ao processo, mas sempre um pouco atrás — ainda não é realmente evidente. (Davis, 1986, p.4)

Outros, apontados pelo mesmo autor: trata-se de “atividade pouco especializada; atualmente, todo mundo faz” e de “atividade frustrante, o reconhecimento se limita apenas ao “rastro” deixado no programa”.

Para sair da obscuridade, uma reação possível é o desejo de poder. Nas palavras de Wiens (1986, p.17).

No dramaturgista pode nascer, por outro lado, o desejo de devolver à sua posição a preponderância que terminará por atrapalhar o trabalho. De todas as funções, a do dramaturgista é a que mais se encontra na obscuridade. Os atores estão evidentemente em plena luz e os encenadores têm sido, pelo menos no que concerne às últimas décadas, os personagens dominantes do teatro, é bem conhecido às vezes nos dramaturgistas o desejo de sair desta obscuridade, de exercer pelo menos no interior do teatro certo poder e de dar a si mesmos « grandes ares ». Eu acredito que isso é bastante idiota e às vezes mesmo perigoso.

Dort (1986) aponta aspectos negativos, ou potencialmente negativos, para a existência mesma da função, dizendo que a presença de um cargo de dramaturgista pode tirar a responsabilidade de reflexão dramatúrgica dos demais e, além disso, que a existência de um cargo de dramaturgista pode burocratizar a dramaturgia .

Sobre o primeiro desses aspectos, as palavras de Wiens (1986, p.16) são elucidativas e se referem à tutela do ator:

Há, paradoxalmente, ao mesmo tempo, o perigo de que a presença preponderante do encenador e o crescimento excessivo da «dramaturgia de produção» levem a uma situação de tutela do ator. Que os atores realmente não tenham mais a necessidade de quebrar a cabeça, que possam vir aos ensaios sem estar preparados, porque outros já quebraram a cabeça e que lhes coloquem qualquer papel nas mãos em que eles lerão aquilo que se tem como idéias sobre a peça.

O dramaturgista não tem meios próprios de expressão, é pouco importante quando sobe o pano e nunca está na linha de fogo. Essa é a síntese da crítica mordaz de Kraus (1986, p.27).

O dramaturgista é um artista potencial, que não é capaz de dar provas sensíveis de sua arte. É um artista sem meios de expressão e sem ferramentas. Ele pode apenas tentar levar os outros, os verdadeiros artistas, a realizar suas próprias idéias. No momento fatal em que sobe o pano, o último ator é cem vezes mais indispensável, e, no interesse da arte, cem vezes mais importante que o melhor dos dramaturgistas. Ninguém duvida disso. O dramaturgista não vai vender cada noite sua pele no mercado; não é ele quem decide o resultado e o sucesso do espetáculo. No momento crítico, está sempre do outro lado da ribalta, do outro lado da linha de fogo, excluído da comunidade dos combatentes que escrevem na carne seus sofrimentos e suas vitórias. O dramaturgista está mais na posição de um oficial da intendência que não rola na lama, que não pega piolhos nem pulgas, e só derrama seu sangue se, por descuido, uma bala perdida o atinge.

Para o mesmo autor (p. 27), as relações da companhia com o dramaturgista são de hipocrisia, desprezo e interesse pessoal.

As relações da companhia com o dramaturgista ficam sempre marcadas pela hipocrisia, pelo desprezo e pelo interesse. É melhor ter um bom relacionamento com um membro da direção artística, porque pode acontecer que a escolha de uma peça na qual se cobiça um papel dependa dele, porque ele pode, também, num momento ou noutro, influenciar na distribuição dos papéis. A maneira como a companhia considera o dramaturgista está sempre marcada pelo desdém e pelo interesse pessoal.

Um risco que alguém pode correr no trabalho como dramaturgista é bloquear o trabalho teatral, intimidar os atores: “Pode ser que um dramaturgista - é também um perigo que existe neste trabalho - coloque barreira tão alta para o encenador e os atores ultrapassarem que eles sintam um bloqueio frente a sua tarefa.(WIENS, 1986).

Os dramaturgistas que elaboram os programas e fazem o “resumo” antecipado da obra recebem uma crítica severa de Drapon (1986, p.61).

Alternadamente, sociólogo das práticas coletivas, semiólogo encarregado da vigilância dos signos teatrais, documentarista da Casa e filósofo do suplemento da alma, seu papel revela de uma só vez o exorcismo e a dança da morte. Todo este aparato conceitual, este volume de textos que orienta o uso serve apenas para esconder um medo do vazio. Se encontra aqui este desejo de antecipar, de duplicar o olhar do espectador reabsorvendo o risco, o imponderável de toda a representação em um texto que é o programa. A dramaturgia praticada assim, como resumo do teatro, une então o paradoxo de Borgès evocado por Jean Jourdheuil e Jean François Peyret: “Quando uma obra é suscetível de ser resumida ou então seu projeto é suscetível de ser enunciado antes que ela seja conhecida, é sábio se ater ao resumo ou ao enunciado do projeto”

No Brasil, segundo o depoimento dos entrevistados, as dificuldades, ou aspectos negativos são um pouco diferentes.

Uma delas, que ameaça diretamente a sua presença no seio de um trabalho teatral, é apontada por Massa (Anexo B2): “a falta de verbas para que ele possa existir”.

Há dificuldades citadas que são inerentes ao próprio exercício da atividade profissional. Saadi (Anexo B6), por exemplo, dá um testemunho de uma dificuldade inicial de comunicação com os atores:

De início, eu tinha alguma dificuldade de me fazer entender pelos atores do grupo, porque eles pensam de uma outra maneira, mais concreta, mais “corporal”, por assim dizer. Ao longo dos anos, fui aprendendo a chegar um pouco mais até eles e fui aprendendo também, sobretudo, a me calar. Acho que um dos grandes aprendizados do dramaturgista é se calar, porque ele não pode confundir os atores na condução do trabalho, ele tem que trabalhar junto com o diretor para que aquilo que o diretor fala tenha a consistência que o diretor quer, seja acessível aos atores e dê a eles a segurança de que estamos todos trabalhando da mesma maneira. [...] Se eles se sentem de alguma forma, excluídos ou olhados de fora, de maneira crítica, e não acompanhados, o processo breca. Então, quando digo que aprendi a me calar, aprendi, efetivamente, a esperar para ver aonde certas propostas vão dar, para depois, caso o que se estava

procurando tenha sido abandonado ou não tenha sido alcançado, fazer uma intervenção bastante delicada, embora bastante incisiva, para que a rota possa ser retomada.

Outro problema de comunicaão, referido por Garcia (Anexo B6) é com o diretor: o diretor não ouve ou não compreende.

Às vezes eu digo: “Ai, porque ele não me ouve? Ai, porque não me ouviu! Cabeça dura, não está percebendo o que eu estou dizendo!” Essa frustração a gente tem, mas eu também a atribuo à nossa vaidade intelectual, de querer também, de alguma forma, fazer a nossa opinião e as nossas sugestões ganharem algum peso dentro do trabalho.

A percepção de que o trabalho aparece pouco também é citada por Garcia e parece se constituir numa fonte de frustação. Nas palavras da dramaturgista:

Acho que quanto a essa questão da qualificação (do espetáculo), nós não temos esse poder todo, nem temos essa pretensão. Nosso trabalho deixa a sua marca como os outros integrantes do elenco e do grupo, enfim, às vezes mais, às vezes menos. Se você faz diretamente a adaptação da peça, por exemplo, essa marca é mais evidente. E, às vezes, esse trabalho aparece, mas só você percebe, numa inflexão de voz do ator, numa fala que foi acrescentada, enfim, numa coisa assim, pequena.

Outra dificuldade do exercício profissional é apontada por Rabetti (Anexo B1), a de problematizar constantetemente:

Ter que insistir em problematizar o que está sendo construído e, ao mesmo tempo, saber que esses problemas, uma hora, vão ter que ser resolvidos, vai ter que se encontrar determinada maneira de resolver, porque acho que o trabalho é fragilizar aquilo que está sendo montado, colocá-lo em questão. Isso é um problema para ele, como ele exerce esse sentido último que é colocar tudo em questão, o tempo todo, num processo no qual ele sabe que tem que chegar a determinado fim.

Um problema provavelmente bastante crítico para o dramaturgista é referido por Massa (Anexo B2) e se refere à aceitação

de sua presença e de suas intervenções: a sua aceitação como realmente necessário pela companhia teatral e a de que “não se sabe até que ponto ele vai ser ouvido, até que ponto vai realizar o fechamento da criação”.

Nessa mesma linha, aponta Villar (Anexo B4) o desconhecimento e a não abertura para o trabalho dos demais profissionais do teatro:

Imagino que possa ser a não abertura para o trabalho, que muita gente pode estranhar: “Quem é essa pessoa? Dramaturgista, o que é isso?” O desconhecido assusta, às vezes... e, de repente, pode ter gente que pense: “mas não..., eu já tenho o diretor, quem é essa pessoa que vem aí falar coisas sobre o meu personagem?” Esse é um comportamento que não ajuda muito. Se a pessoa está ali para ser um suporte, para ser um apoio, ela tem que ser muito bem recebida, eu imagino. Assim como toda a equipe, do contra regra ao produtor, da figurinista ao protagonista. Acho que tem que haver respeito, respeito às diferenças, respeito à diversidade de experiências, etc.

O dramaturgista também pode ser percebido como um concorrente, pelo diretor. “Sempre vai depender de que pessoas são o diretor e o dramaturgista. Se eles tiverem uma relação má de trabalho, o diretor pode ver o dramaturgista como um obstáculo, como um concorrente.” (Villar, Anexo B4).

Finalmente, a última dificuldade referida pelos entrevistados é a de estar, sempre, subordinado à vontade do diretor. “Porque o grande problema do dramaturgista é esse, porque, no fundo, nós também construímos este edifício que é o texto, o espetáculo, etc., mas estamos subordinados à vontade do diretor.”