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A aids é uma doença que, pela sua interface com significados construídos culturalmente como a morte, o uso de drogas, a sexualidade e as práticas sexuais, é atravessada por uma série de discursos e conceitos moralizantes.

Encontramos, na história da humanidade, processos de moralização de doenças e de estigmatização de pessoas portadoras de alguma enfermidade, da mesma forma que nos discursos que atravessam a epidemia de HIV/aids. Segundo Sontag (2007), a ocorrência de doenças coletivas é, historicamente, encarada como castigo imposto.

A lepra e a sífilis foram as primeiras doenças consideradas repulsivas e representantes do pecado, e exemplo disso são as frases proferidas a respeito desta última entre o final do século XV e o início do XVI. Durante longo tempo ela foi considerada uma “maldição de prostituta” e como doença que representava castigo para o indivíduo transgressor das leis divinas. Outra imagem que atravessou a sua construção social foi a de invasão (algo que vem de fora, do outro), que atingia toda a coletividade.

A idéia de encarar as doenças temidas como algo estrangeiro, do “outro”, é uma característica historicamente relacionada à visão comum das “pestes”, e isto se evidencia na série de propagandas xenofóbicas pautadas em ideologias políticas autoritárias que têm o intuito de disseminar o medo e o controle (SONTAG, 2007). A peste bulbônica, por exemplo, reaparecida em Londres em 1720, foi considerada como proveniente de Marselha, o lugar geralmente tido como o ponto pelo qual ela entrava na Europa Ocidental, trazida por marinheiros, e de onde era difundida por soldados e comerciantes. No século XIX, a sua origem era associada “a lugares exóticos, o meio de transporte era imaginado de modo menos específico e a doença em si tornara-se algo fantasmagórico, simbólico” (SONTAG, 2007, p.116).

A associação direta de doenças a pecado teve declínio progressivo durante as sucessivas epidemias de cólera do século XIX. Em 1866, era recorrente a idéia de que essa doença, além de ser castigo divino, era conseqüência de deficiências sanitárias. O jornal norte-americano New York Times, em matéria publicada em 22 de abril desse ano, afirmava:

“A cólera castiga especificamente o descaso com as leis da higiene; é a maldição dos sujos, dos beberrões, dos degradados” (NEW YORK TIMES, 1866 apud SONTAG, 2007, p.120). Em 1930, a metáfora da peste era associada a catástrofes sociais e psíquicas, e as explicações científicas para essa doença passaram a se utilizar de patologizações psiquiátricas e psicologizantes. Segundo Sontag (2007, p.120), se hoje parece inconcebível que a cólera ou outra doença sejam encaradas como castigo divino, não é porque seja menor a capacidade de considerar a doença por um ângulo moralizante, e sim porque são doenças de outro tipo, agora usadas didaticamente como culpabilizações individuais pelo adoecimento.

Portanto, a partir do século XIX, ao discurso religioso moralizante e condenador se aliou o discurso científico, que contribuiu para o estabelecimento do caráter excludente, estigmatizador e individualizante do doente. O surgimento e a consolidação do discurso científico positivista, pautado em leis gerais, experimentação, medição, controle e na pretensa previsibilidade dos fatos fez com que, no século XX, fosse “quase impossível explorar com intenção moralizante as epidemias — exceto quando se trata de doenças sexualmente transmissíveis” (SONTAG, 2007, p.121). Num momento de avanço e dominação do discurso científico, quando não se acreditava mais na possibilidade do surgimento de uma doença epidêmica que fugisse do controle, a aids entrou em cena, reacendendo todo tipo de discursos xenofóbicos e culpabilizadores. Ela se tornou o exemplo ideal da projeção, para a paranóia política do Primeiro Mundo, do invasor oriundo do Terceiro Mundo, que condensa toda a série de ameaças míticas dos neoconservadores.

Os primeiros casos de aids surgiram na década de 1980, e a doença foi inicialmente chamada de “peste gay”, atravessada pelos discursos científico, midiático e moralista, os quais entoavam que ela teria surgido em razão da “permissividade generalizada de nossos tempos”, com suas músicas e atitudes sexuais libertárias “vulgares”, o uso de drogas, as famílias “desorganizadas” e os movimentos sociais “baderneiros” (SONTAG, 2007, p.126). Como denuncia Sontag (2007, p.126), “a aids e suas metáforas” evidenciaram toda uma política da “vontade — de intolerância, de paranóia, de medo da fraqueza política”. O potencial metafórico dos discursos moralizantes em relação a ela surgiu como resposta ao pavor de qualquer atitude, discurso ou estilo considerados subversivos às normas gerais pautadas na heterossexualidade compulsória, na monogamia, nos papéis sociais que associam as práticas sexuais à função reprodutiva e na abstinência de drogas ilícitas. Na sociedade ocidental, alguns desses temores já eram cultivados em gerações anteriores, como o medo de que mulheres brancas (das classes média e alta) tivessem vida sexual ativa sem fins reprodutivos.

Outros temores são produções contemporâneas, como o receio dos países ricos da invasão por imigrantes do Terceiro Mundo.

Segundo Parker (1994), no surgimento da aids os epidemiologistas internacionais consideraram os homossexuais, as prostitutas e os usuários de drogas endovenosas como “supostos grupos de risco”, responsáveis pela disseminação do vírus, caracterizando um período estigmatizador, excludente e violento com as pessoas HIV+:

[...] os vestígios de um autoritarismo institucionalizado às vezes ficaram muito evidentes na perseguição a supostos grupos de risco, como os homossexuais, prostitutas ou travestis, que foram freqüentemente vítimas da violência da polícia, legitimizada e justificada como uma atividade de prevenção da AIDS. (PARKER, 1994, p.40)

No Brasil, os discursos que então rondavam a epidemia eram marcados por informações equivocadas, que justificaram, durante algum tempo, a realização de práticas preconceituosas e cruéis, como os casos de pessoas que foram quase literalmente expulsas de cidades ou sofreram ameaças de violência física; muitos “especialistas” em medicina também foram responsáveis pela disseminação de idéias errôneas e alarmistas sobre a aids, e muitos médicos e hospitais se recusaram a tratar de pacientes doentes de aids (PARKER, 1994). Em 1987, Jonathan Mann, coordenador do Programa Global de Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 1986 a 1990, em discurso na Assembléia Geral da ONU, afirmou ser possível

[...] indicar pelo menos três fases da epidemia de AIDS, numa dada comunidade [...]. A primeira é a epidemia da infecção pelo HIV que silentemente penetra na comunidade e passa muitas vezes despercebida. A segunda epidemia, que ocorre alguns anos depois da primeira, é a epidemia da própria AIDS: a síndrome de doenças infecciosas que se instalam em decorrência da imunodeficiência provocada pela infecção pelo HIV. Finalmente, a terceira (talvez, potencialmente, a mais explosiva) epidemia de reações sociais, culturais, econômicas e políticas à AIDS. (DANIEL; PARKER, 1991, p.13)

Em todo o mundo, a partir da década de 1990, os programas públicos e da sociedade civil voltados à aids vêm sendo obrigados a refletir também sobre os fenômenos de feminização, juvenização e pauperização da epidemia, evidenciando a urgência de mapear as complexidades sócio-históricas, culturais, biológicas e subjetivas relacionadas às vulnerabilidades que, historicamente, atravessam os corpos. Nesta análise, busco complexificar, prioritariamente, as vulnerabilidades das mulheres, o que significa, por exemplo, compreender as construções socioculturais de outros períodos históricos

relacionadas ao corpo da mulher e que se evidenciaram com a emergência da aids, pois, como aponta Jeolás (2005, p.87), os “valores da feminilidade e da masculinidade são questionados com o [seu] surgimento”.

Para compreender o lugar ocupado pela categoria “mulher” — “ora situada ‘como vítima’ anônima de um parceiro contaminado, ora como ‘culpada’ por si mesmo” (GUIMARÃES, 2001, p.28) — no contexto da epidemia, é importante entender o impacto do movimento de ONGs/aids que, desde meados da década de 1980, teve participação efetiva na compreensão da dinâmica da doença e na construção de propostas para o seu enfrentamento. Foram os movimentos sociais que colocaram as mulheres na pauta de discussão.