3. 1 Selvstendig voksen - med behov for litt hjelp
3.1.2 Andre hjelpere og støttespillere i dagliglivet
Irene tinha 29 anos na época da primeira entrevista. É negra, mora com a mãe, duas irmãs e um sobrinho, na periferia de um município da Grande São Paulo. Temporã de sete irmãos e tendo a mãe doente, quando criança ficava aos cuidados das irmãs mais velhas. A mãe, nascida em Londrina, no Paraná, estudou até a quarta série. Foi empregada doméstica, mas há muito tempo está afastada do trabalho, por
57 Fonte: sítio do Programa Escola da Família, da Secretaria da Educação do Governo do Estado de
São Paulo.
58 A fim de facilitar a leitura do texto, nomeamos o primeiro encontro com Irene de Desabafo, as duas
primeiras entrevistas, próximas no tempo, de “primeiras entrevistas”, ou “primeiros depoimentos” e o quarto encontro, realizado após a formatura, foi nomeado de “última entrevista”, “último encontro” etc.
problemas de saúde. Irene conta que “desde que nasceu, nunca a viu trabalhar”. O pai de Irene alfabetizou-se pelo antigo MOBRAL59. Trabalhava numa fábrica de telhas e caixas d’água de amianto. Como muitos de seus colegas, adoeceu; em 1980 foi afastado do trabalho e, posteriormente, aposentado por invalidez. Faleceu em 1996.
Sendo a caçula e com os irmãos já “ganhando a vida”, foi a primeira da família a conseguir uma formação mais estendida e pode adiar a entrada no mercado de trabalho: até o final do Ensino Médio (1996) não necessitou trabalhar. Foi sempre “a boa aluna” da família, e passou pelos bancos escolares de três escolas estaduais sem maiores problemas: “Eu tinha fama de inteligente”. No entanto, o bom desempenho escolar não significou uma condição suficiente para o ingresso no ensino superior logo após o término da educação básica.
Seu primeiro emprego foi na linha de produção da metalúrgica em que já trabalhava uma de suas irmãs; Irene tinha 19 anos e lá permaneceu durante dois anos e oito meses, sem nunca se acostumar com “o clima de fofoca” e “a supervisora
querendo oprimir, mandar, obrigar”. Após quatro meses de desemprego, começou a
trabalhar em uma lojas de departamentos, dirigindo empilhadeiras. Irene permaneceu nesse trabalho por três anos, que foram seguidos por outros três de desemprego. Nesse período, Irene fez cursos de técnica contábil em uma central de empregos da Força Sindical e de auxiliar de enfermagem, pago pelo dinheiro que economizara no trabalho anterior. Esses cursos, no entanto, não concretizaram a promessa de um emprego melhor, com maiores ganhos.
Irene participa ativamente do mercado da qualificação: antes desses cursos, já aprendera datilografia e informática, na época em que cursava o ensino médio, e frequentou um curso de espanhol, quando de seu primeiro período de desemprego. Afirma que não teve especial apreço por nenhum deles, mas pensava que poderiam ajudar a arrumar um emprego com um salário melhor, para poder pagar a faculdade. Além disso, diz que eram bons para “ocupar a mente”.
O período de desemprego só termina em 2004, pouco tempo depois que ingressou no ensino superior. Depois de ter realizado tantos cursos e já universitária, o emprego a que Irene teve acesso foi o de atendente de telemarketing; trabalhava
das 20h às 2h, recebendo o salário mensal de R$ 370,00. Mesmo assim, para quem vem “da produção” ou realiza atividades braçais, o trabalho com telemarketing foi comemorado como uma ascensão na carreira: “não tem nem comparação: ficar
carregando peso, fazendo aquela coisa chata todos os dias. Agora eu fico sentadinha, trabalhando num lugar limpinho”. No entanto, é nesse trabalho que
Irene adoece; na época das primeiras entrevistas, encontrava-se afastada por tendinite e bursite. Aos poucos, a sobrecarga de trabalho, a agressividade dos “clientes” e supervisores, o baixo salário, as dores nos membros e a experiência do afastamento do trabalho – com passagens esporádicas e sofridas pela perícia médica – fazem com que Irene não mais queira retornar ao antigo posto:
Eu não quero voltar para aquele emprego de telemarketing, não quero! (...). O salário não motiva, o ambiente é ruim, são seis horas com pessoas te xingando e outra [o supervisor] gritando atrás de você. Não vale à pena, pelo grau de estresse que a gente passa, sendo xingada, sendo que eu não fiz nada para a pessoa (...). Quando eu entrei, para mim era a melhor coisa, porque eu nunca tinha trabalhado naquilo. Depois comecei a ver o outro lado. São seis horas de trabalho; são cinco minutos para você ir ao banheiro, 15 para você tomar um chá, alguma coisa, e já volta a trabalhar. No começo, quando as pessoas xingavam, até achava divertido, não estava nem aí. Passa o mês, o supervisor já começa a falar... Desanima um pouquinho. No final, o salário de R$ 370,00. Passa outro mês, vai acumulando o cansaço, passa outro. É muito esforço para pouco ganho.
Irene afirma que sempre almejou fazer uma faculdade; para ela, o ensino superior abriria a possibilidade de ascensão social; imaginava então que por meio do estudo poderia “arrumar um emprego melhor”, “vender sua mão-de-obra por um
preço melhor”. Mas esse sonho parecia-lhe de difícil realização. Seu desejo era
estudar Veterinária ou Fisioterapia, o que se revelou impossível, devido ao custo elevado desses cursos. Foi um amigo de infância – o primeiro de seu meio a ingressar no ensino superior – quem, no natal de 2003, lhe revelou que para os de sua classe social, “o jeito é fazer o que dá” e não o que se deseja:
Tenho um vizinho que mora pegado à minha casa, eu estudei com ele na primeira série. Ele casou com uma colega minha. A gente ficou conversando, e ele me falou: “Eu estou no terceiro ano, estou terminado Administração [de Empresas]”. A gente ficou conversando e eu contei que já tinha prestado Fisioterapia, mas
não cursei, porque era muito caro. Naquele tempo, tinha que pagar 1.100 reais, logo de início; aí não ia dar. Aí ele me disse: “Mas você vai escolher justo o curso mais caro!”. Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Eu pensei: “nossa, tenho a mesma idade que ele, vivi as mesmas coisa que ele, a gente brincava na rua juntos. E ele já casou, tem um futuro promissor, e eu estou estacionada”. Fiquei achando que eu estava meio... como se fosse um cavalo, só olhava para uma coisa, era só aquilo que eu queria.
Irene então decide que “no ano que vem eu faço qualquer coisa, mas eu
vou!”. O desejo de cursar Veterinária não desaparece, mas é adiado para um futuro
incerto. Pensava que poderia “fazer um outro curso e, através daquele curso, poderia
futuramente fazer aquilo que queria”. Foi então que surgiu a oportunidade: em 2004,
aos 27 anos, ingressa, por meio do Programa Escola da Família, no curso de Ciências Biológicas da Faculdade X.
O mesmo que se passara com Irene em relação a seu amigo de infância – descobrir que podia cursar uma faculdade, desde que fizesse a escolha adequada para os de sua classe social – acontece com seus familiares. Irene foi a primeira da família a ingressar no ensino superior. “Abriu o caminho”:
Foi depois que eu entrei na faculdade que eles descobriram que também conseguem. Aí minha irmã prestou vestibular. Ela faz na Y. Está fazendo Economia. Meu sobrinho também está fazendo faculdade. Mas foi depois que eu entrei que eles viram. Agora todos eles, meus primos, meus sobrinhos, começam a almejar.
Em relação a seus vizinhos, ocorreu o mesmo. A notícia de seu ingresso na vida universitária se espalha rapidamente. O acontecimento parece comprovar a ideia de que “o sonho é possível”, que o caminho inexorável da repetição da experiência da interrupção precoce dos estudos de seus antepassados e dos indivíduos de sua classe social, de “não ser ninguém”, pode ser invertido:
Até na comunidade tá diferente, eles passam a te olhar de forma diferente. Isso que aconteceu em casa, que eles descobriram que também poderiam traçar o mesmo caminho que eu, aconteceu também pela vizinhança. Porque eu acho que eles falavam: ‘ – A Irene nunca vai ser nada; vai ser igual aos outros, vai parar’. Só que, a partir do momento em que eu entrei na faculdade, vem sempre um vizinho e pergunta como que é, como faz. Aí no outro ano ele já presta o vestibular.
No entanto, o projeto de “tornar-se alguém” por meio do ensino superior não se faz sem percalços. No caso de Irene, estes adquirem um nome bastante específico: Programa Escola da Família (PEF), o objeto de seu Desabafo. A inserção da estudante no programa foi um dos temas centrais de sua narrativa, imprimindo marcas importantes de sua passagem pelo ensino superior. Nas primeiras entrevistas, sua voz baixa e pausada deixava transparecer um bocado de tristeza. Se, por um lado, foi o PEF que lhe permitiu o ingresso na universidade – numa turma formada exclusivamente por alunos atrelados ao programa – por outro lado, o programa representou para Irene uma experiência repleta de dissabores.