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A palavra conquista a cegueira (Vigotski)

Como já dito anteriormente, para alguns autores há uma dominância da visão sobre os demais sentidos. Para Oliveira (2002):

Os olhos são responsáveis por pelo menos 4/5 das informações que a nossa sensibilidade capta do real. A superioridade visual face aos outros sentidos também se manifesta através do nosso mecanismo de prevenção contra

agressões do exterior. (...) Num homem com visão normal, os outros quatro sentidos, juntos, trazem-lhe apenas 1/5 do material informativo originário do mundo que o rodeia. Cabe à visão a tarefa de unificar as informações sensórias trazidas pelos outros sentidos, estruturando-as. Os olhos são o sentido mais apto para nos revelar as diferenças entre os seres.

Considerando que “quanto mais valioso o órgão, mais problemática é a sua ausência” (Oliveira, 2002), o dilema da cegueira está em estabelecer as diferenças visíveis entre as coisas.

Mas para Oliveira, (2002), no caso dos deficientes visuais a visão perderia tal significância:

Para o cego, 75% das impressões sensórias são transmitidas ao cérebro por via auditiva. E isso é muitíssimo significativo, sobretudo se levarmos em conta que, para o vidente, 80% deste mesmo potencial sensório são percebidos e endereçados ao cérebro através dos olhos. São estatísticas que corroboram o papel dos olhos e dos ouvidos como sentidos nobres.

Damásio (2010, p. 74), argumenta que “o cérebro evoluiu enquanto dispositivo capaz de melhorar a sensação, a decisão e o movimento, e gerir essas características de forma cada vez mais eficaz e diferenciada”.

Neste mesmo sentido, explica Santaella (2005a, p. 78):

Sistemas perceptivos são, enfim, órgãos de atenção ativa, suscetíveis de aprendizagem. Através da prática, podemos nos orientar com mais exatidão, ouvir mais cuidadosamente, tocar mais sensorialmente, cheirar e degustar com mais precisão e olhar mais atentamente.

Ademais, Oliveira (2002) defende que: “(...) a natureza dotou-nos de um eficiente mecanismo de compensação, que, no caso de perda de uma faculdade, estimula as restantes a compensarem essa falta, mediante a sua utilização mais intensa”.

A deficiência visual não afetará o que o indivíduo é capaz de aprender cognitivamente, mas sim como irá aprender.

A chave para o desenvolvimento da criança deficiente visual será a compreensão do mundo através de instrumentos alternativos, ou seja, se ela atinge o mesmo nível de desenvolvimento de uma criança dita normal, é porque o alcança de outro modo, caminho ou meio. (MORAIS, 2009, p. 6)

Neste sentido, com a ausência da visão, o deficiente visual pode reestruturar suas potencialidades. A cegueira, segundo Vigotski (p.1):

(...) refaz e transforma a vida de uma pessoa. Consequentemente não é um mero defeito, um menos, uma fraqueza, mas é em algum sentido também a origem de manifestações de habilidades, um mais, uma força (contudo estranha ou paradoxal como pode parecer!).

O autor defende que a falha de uma das funções perceptórias, isto é, um defeito orgânico, é compensado por um aumento no funcionamento e desenvolvimento de outros órgãos.

De acordo com esta visão, a falha das funções perceptórias, i.e., um defeito orgânico, é compensado por um aumento no funcionamento e desenvolvimento de outros órgãos. (...) o fenômeno não surge de uma compensação fisiológica direta pela perda da visão (como a expansão de um rim) mas prossegue ao longo de um caminho muito complicado e indireto da compensação sócio-psicológica global, sem substituir ou repor o órgão debilitado (VIGOTSKI, p. 3)

Para Vigostki, essa substituição na área das funções psicológicas é determinada através de exercício e de adaptações.

Consequentemente, a substituição deve ser compreendida não no sentido de outros órgãos tomados sobre as funções psicológicas dos olhos, por exemplo, mas como uma reestruturação complexa de toda a atividade psicológica, causada pela ruptura de uma das funções principais e redirigidas com a ajuda de associações, memória e atenção em direção a criação e formação de um novo tipo de equilíbrio orgânico em lugar de um destruído. (VIGOTSKI, p. 4)

O autor explica como isto funciona:

Se, por causa de uma anormalidade morfológica ou funcional, qualquer organismo tem uma queda pequena na operação normal, então o sistema nervoso e o aparelho mental assumem a tarefa de compensação para a função prejudicada do órgão. Eles criam uma superestruturação psicológica sobre o órgão em mal funcionamento e esta superestrutura luta para escorar o organismo em seus pontos enfraquecidos e ameaçados. (VIGOTSKI, p. 4-5)

Vigotski conclui que esta atividade de compensação é uma “luta que termina com vitória para o organismo”, isto é, de frente às dificuldades, o

sujeito é obrigado a entrar em um nível de desenvolvimento, o que acaba por transformar a deficiência em competência, um defeito em habilidade:

(...) a cegueira não é somente um defeito, um déficit, mas também ativa novas forças, novas funções e desempenha criativamente um trabalho único. (VIGOTSKI, p. 4)

Assim, para conquistar seu espaço na sociedade, o cego é forçado a desenvolver algumas funções compensatórias. Desenvolve como impulso a compensar a falta de um instituto perdido, a visão. Em outras palavras, “por uma exigência própria do organismo humano, os ouvidos do cego costumam ser mais requisitados que os de uma pessoa que vê. Isso normalmente se traduz fisiologicamente por um desenvolvimento maior da sensibilidade auditiva”. (OLIVEIRA, 2002).

Fazendo da audição um recurso aprimorado, compensando a ausência da visão, o DV precisa atentar a todos os detalhes sonoros emitidos pela televisão para que possa compreender melhor o que está sendo repassado.

Para Vigotski, mesmo sem poder contar com o recurso imagético, não há perda de informação pelo DV: “a habilidade da pessoa cega para adquirir conhecimento é basicamente uma habilidade para compreender tudo” (VIGOTSKI, p. 9).