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Reduzindo as escalas53, volta-se o olhar para a relação dos intelectuais para com a cidade do Rio de Janeiro. José Murilo de Carvalho, em uma conferência sobre pré- Modernismo54, incita uma reflexão sobre a natureza tipológica das cidades que se dividiriam em ortogenéticas e heterogenéticas. As cidades marcadas pela função política, administrativa, majoritariamente consumidora e escravistas seriam do tipo ortogenética. Já as cidades produtoras de bens, sem grandes ligações com a política e pouco influenciada pela escravidão, seriam do tipo heterogenéticas.

José Murilo de Carvalho utiliza essa tipologia para comparar a cidade de São Paulo e a do Rio de Janeiro. Funções políticas e administrativas desde que se tornara capital (da colônia, do Império e da República), uma marcante presença de população escrava e a economia voltada para o comércio fizeram com que a cidade do Rio de Janeiro se aproximasse da tipologia ortognética. Como a escravidão não fora marcante, suas relações com a política foram mais fluidas e sua economia voltada para a produção (café e indústria), São Paulo, a partir dessas características, “aproximava-se da cidade de produtores, com predomínio da economia, com maior grau de liberdade de criação. Era uma cidade heterogenética” 55

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Após essa breve caracterização das cidades, José Murilo de Carvalho aponta a República como um fator geral, que provocou a intelectualidade a pensar sobre o Brasil, pensar sobre a nação. Nesse contexto, Carvalho destaca que, por ser o Rio de Janeiro uma cidade ortogenética, os intelectuais ali radicados teriam algum grau de ligação com o governo: “grande parte da intelectualidade que aqui vivia estivesse de alguma maneira vinculada à burocracia pública (...) tal fato, se não introduzia necessariamente uma perspectiva governista na obra desses autores, certamente constituía limitação a sua liberdade de criação” 56

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José Murilo de Carvalho aponta que a obrigação de mostrar uma imagem civilizada, a capital culturalmente cosmopolita, causava em seus intelectuais uma dificuldade de reconhecer a realidade da cidade e do país.

53 REVEL, Jacques. Jogos de Escalas. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

54 Publicada em livro. CARVALHO, José Murilo de. Aspectos Históricos do Pré-Modernismo Brasileiro. In.: ___________; et alii. Sobre o pré-modernismo. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. pp. 13-22. 55 Ibidem. p.15.

Os intelectuais paulistas não viviam a mesma realidade, com uma maior homogeneidade social, mais independentes do Estado e em uma cidade com uma cultura menos cosmopolita fez com que o Modernismo surgisse em um movimento mais consistente. Por fim, José Murilo de Carvalho conclui que

Em ambas as cidades, apesar das características distintas, havia elementos que bloqueavam o pensar do Brasil como nação, como comunidade política. No Rio, o bloqueio vinha dos traços ortogenéticos da cidade, particularmente da função política de capital do país. Em São Paulo, melhor favorecida por sua feição heterogenéticas, vinha das características sociais de sua intelectualidade, Ou se pensava o Brasil, quando se pensava, como Estado, caso do Rio de Janeiro, ou como cultura e estética, no caso de São Paulo. As dificuldades nos dois casos, quero crer, tinham a ver com o relacionamento dos intelectuais com a vida de sua cidade.57 Buscando compreender melhor a intelectualidade carioca das primeiras décadas do século XX, Angela de Castro Gomes retoma a relação entre a cidade e os intelectuais58. A autora inicia seu estudo explicitando que sua proposta é perceber a cidade para além dos polos econômicos e político-administrativo entendo-a como uma arena cultural,

um espaço (...) produto e produtor das ações dos atores individuais e coletivos que nela vivem. (...) investigar quaisquer manifestações culturais sob a ótica do urbano é trabalhar com a cidade enquanto um campo de possibilidades que delimita as escolhas realizadas pelos seus atores, dando a elas significados apreensíveis pelas próprias experiências por eles compartilhadas59.

A autora destaca que trabalhar com a cidade do Rio de Janeiro implica considerar suas particularidades, já que, com a missão de representar o Brasil civilizado, a sua intelectualidade não poderia deixar de participar das polêmicas culturais. Assim, ao mesmo tempo que Angela de Castro Gomes se aproxima da forma com que José Murilo de Carvalho percebe o Rio de Janeiro, ela se afasta daquela interpretação, uma vez que percebe essa influência da política na atividade intelectual como vantajosa, “como um estímulo à conformação de projetos culturais que teriam interlocução ampla e seriam numerosos, variados e competitivos entre si” 60.

Angela de Castro Gomes entende o intelectual carioca como aquele que produziu afinidade com a cidade, bem como laços de sociabilidade, ou seja, não é a naturalidade que determina a pertença à cidade. Para a autora, o intelectual carioca tem uma dupla inserção na sociedade, em suas palavras,

57 Ibidem. p.21

58

GOMES, A. M. C.. Essa gente do Rio. Modernismo e Nacionalismo. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1999. 59 Idem.p.23.

De um lado, ele possuiria um estreito vínculo com o Estado, pois seria com muita frequência um funcionário público, o que impregnaria um misto de dependência, atração e desprezo por seu „patrão‟. De outro, por não conseguir um reconhecimento social ou por não conseguir um grande reconhecimento social ou por não conseguir ascender às altas esferas do poder político, integrando e influenciando suas instituições de maneira profunda, acabaria por eleger a „rua‟ como seu locus de sociabilidade por excelência, tendo na vida boêmia e na convivência com a população marginal um de seus traços definidores61.

Utilizando o conceito de Tradição intelectual, “postulado como uma base e uma alavanca indispensáveis à organização e à criatividade do campo intelectual” 62, Angela de Castro Gomes atenta que no Rio de Janeiro essas tradições são duradouras, demarcando e organizando as redes de sociabilidade, além de e se apresentarem nas formas e nos conteúdos das produções intelectuais, para a autora,

Salões, boêmia, academias e catolicidade seriam eixos poderosos para a compreensão e articulação do „pequeno mundo‟ intelectual carioca no período estudado. Embora à primeira vista possam parecer excludentes e apenas conflitantes, não o eram, havendo tensões mas também complementariedades entre eles. Portanto, é no bojo dessas tradições intelectuais que as ideias de modernidade e os projetos de modernismo se instalam e circulam pelo Rio, postulados, debatidos e reinventados por grupos organizados a partir de vivências e propostas muito diversificadas63.

Desta forma, a autora refuta a ideia que o modernismo não teve espaço na intelectualidade carioca, cabendo a ela somente manifestações “pré” e “pós” modernista. Rompendo com o uso de dicotomias mais rígidas, a Angela de Castro Gomes enriquece o estudo da relação do intelectual com e a cidade do Rio de Janeiro, por isso alinha-se com a proposta da autora. 61 Ibidem.p.24. 62 Ibidem.p.26. 63 Ibidem.p.31.