Neste eixo, será discutido sobre as práticas de cuidado que os profissionais procuraram para continuar no processo de cuidar de si após participarem do curso de formação de multiplicadores em oficinas – Cuidando
do Cuidador/Resgate da Autoestima.
Ao tentar identificar se as colaboradoras que concluíram o curso sentiram a necessidade de buscar outras práticas de cuidado para cuidarem de si, constatou-se que elas tiveram, de fato, esse desejo. Como mostra o relato a seguir:
“O curso despertou em mim a necessidade de buscar outras práticas de cuidado por causa de tudo que vivi lá, pelas práticas que vivenciei, pelas emoções que consegui sentir e viver [...].” (Karina)
“O curso despertou muitas coisas, inclusive, o desejo de buscar
outras práticas porque [...] percebi que preciso me cuidar.” (Lécia)
“O curso despertou em mim o desejo de me cuidar mais e de procurar outras práticas, pois passei a me olhar de uma forma diferente.” (Cristiane)
A partir destas falas é possível perceber que o curso tem contribuído imensamente para a promoção à saúde dessas profissionais, uma vez que as mesmas passaram a ser perceber de uma forma diferenciada, e entender a importância de reservar um tempo para cuidar de si.
A promoção à saúde tem fundamento em diversos documentos nacionais e é baseada na integralidade, equidade, responsabilidade sanitária, mobilização social, dentre outras diretrizes. Em 2006, o Ministério da Saúde publicou a Política Nacional de Promoção da Saúde cujo objetivo é promover a qualidade de vida e diminuir a suscetibilidade a riscos de saúde relacionados aos seus determinantes e condicionantes(86).
O curso provoca emoções, sensações e descobertas intensas nas pessoas que dele participam, e estão abertas a tais mudanças. Isso acontece devido à realização das dinâmicas vivenciais de resgate da autoestima, exercícios de relaxamento e respiração, leitura e discussão de textos, dentre outras práticas ofertadas no curso. De acordo com Becker(61), tais sentimentos influenciam a consciência do indivíduo, que, na proporção que se tornam cientes de suas emoções, evitam a ansiedade que a falta de consciência dos sentimentos pode gerar, assim como a fuga de si mesmo.
“O cuidar está intimamente ligado ao cuidado da própria alma, a aprender a viver, tendo a possibilidade de ocupar-se consigo.” Trata-se também de uma prática pessoal e social nas quais atividades e exercícios específicos de autoconhecimento e autoconsciência visam a manutenção de práticas saudáveis e a tomada de atitude para realizá-las(87).
Por trás desse desejo existe a descoberta, por parte dos participantes do curso, de que é necessário se cuidar. As colaboradoras passam a ter consciência de que precisam se olhar mais e valorizar o cuidar de si. Vieira, Alves e Kamada(88) afirmam que cuidar está intrinsecamente ligado à percepção do “self”. Logo, o profissional de saúde, para poder cuidar dos outros, precisa atentar-se para o seu interior, não podendo prover um cuidado a contento quando o cuidado consigo mesmo encontra-se prejudicado.
O curso mostra que os espaços de cuidado criados e disponibilizados para os profissionais cuidadores estão sendo aproveitados, já que eles procuram tais locais para cuidarem de si. Nesses lugares, realizam-se práticas não alopáticas, ou seja, que não fazem uso de fórmulas farmacêuticas objetivando a cura de uma doença.
A busca por essas práticas deve-se, principalmente, a falência do modelo mecânico reducionista presente nas atuais formas de cuidado e na crescente busca por práticas de cuidado mais naturais e que atuem
considerando a integralidade do ser. De acordo com Moretti et al(86, p.348), no modelo mecânico reducionista “há uma grande demanda voltada às doenças crônicas e um modelo de atenção voltado primordialmente para as condições agudas”, ou seja, tratam-se apenas os sinais e sintomas da doença, não considerando as verdadeiras causas por trás do adoecimento do indivíduo. A seguir, Saraiva(2) comenta que:
Ao contrário do que ocorre no Oriente, a medicina ocidental se baseia em um conjunto de sinais e sintomas físicos que cada indivíduo possa apresentar. Esta maneira mecanicista de ver o ser humano teve início com as descobertas de René Descartes e Isaac Newton e influencia até hoje o modelo biomédico, dando ênfase à doença e não ao indivíduo doente(2, p. 15).
Diferentemente, o modelo biopsicossocial dá ênfase à promoção da saúde e prevenção de agravos. Foi nesta perspectiva que as práticas não alopáticas começaram a se propagar com mais efetividade no Brasil. Além disso, o MS criou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS – PNPIC, proporcionando um maior conhecimento e interesse por parte da população e profissionais de saúde.
Esta política tem a finalidade de atuar nos campos da prevenção de agravos e da promoção, manutenção e recuperação da saúde baseada em modelo de atenção humanizada e centrada na integralidade do indivíduo contribuindo, dessa forma, para o fortalecimento dos princípios fundamentais do SUS(32).
Como exemplos de terapias, existem àquelas relacionadas a Medicina Tradicional Chinesa, que são uma das mais conhecidas, dentre as quais podemos citar: práticas corporais, tais quais liangong, chi gong, tui-na, tai-chi-
chuan; práticas mentais, como a meditação; orientação alimentar; e o uso de
plantas medicinais por meio da fitoterapia tradicional chinesa(32). As colaboradoras buscaram inúmeras práticas de cuidado não alopáticas, como demonstram as narrativas a seguir:
“Após o Cuidando do cuidador comecei a fazer ioga, [...] reflexologia podal e acupuntura no Equilíbrio do Ser. Hoje faço pós-graduação em naturologia, também.” (Lécia)
“Procurei o pilates, a caminhada, a massagem ayurvédica, a questão das concentrações, a biodança...”. (Ana Suely)
“Faço tai chi no CPICS Canto da Harmonia e danças circulares no Equilíbrio do Ser. Além disso, sou reikiana e participo do grupo de reiki no Equilíbrio do Ser.” (Glória).
“Iniciei uma pós em naturologia, comecei a fazer reiki e fiquei encantada com todas as possibilidades que ele causa em nós. Fiz dois cursos de aromaterapia, que é fantástico, [...] um de cromoterapia e acabei de fazer o de floral.” (Karina)
“Hoje estou praticando esporte. Faço tênis duas vezes na semana e massoterapia uma vez [...].” (Giovana)
Os CPICS são locais construídos, especificamente, com a finalidade de ofertar práticas não alopáticas a população em geral e estão inseridos dentro da PNPIC. Na cidade, onde a referida pesquisa foi realizada, existem três Centros de Práticas Integrativas e Complementares - CPICS: o Equilíbrio do
Ser situado no bairro Bancários, o Canto da Harmonia no Valentina Figueiredo
e o Cinco Elementos localizado no Parque Zoobotânico Arruda Câmara – Bica. No CPICS de João Pessoa são disponibilizadas inúmeras práticas de cuidado, individuais ou coletivas, e também, são ministrados diversos cursos. Dentre as práticas individuais é possível citar algumas como: acupuntura, massagem ayurvédica, quiropraxia. E dentre as coletivas são oferecidas: ioga,
tai chi, danças circulares, biodança, aromaterapia, trofoterapia, argiloterapia,
cromoterapia, terapia comunitária, resgate da autoestima, dentre outras.
Com relação aos benefícios que as práticas proporcionam a quem as realiza, de acordo com os discursos a seguir, é possível constatar que tais práticas trouxeram diversas melhorias para a vida das colaboradoras:
“O pilates ajudou muito porque dá um equilíbrio emocional, [...] me
proporcionou mais a questão da concentração, da resistência do corpo, passei a conhecer meus limites e até a ultrapassá-los. [...] O muaithay, também está me proporcionando coisas boas. É um espaço onde posso liberar todos os tipos de tensões.” (Cristiane). “Fazendo florais é o que me ajuda a entender melhor o que está acontecendo. O reiki me ajuda a fortalecer a energia.” (Tattiana) “Faço ioga para trabalhar com a respiração, pois ela era muito superficial. Consegui trabalhar essa respiração e fui ficando menos ansiosa, foi melhorando tudo em relação ao meu organismo.” (Lécia)
Segundo Kurebayashi, Freitas e Oguisso(34), a acupuntura tem sido eficaz e benéfica no tratamento de estresse, ansiedade, enxaqueca, lombalgia, doenças músculo-esqueléticas como hérnia de disco, tendinite, além de outras
enfermidades. No que concerne a yoga, realizá-la está relacionado com melhora no autocontrole e autoestima, redução da ansiedade, promoção do relaxamento, favorecimento da percepção sobre a consciência corporal e sobre limites físicos e emocionais(35,36).
A dança também foi citada como uma das práticas realizadas pelas colaboradoras para promover o cuidado de si. Seja por meio das danças circulares ou da biodança, o fato é que ambas promovem a expressão corporal da identidade do indivíduo e o estímulo à criatividade, à afetividade, à vitalidade e à transcendência(37). Ademais, a dança é uma atividade que envolve esforço físico, o que contribui ainda mais para uma melhora integral do sujeito adoecido.
Por meio da trofoterapia, pode-se alcançar um equilíbrio positivo no processo saúde-doença com a adoção de hábitos saudáveis referentes à alimentação, tendo o alimento como base para a cura(89). Cabe ressaltar que a promoção de uma alimentação saudável tem efeitos preventivos no que se refere a doenças como hipertensão e diabetes.
Muitas das participantes do estudo relataram que recorreram ao reiki como forma de cuidado. A utilização desta forma como terapia integrativa de cuidado à saúde é recente, porém essa técnica de imposição de mãos originou-se no século XIX. Consiste da transmissão de energia para o corpo de outra pessoa, que fica em determinadas posições correspondentes à localização dos órgãos do sistema endócrino e linfático. Neste sentido, podem- se exemplificar diversos benefícios quanto ao reiki, tais como, redução dos níveis de estresse, ansiedade, depressão e tensão muscular, elevação da percepção de bem-estar e dos níveis de qualidade de vida(90).
Diante do exposto, é possível associar que os benefícios das terapias estão relacionados a melhoria dos sintomas referidos pelas colaboradoras, demostrando a eficácia de tais práticas na prevenção de agravos, promoção e recuperação da saúde.
Além de procurarem outros espaços de cuidado dentro da própria rede de cuidados do SUS, as colaboradoras também realizam práticas particulares, como pilates, tênis e muaithay; e ao ar livre, como caminhadas e ginásticas em diversos lugares da cidade. Ainda, fazem práticas de cuidado em casa, como a meditação, técnicas de respiração e relaxamento:
“Também faço a minha ginástica normal, meditação em casa, pratico um pouco de ioga.” (Luciene).
“Faço aquelas técnicas de respiração, [...] a meditação guiada toda noite, antes de dormir [...]. E é muito melhor quando associo um aroma, uma música de fundo para equilibrar a mente que é tão cheia.” (Karina).
“Em casa, [...] faço um pouco de meditação, geralmente, uma vez por semana.” (Glória).
Já está comprovado cientificamente que a atividade física traz inúmeros benefícios à saúde daqueles que a praticam. Sua função está relacionada principalmente ao condicionamento físico, que permite que tenhamos condições de realizar as atividades do cotidiano sem que fiquemos exaustos em pouco tempo. Outrossim, o exercício físico possui grande influência na qualidade do sono, na presença de sintomas depressivos ou de ansiedade e de outros transtornos de humor, no desenvolvimento da função cognitiva e no surgimento de disfunções mentais(91).
A meditação envolve um tipo de treinamento mental que busca desenvolver e aprimorar habilidades mentais - cognitivas e emocionais - que podem ser benéficas para um desenvolvimento saudável e desempenho mais eficiente, tanto no que tange a aspectos intra como interpessoais(92).
Ainda com relação às práticas de cuidado e ao cuidar de si, é necessário ressaltar a persistência em sua realização, uma vez que nem todas as práticas são fáceis de serem executadas. No caso da meditação, por exemplo, seus efeitos devem levar em consideração as características da pessoa antes da prática. Ademais, verifica-se que quanto maior o tempo de prática, menor será o esforço requerido para manter maior foco(43). Portanto, desistir de realizar a prática não é uma opção para aqueles que realmente conhecem o valor do cuidado de si. Karina, ao compartilhar sua dificuldade de acalmar a mente durante a meditação, buscou uma alternativa para conseguir ter êxito na realização do ato meditativo:
“Todo curso que vou, foca muito na meditação. Isso me inquietava, porque é muito difícil acalmar a mente [...], mas é possível porque comecei dessa maneira. Vasculhei a internet e consegui um site que mostrava meditação guiada. Ela indica que façamos minimamente 30 dias. E fiquei mais encantada ainda porque [...] agora, estou conseguindo”. (Karina)
Foucault(58) revela que esse cuidado de si “implica um labor” que exige tempo para praticá-lo em um exercício de si mesmo. Segundo ele, em toda a filosofia antiga o cuidado de si foi considerado dever e técnica, contendo um grau de obrigação fundamental. Atualmente, com o advento do capitalismo, e consequentemente com a correria do dia a dia, esse cuidado de si deixou de ser uma obrigação e passa, por vezes, a ser esquecido totalmente gerando adoecimento físico e psíquico das pessoas.
As colaboradoras percebem este fato. Assim, para ser aquilo que almejam precisam vivenciar os perigos e percalços desse caminho pelo autoconhecimento e pelas prováveis descobertas de si mesmo. Entendem que é necessário mergulhar nas profundezas do seu íntimo com o intuito de chegar a meta final e ao êxito de encontrar a si mesma, tendo vencido o medo e todas as dificuldades inconscientes que nossa mente impõe.
Persistir no cuidado de si é difícil, visto que muitos profissionais de saúde levam uma vida agitada, devido a dupla jornada de trabalho, lidam com o sofrimento e a dor do outro, com a falta de materiais básicos para fornecer um cuidado de qualidade, dentre outros fatores. Portanto, para continuar se cuidando, o indivíduo realmente precisa querer, persistir e ser forte.
A realização frequente de um comportamento, e transformação deste em hábito, é influenciada por diversas questões, quais sejam, motivação para a ação, percepção dos benefícios, adequação às necessidades pessoais e satisfação com a atividade executada(86). Nas narrativas a seguir é possível entender a motivação das colaboradoras:
“O que mais me motiva a buscar essas práticas é o próprio jeito
delas, por serem naturais, onde posso trabalhar o emocional e o corpo como um todo, e não só determinada parte.” (Glória).
“O que mais me motiva a continuar me cuidando [...] é o bem-estar... Físico e emocional. Porque é importante estar bem, em todos os aspectos.” (Cristiane)
Toda pessoa que inicia uma prática de cuidado sente um pouco de dificuldade e encontra algumas barreiras principalmente relacionadas à motivação interna. Esta é uma das principais responsáveis pela continuidade ou não no processo de cuidar de si. Então, ao buscar a motivação necessária
para as mudanças que ocorrerão devido ao início de uma prática, os indivíduos passam por estágios que vão desde o desconhecimento dos benefícios da prática, neste aspecto estão as maiores barreiras, até o estágio de “manutenção”, em que a atividade foi incorporada em seu cotidiano, tornando- se um hábito(93).
Entre esses estágios, existem outros que permeiam este processo, como o estágio de “contemplação”, em que os efeitos e benefícios da atividade são conhecidos, mas não há a prática efetiva. Existe, ainda, o estágio de “preparação”, quando se percebem mudanças no comportamento do indivíduo, pois este começa a praticar as atividades, porém sem muita regularidade. Além disso, ainda existe o estágio de “ação”, no qual o indivíduo tem a motivação necessária para mudar seu estilo de vida, tornando-se mais ativo e fiel as práticas(93).
Dessa maneira, é importante persistir realizando as práticas e passar por todos os estágios da motivação para que o hábito de praticá-las se fortaleça cada vez mais. Algumas colaboradoras já realizavam as práticas de cuidado antes de participarem do curso, mas depois de o concluírem o desejo de continuar no processo de cuidar de si aumentou. É o que dizem as participantes:
“Após a participação no cuidando do cuidador o desejo de continuar me cuidando ficou mais forte.” (Glória).
“Antes do curso, eu já fazia danças circulares [...] já era uma forma
de terapia para mim. Mas, a partir do Cuidando do Cuidador é que minha mente abriu mais para isso: a prioridade de se cuidar.” (Tattiana).
“Antes do curso eu já me cuidava de alguma forma. Isso aumentou,
porque eu via que quanto mais, melhor.” (Giovana).
Esse desejo aumenta porque à medida que vão participando das práticas, se cuidando, se conhecendo, trabalhando as dificuldades e traumas, as colaboradoras sentem a necessidade de começarem outras atividades de cuidado, haja vista que sempre há uma nova descoberta e um novo entendimento que é preciso trabalhar. Levando-se em consideração que cada prática realizada possui um alvo diferente, é natural que, em algum momento, a
terapia utilizada, não satisfaça as exigências das novas descobertas que surgem. Então, elas entendem que uma prática leva a outra:
“Estou cada vez mais me conhecendo, me cuidando [...]. Porque à
medida que você vai fazendo [...] um e outro, vai se conhecendo e
percebendo a necessidade do que você precisa.” (Tattiana).
“Me percebo em um contínuo processo de aprendizado [...]. Acho que me tornei uma pessoa melhor, e, a medida, que vou me aprofundando, vejo que [...] preciso melhorar mais e mais [...].” (Cristiane)
“[...] Não estou dizendo que estou curada nem cuidada completamente, mas é um processo, uma busca no dia-a-dia que é eterna, acho que cada dia aprendo uma coisa e incluo algo na minha vida.” (Ana Suely).
“Hoje, como pessoa, me percebo caminhando.” (Glória)
Pôde-se perceber, por meio dos relatos das colaboradoras, que o curso representou um momento de liberar as tensões acumuladas, de descarregar o estresse e pressão absorvidos e resgatar as energias. E mais, participar do curso trouxe um aprendizado para a vida toda; diante dos altos e baixos que toda pessoa enfrenta, ter a capacidade de superar problemas e conflitos, auxilia na redução das consequências emocionais e físicas que estes podem acarretar.
Existe, também, a vontade de trabalhar com as práticas, como comentam as seguintes colaboradoras:
“Meu desejo era espalhar para mais pessoas, poder ser professora de alguma dessas práticas” (Glória).
“Outros caminhos estão se abrindo e quero montar uma coisa minha, própria... Sempre com as terapias.” (Tattiana).
“Concluí que posso parar com a educação física, mas não com essa junção que estou fazendo, não quero parar de trabalhar nem de estudar. Vou buscar e continuar, mesmo que seja voluntária.” (Luciene).
Depreende-se que, após a participação no curso, foi despertado o desejo de participar mais ativamente do cuidado do outro e repassar os conhecimentos adquiridos. O aprendizado da habilidade de cuidar do profissional requer um investimento no desenvolvimento de uma consciência holística do ser humano. Para que esteja apto a trabalhar com práticas
terapêuticas integrativas, portanto, o indivíduo deverá desconstruir os conceitos vinculados à visão biologicista e restrita do homem. Também, deverá passar por uma formação na qual haja incentivo e orientação no sentido de que a atenção que dispensar ao outro, seja equivalente ao cuidado consigo mesmo(94).
À medida que essas profissionais se cuidam, sentem o forte desejo de cuidar do outro, de levar para o usuário, a equipe de trabalho, a família e os amigos todos os benefícios que receberam ao participar das práticas. Além disso, consideram esse cuidado do outro, uma maneira de cuidar de si:
“Meu desejo, é não só de ajudar a família, mas de tentar aliviar um pouco do sofrimento, da dor de tantos usuários que vêm aqui.” (Karina).
“No grupo, repassamos muitas coisas que aprendemos no curso, [...] algo que viesse despertar o bem-estar e até a melhorar a condição de vida de cada um.” (Lécia).
“À medida que posso, também, divulgo em grupos [...]. É outra forma de estar me cuidando.” (Glória)
Ademais, as práticas despertaram mudanças no profissional que fazem com que este passe a enxergar o outro de forma diferenciada, a acolhê-lo, a promover um cuidado integral, a ter compaixão e a se colocar em seu lugar. É o que revelam as narrativas a seguir:
“Precisamos ver a dor do outro... parar e sentir aquela pessoa, nos
colocar no lugar do próximo [...]. (Lécia).
“Quanto mais me conheço, é como se eu também conhecesse mais o
outro, respeitasse e os entendesse cada vez mais.” (Tattiana).
Segundo Saraiva(95), é necessário que se intensifique a humanização das ações e dos gestos de acolhimento para que ocorra o enfrentamento dos problemas e a continuação da vida de maneira mais positiva. O cuidado se inicia a partir da escuta e do interesse pelo sofrimento do outro. O vínculo estabelecido entre o cuidador e a pessoa que recebe cuidados é fundamental